domingo, 5 de maio de 2013

Quotes

“She was literally a Botticelli angel.”

 

***

 

“I was looking for some action, but all I found were cigarettes and alcohol.”

 

***

 

“Tell her that I miss our little talks.”

 

***

 

Não posso ter relacionamentos,

sentimentos,

qualquer coisa de verdade,

pois não passo de um personagem.

Um cara dançando sozinho,

No canto da balada.

 

Ela chega,

Vermelho e luzes

E Nirvana.

E dança sozinha comigo,

Que se danem os amigos.

 

E é rápido que chega

E morde, e cheira,

E tosse e cospe,

E se curva, e me curva

E se vai.

E se volta,

É com uma cerveja na mão.

E o corpo não é o certo,

E a voz dispara.

 

As luzes piscam na penumbra,

Já muito tarde.

Talvez se tivéssemos

Nos visto mais cedo.

Sem nome. Que me lembre.

Sem telefone. Nunca mais aquela voz.

Ainda bem.

 

Na varanda com uma garrafa de gelo,

Já é muito cedo,

O Sol já meio nascendo,

Mas ainda não.

As coisas quase dando certo,

Mas ainda não.

Ainda bem.

***

Não importam os méritos literários ou políticos de Hemingway, ele realmente sabia uma coisa ou duas sobre a vida.

***

Você sonha com uma ótima estória, ao longo do dia, vai esquecendo, não escreve. Quando chega a noite, tenta lembrar como era, mas só consegue lembrar que a estória que parecia boa era na verdade simbolicamente autobiográfica.

***

Só se pode ser romântico quando se é bonito, caso contrário se é apenas um idiota.


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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Improvisadores (parte 1, provavelmente)

Todos sabiam que, caso algum dia entrassem em alguma confusão, o culpado disso seria Hector. Eles todos moravam juntos, mas nem Daniel nem Júlio conseguiriam dizer que sabiam muito bem as coisas nas quais Hector se metia quando eles não estavam por perto. Sabiam, no entanto, que essas coisas não poderiam ser boas. Isso pelo arquétipo no qual enquadravam o companheiro de quarto: Hector era largado, não se importava com nada, não levava os estudos a sério, assim como não levava nada a sério. Não eram poucas as noites nas quais ele simplesmente sumia, sem avisar nenhum dos outros dois. Das primeiras vezes foi impossível que não se preocupassem, eram todos auto-exilados de cidades pequenas tentando a vida na cidade grande. Ou melhor, tentando tentar a vida, já que estavam os três fazendo cursinho e isso dificilmente pode ser chamado de vida. Daniel era o que se preocupava mais. Tinha em si aquele espírito taurino de comodidade máxima e que procura sempre a segurança, aquele espírito que é tão comum nos pais e em outras pessoas que para eles eram velhas, mesmo quando não são taurinas. Júlio desistiu de se preocupar com Hector muito rapidamente, tinha mais o que fazer. Mas Daniel não conseguia se desprender completamente. Mesmo quando percebeu que Hector, ainda sumisse por dias, não atendesse o telefone e não avisasse qualquer tipo de coisa para eles, invariavelmente ia aparecer exausto na própria cama, como se nunca tivesse saído de lá, e tendo entrado no apartamento sem que os outros dois percebessem, Daniel não conseguiu deixar de se preocupar por completo. Depois desses sumiços Hector simplesmente se juntaria aos outros, que provavelmente estariam estudando na mesa da sala, em silêncio completo, e acenderia um cigarro, com um sorriso numa metade da boca e a outra com um traço reto dos mais blasés. Daniel deixou de preguntar o que Hector andara fazendo quando percebeu que nunca receberia uma resposta, e passou a tentar esperar que o primo – pois eram primos – viesse a contar suas aventuras de bom grado. Isso também nunca aconteceu, é claro.

Hector estava no seu segundo ano de cursinho. Tentara direito, psicologia e não fazia ideia do que tentaria agora. Não se importava, só continuava prestando o vestibular para que seus pais continuassem a sustentá-lo em São Paulo, não queria sequer pensar em voltar para sua cidade natal, e muito menos em ter de trabalhar para pagar pelos próprios hábitos. Quando Daniel não conseguira entrar no curso de engenharia que tentara no ano anterior, os pais dos dois acharam que seria uma boa ideia que fossem morar juntos. Se Hector não gostou da ideia também não disse nada contra ela. E como o apartamento ficaria mais em conta dividindo em três, Júlio acabou indo morar com eles. Também estava no segundo ano de cursinho, mas estava tentando medicina, então já estava conformado de até mesmo ter de fazer cursinho por mais algum tempo. Tecnicamente Júlio chegara ao apartamento por ser amigo de Hector, mas Daniel não conseguia ver como isso poderia ser verdade. Pareciam diametralmente diferentes. Tudo que Hector tinha de largado, Júlio tinha de dedicado, ainda que isso fosse simplesmente por culpa da necessidade na qual se encontrava. Tudo que Hector de de blasé, Júlio tinha de louco. Daniel, é claro, não se sentia bem com nenhum dos dois.

O único momento em que os três pareciam um grupo de verdade era quando cada um empunhava um instrumento musical e se colocavam a tocar. A música tem esse poder mágico de unir as pessoas muito mais que qualquer outra forma de arte. Quando estavam ali, no apartamento, Hector se sentava ao piano, que havia pertencido à avó que compartilhava com Daniel, como se estivesse interpretando um músico de honk-tonk saído direto de algum filme dos anos 40 e os outros dois pegavam cada qual um violão. Não raro improvisavam. Eram muito bons em fazer isso juntos. Outras vezes compunham; Hector era especialmente bom nisso. E ainda, mais raramente, tocavam alguma música dos Beatles, banda pela qual Júlio era tão fanático quanto qualquer menina da década de 60 trajando suas características meias três-quartos. Sobre a cama de Júlio havia uma foto do grupo tocando no Nippon Bodukan, e no criado mudo ao lado da cama, uma pequena foto de George Harrison que beijava todas as noites antes de ir dormir, como se fosse a imagem de um santo. Uma vez por mês iam em um estúdio. Lá Hector ficava com o baixo, ainda que não completamente satisfeito com isso, Júlio com a guitarra e Daniel com a bateria. Vez ou outra Hector conseguia se safar e tocar num piano, teclado, uma segunda guitarra ou alguma outra coisa que estivesse disponível. Seu talento real era no piano, improvisava muito bem nele, com uma pitada do jazz que tanto gostava. Daniel não entedia muito de jazz, mas sempre lembrava de Thelonious quando Hector tocava, por algum motivo misterioso. Daniel gostava da bateria por um fator muito simples: ali ele tinha em quem bater, podia direcionar sua raiva e seus hormônios para algum fim mais ou menos útil. Júlio sempre lembrava da bateria dos Sonics quando ouvia Daniel tocando. Mas não era só para liberar a frustração de um rapaz de dezessete anos que passava metade de seu dia preso numa sala de aula cujo ensino era direcionado para a área de exatas – e composta por ao menos 90% de outros rapazes como ele, embora talvez um pouco mais feios, em geral – que Daniel sentava no banco da bateria. Ele realmente gostava do instrumento, e gostava dele com violência. Júlio, como a fotografia de Harrison deixava bem clara, não tinha muito para onde fugir de sua guitarra. Surpreendentemente, no entanto, ao tocar ele não lembrava os outros dois companheiros de George, pelo menos não na sua fase Beatle, os solos eram muito longos, os riffs eram completamente viajados. Era fácil de perceber que ao tocar Júlio entrava numa espécie de transe. Sua guitarra, uma fender cherry red, estava completamente destruída de tão usada, quando Daniel a ouvia só conseguia pensar em anjos e na festa do céu, Hector lembrava do diabo, de Robert Johnson e Paganini. Não tinham pretensões, tocavam para se divertir (Júlio), para aliviar o stress (Daniel), ou simplesmente porque tinham de colocar aquela música para fora (Hector). Essas eram situações mágicas para todos eles. E, como tal, não eram frequentes, pareciam ser guardadas para momentos propícios. O que definia o quão propício era o momento era simplesmente o destino.

A verdade é que a maior parte do tempo Júlio e Daniel passavam estudando na mesa da sala. Hector ficava zanzando pelo apartamento, fazia comida, dormia, lia Nietzsche, fumava, deitava no chão, e se entediava até não conseguir mais aguentar e sumir por algum tempo. A maior parte das vezes simplesmente passava uma noite fora, uma noite e um dia, duas noites e o dia no meio, vez ou outra, no entanto, sumia por três dias e os outros inventavam desculpas, caso alguém da família ligasse atrás dele. Não era difícil. Mais difícil seria explicar o motivo de Hector nunca atender o telefone celular, mas por algum motivo essa questão nunca vinha à tona. Daniel pensava que o primo poderia atender nesses casos. Mas a chance disso realmente acontecer era mínima. Era já final de maio quando Hector passou quatro dias fora. Por um lado isso não era nada demais, era de se esperar que alguém que passava três dias fora muito bem pudesse passar quatro. Mas essa quebra de padrão deixou Daniel preocupado. Júlio tentou acalmá-lo. Caso algo ruim tivesse ocorrido, eles já estariam sabendo disso. Não é foi um grande consolo para Daniel, mas ele tentou se conformar que era fim de semestre, nada mais natural do que Hector estar mais estressado que o normal e decidir prolongar suas aventuras noturnas (pois Daniel certamente pensava que essas aventurar eram principalmente noturnas) do que o usual. Não foi, no entanto, esse o caso. Dessa vez, quando Hector chegou em casa, ele não foi sorrateiro como um ninja, mas sim parecia querer chamar a atenção dos dois amigos. Os olhos arregalados não combinavam com a expressão blasé que tinham se acostumado a ver no rosto dele, ainda que o cigarro estivesse ali na boca, imutável. A camisa ensanguentada, no entanto, foi o que deixou Daniel à beira do desespero; perguntou imediatamente se o primo estava machucado, se precisava de ajuda. Depois de um segundo para pensar, Hector respondeu que não, não estava machucado, mas precisava de ajuda; tinha matado alguém e agora precisava se livrar do corpo. Júlio e Daniel, como bons amigos, é claro, imediatamente responderam que sim, que ajudariam.

***

The word under her name was "wed"
And the ring on her finger was a raven
Promising me "nevermore".

I changed my clothes
And all of my passwords
And all of my habits
But I could not save myself
From the greatest of vices: You.

Too real to bear
Were the parts of you I kept,
the ones you hide and leave to die
And when I go, they go with me
The real you, it goes with me.

The light in your eyes will gaze
At all the things that could have been
But were just too real to exist

And, "nevermore", will say your lips.

***

Não sei o que fazer. Nunca soube e nunca vou saber. Se agi errado, a culpa é minha. E não, não existe como não me sentir culpado. É que a vontade de escrever alguma coisa confessional sempre aparece em alguém que tem uma vida tão vazia quanto a minha. Deve ser exatamente por isso, nada lá fora parece fazer parte da vida, então você precisa preenchê-la, nem que seja com textos idiotas, e com um número de filmes grandes demais para um dia com apenas vinte e quatro horas. É uma forma de ao mesmo tempo encontrar um sentido e uma ocupação. Eu não tenho nada na vida, por isso procuro a arte, é ela que supre as lacunas. E é por isso que procuro por ela quando preciso de algum analgésico. É como o álcool, de diversas formas. Uma delas é que o escrever é uma forma de esquecer. Quando as coisas estão ali, postas no papel, é mais fácil pensar que está tudo terminado. “Closure”, não é essa a palavra? E também é por isso que é um inferno ter uma boa memória. Como por um ponto final pode ser possível se se lembra a cada cinco minutos? E como agir então quanto te vejo? Me convenço que sou adulto e que sei lidar com tudo. E é verdade. Mas o menino que escreve lembra, e lembra com o único objetivo de esquecer. O menino que escreve não sou eu, não se preocupe. Mas isso não muda nada, no fim das contas, não é mesmo? Será que é possível mudar? Sei que aprendemos coisas, que a experiência devia nos tornar diferentes, mas não tenho tanta certeza. Cada vez mais duvido da capacidade que qualquer coisa possa ter de mudar. Não, não digo isso só porque não mudou o que sinto. Digo isso porque olho para o mundo e parece tudo triste, e parece tudo vazio, e parece que é necessário achar alguma coisa que ponha um pouco de sentido na vida. No meu caso foi a arte, foi a escrita. Mas paro para olhar e isso é tão vazio, imagino se os outros, aqueles que escolhem a política, o trabalho, a família ou mesmo o amor sentem o mesmo. A vontade de mudar, a raiva, só faz parte da imutabilidade. E como poderia alguém assim parecer interessante? É só mais um no meio de milhares tão inúteis quanto. E o menino que escreve é tão inútil quanto eu. Talvez ainda mais. Mas não acredite nele, é tudo maquiagem, é tudo drama. O menino que escreve não sabe fazer as coisas de forma que elas pareçam o que são, ele só sabe fazer com que elas pareçam dramáticas. Mas o menino tem que escrever, se o menino não escreve eu não esqueço. E se o menino escreve, bem, ainda assim eu não esqueço, mas consigo me anestesiar por um tempo. E é só tempo no fim das contas, não é?

***

You know you're my queen of hearts
And I come back and see you soon.”

***

“The dreams we have as children fade away”.


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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Atando nós.

Todos os dias, enquanto atava a gravata e se olhava no espelho, tinha de lutar consigo mesmo para não chorar, para segurar as lágrimas. Era difícil, quase impossível, mas sempre ganhava. Era nada mais que a repetição de um ritual que tinha desde a infância. Devia ter uns dez anos quando sentira uma vontade imensa de chorar enquanto amarrava os cadarços. Naquela época, havia motivo. No entanto, lutou e segurou o choro. Não para parecer mais forte e maduro do que eram seus anos, não porque achava que não valia a pena, pois valia, e sabia disso. Não sabia o motivo.Todos os dias desde então era o mesmo. Algumas vezes a vontade vinha por um motivo inquestionável, outros, pela menor das insignificâncias. Muito frequentemente vinha por motivo algum. Mas então, quando saia de casa e encarava o mundo, sabia que nada que nele existia poderia fazê-lo chorar. Nada no mundo.

Agora era um adulto, o rosto não era mais o de um menino, na verdade, já apareciam alguns sinais de idade, mesmo não sendo ainda velho. Mas a verdade é que ficara velho naquele dia em que segurara o choro enquanto amarrava o tênis. Achava que isso significava saber lidar com os próprios sentimentos: não chorar, nunca falar “eu te amo”, para ninguém, nem para a família, para os amigos, nem para a pessoa certa. Estava errado, mas se enganava, assim como se enganara naquela manhã com os sapatos e sem as lágrimas, dizendo para si mesmo que ia ficar tudo bem. Pois não ia. Não ficou e não vai ficar. Isso é certo. Nunca gostara dos livros que não tinham finais felizes, pois era só por conta do final feliz que ele conseguia deixar aquilo ir, conseguia se lembrar que aquilo não era de verdade. A verdade é um dia de chuva e uma gravata azul. Verdade é lembrar das coisas boas sabendo que não se aproveitou o suficiente porque não se deixou levar pelo sentimento. Não se deixava levar por nada. Eram só piadas sarcásticas e raiva do mundo. Raiva que não existia. O que mais queria era dizer que amava. O que mais queria era poder chorar, e ter amigos de verdade. Era dizer como o mundo e as pessoas o fascinavam. Tudo que queria era correr o mundo e conhecer tudo, aprender e ler numa cama dividida. Tudo que queria era mandar sua rotina se foder. Mas toda a manhã amarrava de volta o sentimento, prendia a si o tédio com o mais forte dos nós. Era apatia. Não sabia porque, só sabia que queria fugir e não podia. Para fazer isso teria que chorar e tinha medo. Tinha medo de tudo que sentia. Por isso perdera a chance de dizer que amava alguém entre um beijo e outro. Por isso perdeu os sonhos que tinha aos dez anos, aos poucos, morrendo de inanição. Os que tinha agora eram faz-de-conta. Eram sonhos de adulto, e adultos não sonham. Não de verdade.

E agora sentia que era tarde demais. Sua vida virara uma repetição sem sentido. Seguindo em frente apenas para ver as marcas no rosto ficarem mais profundas, para ir aos poucos se afastando de todos que lhe significassem alguma coisa. Perdera a chance de sentir algo, perdera a chance de se envolver com tudo que poderia querer: sonhos, pessoas, atividades. Se tivesse algum amigo, lhe diria que não é tarde, que é jovem. Mas nunca se é jovem o suficiente, quando se percebe, tudo já virou merda. E talvez já fosse antes, só não se tivesse percebido. Ele nunca disse adeus. Nem antes, quando deveria ter chorado e não chorou, nem depois, quando deveria ter dito que amava e não disse. Mas se despedia de si mesmo todos os dias. Cada vez mais a gravata azul – sempre azul – lhe parecia com uma forca, mas uma que ia lhe matando aos poucos. Primeiro a imaginação, depois o afeto, por último a tristeza. Quão triste é não conseguir mais ficar triste? Antes, quando ainda achava ser possível, colocara suas esperanças em diversas coisas, no livro que ia escrever, na pessoa que amava sem dizer, e por fim até em si mesmo. Destruíra tudo sem nada fazer.

Terminava o nó e se olhava no espelho. A gravata azul, o colete preto, como o resto do terno. Os olhos vermelhos, mas secos. Oito da manhã e previsão de chuva. Café preto, duas torradas e três cigarros antes de sair. Eram todos os cigarros que fumaria durante o dia. Gostava de pensar que não tinha um vício, que estava no controle, mas estava errado, como sempre. Não comeria nem beberia mais nada até voltar para casa, para o refúgio de seus pesadelos. Saía de casa e ligava o rádio. Ouvia Roger Waters dizendo “I don’t need no arms around me, and I don’t need no drugs to calm me” e sabia que ele também estava mentindo para si mesmo. É isso tudo que as pessoas faziam. Não por vontade própria, mas porque alguma coisa fazia com que não soubessem agir diferente. Era ir além dessas mentiras, era disso que gostava, era isso que o fascinava nas pessoas. E era isso que negava a si mesmo. Sabia que todos mentiam para si mesmos, mas nunca conseguira saber se todos se sentiam tão paradoxais quanto ele. É preciso amar alguém para cometer o erro de não dizê-lo. É preciso perder uma parte importante de si para chorar. Talvez as pessoas que dizem “eu te amo” o façam por não amarem, numa tentativa de forçar esse sentimento. Talvez as pessoas que choram o façam para fingir que ainda tem o que perder de si mesmas. Mas não, não era isso, sabia. Se fosse isso, as pessoas o encantariam muito mais do que o faziam de fato, esse era um problema seu, e se os outros tinham algo em comum com ele é que todos tinham cada qual seu próprio problema. Sentia o cheiro de asfalto molhado antes de começar a chover.

Na manhã seguinte era tudo igual. A gravata, os olhos vermelhos, o café, as torradas, os cigarros. A previsão é de chuva forte no fim da tarde, céu cinza o dia todo. Para sempre. Sempre.


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sábado, 6 de outubro de 2012

Era (ou tentativa de prosa poética #28)

Era um daqueles dias em que o Sol parece estar a pino mesmo cedo da manhã, ou mesmo pouco antes de desaparecer de vez. Mas era justamente o meio do caminho. Meio dia ou algo assim. Surpreendentemente, isso não queria dizer que estava quente, era simplesmente um dia claro de primavera. O céu, quase azul demais para suportar, sem nuvens, sem esperanças; ou medo.
Era um bairro histórico. Coisa que no novo mundo quer dizer algo muito incerto. Apenas um amontoado de casas velhas, algumas das quais haviam sido vagamente importantes no passado, a arquitetura incluía de tudo, desde colunas coríntias até rococós em falsas sacadas, sem esquecer, claro, das caixinhas azuis coloniais. Nada tinha a menor utilidade, tudo muito kitsch, e por isso agradava tanto aos jovens. Tanto os que afetadamente confundiam kitsch e sofisticação quanto os que buscavam a diferença e o real vivendo na sujeira do mundo, que no fim é só uma forma diferente de kitsch. E eu era apenas um dentre esses. Não importa de qual grupo, eu não sou importante nessa história.
Era um café pequeno, espremido entre uma galeria e uma casa velha. E meu café já estava frio quando a vi.
Era linda.
Era como uma borboleta.
Era o cabelo, loiro e longo como o fim do mundo.
Era o vestido, rodado e florido, branco, leve, de verão, visivelmente fino, infelizmente opaco; que dançava enquanto ela andava, e deixava à mostra os tornozelos. E os ombros ligeiramente largos para além das alças.
Era o fato de levar na mão as sapatilhas e no rosto um sorriso adulto, mas que não deixava de ser inocente.
Era a alegria daqueles pés descalços. Impensavelmente descalços. Inesquecivelmente descalços.
Era o andar incerto e cambaleante, de quem dança, de quem é louca.
Era o olhar. Aqueles olhos que finalmente tinham encontrado.
Era poesia diante de meus olhos e de minhas lentes escuras.
Era a luz do Sol, o azul do céu e as flores.
Era o brilho dourado no ar ao redor.
Era epifania. Mas não minha.
Era viva. 

***

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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Lost In The Supermarket

Era para ser uma coisa simples. Todo mundo vai ao supermercado, não tem nenhum desafio nisso, nenhum mistério. Não é também como se eu nunca tivesse ido em um. Não num tão grande quanto aquele, isso é verdade, mas não pensei que fosse acontecer algo como me aconteceu.

Tinham me falado daquele lugar, falavam que lá era possível encontrar tudo, qualquer coisa que quisesse comprar, e a um preço justo, todos pareciam sair de lá satisfeitos. Se é que era possível para um supermercado, o lugar estava se transformando numa espécie de point, até mesmo meus amigos mais alternativos comentavam, esperava que eles fossem até esses lugares, hoje em dia é inevitável, mas não eram o tipo de pessoas que se orgulhariam disso, alguns até teriam vergonha de ter de recorrer a uma grande cadeia de supermercados, mesmo que esporadicamente. Fiquei, portanto, curioso. E foi por essa curiosidade que decidi, num dia particularmente entediante, atravessar boa parte da cidade e ver se realmente tinham motivo para tudo isso. 

Não tinha muita coisa para comprar, não, eram simples utensílios rotineiros, que não precisaria ir até lá para comprar. De fora dava para ver que era gigantesco. Quando era mais jovem, lembro de uma discussão que tive com um amigo sobre a transferência de centro na cultura ocidental, que cada vez mais era ocupado por lojas, shoppings e afins, e como isso se refletia na arquitetura. Eu não era grande expert na área, então fazia leves divagações sobre o tema, em determinado momento comparando a importância que hoje se dava aos shoppings à que décadas e séculos atrás se dava às igrejas, nada muito complexo, coisa que eu mesmo devia ter ouvido em algum outro lugar, falado por pessoas com ainda menos base do que eu. Meu amigo, por sua vez, era arquiteto, e, portanto, falou montes de coisas que deveriam ser mais profundas e verdadeiras, mas das quais entendi muito pouco. 

Vendo aquilo era difícil não achar exagerado, era muito grande, muito monumental, parecia um shopping inteiro, por mais que houvessem me dito que era uma única loja. Era difícil até mesmo saber se eram muitas as pessoas que estavam lá, era difícil fazer uma escala comparando com o tamanho do lugar, parecia muito esparso. Muitos dos caixas sequer estavam funcionando, mas talvez por também serem muitos. Haviam carrinhos e cestas de todos os tamanhos, em várias cores. Os carrinhos aparentemente todos em boas condições, sem aquelas rodas problemáticas tão comuns. Mas era de se esperar, o lugar tinha aberto a pouco tempo.

Era inevitável, passeando por todas aquelas ilhas dos mais variados produtos - alguns dos quais com rótulos estrangeiros estranhíssimos que praticamente inviabilizavam a identificação – deixar de pensar em como o consumo se entranhara na sociedade moderna, a ponto de serem edificados monumentos como aqueles. Não estou sequer falando em análises profundas sobre tudo que aquilo significava na ordem capitalista, ou todo os valores, trabalhos e histórias que se escondiam naquelas embalagens e em suas marcas, não, por mais que não descarte essas reflexões, dificilmente vou fazê-las ao mesmo tempo que encho o meu carrinho de compras das coisas que vou precisar para o mês. A reflexão ia muito mais por esse caminho do “precisar”, das necessidades fabricadas, de onde estaríamos sem tudo aquilo, se tudo aquilo realmente significava algo para as pessoas que o compravam além de uma simples atitude mecânica sem reais fins e princípios. 

O lugar me dava um pouco de medo de inicio. Os corredores infinitos, nos quais nem sempre encontrava pessoas, os grandes banners anunciando promoções, o teto distante, a claridade que lembrava um hospital, uma sala de cirurgia. O clima e até mesmo o cheiro também não eram muito diferentes de um hospital. Mas mesmo aí estava tudo bem.

No entanto, em determinado momento, percebi que estava perdido. 

Não conseguia ver onde ficavam os caixas, e já tinha perambulado tanto pelo lugar que não conseguia refazer meus passos. Era como se, ao tentar voltar por onde viera, tudo tivesse mudado, os produtos, os banners, até mesmo as prateleiras. Era como se sempre fizesse a curva para o lado errado, era como se fosse um labirinto. A primeira reação foi rir de mim mesmo. Nunca fora uma pessoa com o melhor dos sensos de direção, e o lugar era grande, me perder lá dentro era uma coisa engraçada, no fim das contas. Continuei tentando, continuei não conseguindo.

A paciência foi acabando, então resolvi pedir direções para alguma das pessoas que encontrava pelos corredores. Não consegui evitar me sentir envergonhado ao me aproximar da primeira para perguntar onde ficava a saída, e receber acenos vagos como resposta. E não deu certo. Com a segunda pessoa, não me envergonhava apenas de não saber encontrar o caminho, mas era também uma vergonha interna por não ter entendido a primeira pessoa e precisar perguntar a uma segunda. Essa deu direções mais precisas, às quais segui à risca, sem, no entanto, gerar resultados. À terceira pessoa fiz a pergunta já com um certo desespero. O resultado foi o mesmo. 

Com o tempo ficou cada vez mais difícil encontrar pessoas, elas foram ficando cada vez mais raras, o que me deu a impressão de estar indo na direção errada, mas não desisti. Ao encontrar outra pessoa, decidi que não faria perguntas, simplesmente a seguiria. E fui assim fazendo isso através dos corredores de materiais de limpeza, uns só para sabão em pó, dois ou talvez três para detergentes. Através dos incontáveis corredores de lâmpadas, fluorescentes, fosforescentes, curtas, longas, amarelas, brancas, negras, econômicas. Talvez a pessoa que seguia (uma senhora de meia idade, com um ar de dona-de-casa inegável) tenha percebido a minha perseguição e tratado de fugir com toda sua força, pois de repente, ao virar a esquina de um corredor para outro, ela simplesmente não estava lá. Nunca voltei a vê-la, assim como não voltei a ver nenhuma das outras pessoas às quais tinha pedido informação ou mesmo aquelas com as quais simplesmente tinha cruzado. Estava sozinho no supermercado.

Tudo piorou quando as luzes se apagaram. Aparentemente o lugar não funcionava 24 horas. Todo o ambiente do lugar impedia que a escuridão fosse total, mas a penumbra num lugar daqueles já era assustadora. E assim começaram a passar meus dias: as luzes ascendiam, eu vagava, sem encontrar vivalma, as luzes apagavam à noite. Com o tempo perdi os pudores e passei a consumir coisas da loja, não poderia arriscar minha sobrevivência. Algumas vezes passava por lugares que me pareciam conhecidos, algumas vezes tinha certeza que já passara por ali, mas agora estava tudo diferente. Percebi que os produtos perecíveis estavam sempre na validade, que tudo era vez ou outra trocado, substituído por coisas novas. Passei então a ficar de tocaia, esperando alguém que viesse fazer as substituições e implorar por ajuda, sem me importar se iria parecer um louco. Mas essas pessoas nunca apareciam. Eu podia passar horas, dias esperando e elas nunca apareciam. Mas bastava virar as costas e tudo mudava. A raiva crescia de uma forma assustadora. Destruí prateleiras, derrubei produtos, tudo permanecia impassível. 

A única forma que me pareceu viável de impedir a loucura foi através da criação de personagens. Fingi que estava tudo bem, que estava fazendo compras normalmente. Retirava os itens das prateleiras para mais para a frente recolocá-los, sem me importar se estavam no lugar certo. Corria para aproveitar as promoções, não conseguia raciocinar, tudo parecia tão irreal. Não conseguia pensar em nada, talvez até conseguisse sentir minha cabeça se esvaziando de todo pensamento racional, se é que ainda conseguia sentir alguma coisa. Posso ter ficado ali por anos fazendo isso, nunca saberia. E provavelmente nunca pensaria em nada, nem mesmo na desgraça em que me encontrava se um dia não tivesse ouvido a voz que vinha de lugar nenhum. A Loja, o Todo-poderoso Supermercado, a Entidade que quebrara minha alma e minha razão fazia um anúncio. Qual foi a minha esperança desmedida a ouvir aqueles sons, primeiro dúvida, seria real? Sim, era real, o que diriam? Teriam percebido a assombração que era eu rondando os corredores? Será que me ajudariam? Não, nunca. Com frieza e imparcialidade, a Voz simplesmente pediu que os clientes fizessem o favor de não recolocar os produtos em prateleiras às quais não pertenciam, e então se calou, provavelmente para sempre. Eu ri, ri como um louco, e continuei meu caminho. 

Não saberia dizer quanto tempo depois disso, quantas centenas de vezes as luzes tinham apagado e acendido até o dia em que encontrei a escada. Era uma escada rolante, que subia, subia uma grande altura, sabe-se lá para onde. Passei horas aos seus pés, refletindo. Sabia que nunca tinha passado por ali, sabia que tinha entrado pelo mesmo andar no qual ainda vagava. Mas a dúvida era cruel, será mesmo? Será que não mudei de piso sem perceber? Será que por isso não encontrava a saída? No fim das contas, já tinha tentado tudo que podia aqui nesse andar, será que não era melhor arriscar o próximo, podia haver uma saída ali, um caminho mais fácil, um caminho que pudesse ser encontrado. Decidi então arriscar, deixei ali embaixo meu carrinho e subi a escada, ansioso para ver o que existia lá em cima. 

Faltando ainda alguns degraus pude ver. Uma seção de brinquedos, brinquedos horrendos, grandes bonecos e palhaços de plástico olhando em minha direção, olhando e rindo. Me apavorando. Tentei correr de volta, descer a escada rolante que subia, tentei com todas as minhas forças, mas nunca cheguei à metade do caminho de volta, minhas pernas me traíram. Pensei em me jogar, mas era alto demais, e estava fraco, ninguém viriam me ajudar. Não queria morrer, queria sair dali. Minhas esperanças se foram por completo. Aos pés de bonecas e palhaços, me ajoelhei e me pus a chorar.

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domingo, 23 de outubro de 2011

Inconveniências.

Meu único consolo é que, como dizem os Kings of Convenience, There’s a little bit of you in everyone.

***

I write your name a thousand times

And erase each of them.

I wish it was this simple

to deal with my feelings

to deal with you.

But the truth is -

and you know it -

I’m just no good at

dealing with anything at all.

***

Eu não vou saber o que é isso -se é ou não amor-, a não ser que você me diga.

***

SETUDEN-A4_2J. trabalhava no turno noturno da loja de conveniências. A loja era como aquelas que se encontram em alguns postos de gasolina, pequena mas com uma grande variedade de produtos: revistas, alimentos, pilhas, artigos de higiene pessoal, guarda-chuvas, e coisas do tipo. Durante o dia o lugar até que era bastante movimentado, com muitas pessoas entrando, saindo e comprando; mas já no começo da noite – assim que acabavam os pães que eram trazidos duas vezes ao dia por um padeiro associado – o número de clientes caia a olhos vistos. Era mais ou menos nessa hora que começava o horário de J. – quando ninguém mais tinha interesse na loja –. Provavelmente alguém que cobrasse um salário maior faria com que passar a madrugada abertos não valesse a pena, mas o anúncio dizia “24h” em letras chamativas.

A verdade é que existiam alguns clientes fixos que iam até a loja naquele horário, mas eram muito raras as vezes que alguém completamente desconhecido aparecia ali; quando esse tipo de coisa acontecia, J. já imaginava que o fazia por alguma emergência e quando não parecia ser esse o caso ficava um pouco desconfiado. Era uma pessoa de sorte, outras lojas da vizinhança já tinham tido problemas nos seus horários noturnos, mas nada demais havia acontecido desde que trabalhava naquela loja.

Todos os dias, quando J. chegava, os pães já haviam acabado, e costumava sair assim que chegava a leva matinal, deixando o árduo trabalho de vendê-los para os dispostos funcionários que tinham de acordar por volta das 4 da manhã exatamente para fazê-lo. Ou seja, parava de trabalhar ainda antes do Sol nascer. Quando parava para pensar, a verdade é que via o Sol poucas horas por dia, em geral pelas frestas das janelas de casa, principalmente ao entardecer, antes de sair de casa, mas também algumas vezes durante o dia alto, quando não conseguia dormir, seja pelo calor ou pela necessidade de fazer alguma coisa. Na maior parte do tempo acordado, ficava na loja, e na maior parte do tempo que estava lá, ficava sozinho, mas não se sentia solitário, tinha o lugar só para si, e tinha também a quietude do fim da noite e do começo do dia.

Por favor, não se precipite a julgá-lo como antissocial ou algo do gênero, que tipo de pessoa – de persona – seria ele se fosse assim tão raso? Mas ele merece ser observado um pouco antes que suposições sejam feitas. Vamos observar um pouco uma noite de trabalho dele para tentar entender melhor.

Ele esperou algum tempo depois de ser deixado completamente sozinho na loja, com a saída dos seus antecessores, para se sentir realmente à vontade. Abriu a mochila que sempre trazia para o trabalho e na qual tinha grande parte das coisas que precisaria para passar a noite de trabalho. Vestiu uma camisa xadrez sobre a camiseta que tecnicamente tinha que usar enquanto trabalhava, alguns CDs e um livro, Moby Dick. Recentemente tinha redescoberto os discos de David Bowie, mudando de opinião sobre vários deles, deixara de gostar de Ziggy Stardust – embora ainda gostasse dessa música, não gostava mais do disco, que antes fora um dos seus favoritos – e gostava ainda mais de Space Oddity e Hunky Dory, e um pouquinho mais de Diamond Dogs. Mesmo os últimos discos estavam sendo ouvidos de uma forma diferente. Mas a maior descoberta dos vários dias nos quais passara ouvindo a discografia do  barítono fora sem dúvida Aladdin Sane. Foi pego de surpresa pela grande presença de piano no disco, e pelos jogos de palavra, presentes até mesmo no título, mas que só percebera ao ouvir o nome do personagem ser pronunciado na música como Aladd Insane. Pressentia que iria escutar o disco várias vezes enquanto se perdia no mar com o capitão Ahab.

O primeiro a passar ali naquela noite foi o homem de terno. Ele vinha ao menos uma vez por semana, sempre em um terno, preto ou em outra cor escura genérica, sempre cansado, com algumas olheiras e traços sérios. J. algumas vezes imaginava que o homem trabalhava com uma funerária ou alguma coisa parecida, mas a verdade é que cogitava isso apenas para deixar a imaginação fluir, que aquele era um homem que tinha que lidar com pessoas no momento em que elas estão mais vulneráveis – quando estão mortas – e com as pessoas quando estão no seu momento mais racional  - quando alguém que amam morre –, mas a verdade é que por mais que imaginasse, tinha certeza que não era disso que se tratava, o rosto era sério demais, não demonstrava a sensibilidade de alguém que tem que lidar com a Morte, ao menos não dessa forma. Deveria ser simplesmente alguém que se atulhava de trabalho algumas vezes por noite dentro de um escritório, um advogado talvez, e não tinha para quem voltar quando ia para casa. O homem de terno sempre comprava alguma coisa que pudesse preparar fácil para comer quando chegasse em casa, e sempre mantinha uma distância fria para com J., por mais que se encontrassem com frequência, nunca falava nada além do essencial para a compra. J. não estava certo que aquilo era realmente frieza, por mais que desconfiasse que fosse, não deixava de lado a possibilidade de ser um agente funerário, que evitava proximidade com qualquer pessoa, para que no caso de alguma morte não se visse empurrado para a dolorosa racionalidade do luto. Escolheu algum tipo aleatório de lamen e se aproximou do caixa, só então J. deixou o livro de lado por alguns instantes (por mais que tivesse espiado por sobre o livro, não deixara de lê-lo) para atender o cliente, que manteve sua distância e saiu olhando para J. apenas quando tal era inevitável. J. ficou pensando se nas outras noites o homem comprava comida em outros lugares, para não ter que criar algum tipo de relação através da rotina.

Já estava ouvindo Aladdin Sane pela terceira vez quando a suicida apareceu. Ela parecia ter acabado de sair do Breakfast Club, aquele filme dos anos 80, vestida em uma jaqueta preta e com o cabelo, também preto cobrindo os olhos. A fração do rosto que ficava à mostra não dizia nada. Se o homem de terno era distante, essa era uma esfinge, mas a verdade é que sobre ela tinha mais certezas do que suposições. Ela sempre levava ataduras, band-aids e afins. Algumas vezes também aspirinas, remédios para dores de cabeça ou estomago, alguns analgésicos suaves. Ele tinha certeza que por baixo daquela jaqueta os braços levavam alguns cortes. Nunca dizia nada, quando queria algum remédio apontava-o na vitrine ou na receita que trazia. Não era difícil para J. entender. Ela não vinha com tanta frequência quanto o homem de terno, e isso era uma coisa que de certa forma aliviava J., por mais que fosse difícil falar em algum tipo de relação com ela, seu sentimento de humanidade fazia com que se preocupasse. Seja lá o que acontecesse, desde que fosse de escolha dela, estaria certo, não seria realmente ruim, não deveria ser algo que ele quisesse que não acontecesse, era completamente a favor que as pessoas tivessem total liberdade para fazer o que quisessem com suas vidas, até mesmo por um fim a elas, mas ainda assim uma pontinha de si esperava que tudo ficasse bem. Quando ela se aproximou do balcão, parou e pareceu olhar para o alto, para o nada, reconhecendo a música. Apesar do rosto continuar em grande parte inexpressivo, J. se arriscou a pensar que viu nas feições algum tipo de emoção, talvez até mesmo comoção. E com ela olhando para cima teve um vislumbre rápido do rosto, parecia bonita, mas não que não já o fosse com o cabelo sobre os olhos, mas os olhos são uma parte importante quando se quer entender as coisas que se passam dentro de alguém, para entender a reação de alguém a uma música, por exemplo. Quando ela saiu da loja ele continuou torcendo par que ela voltasse dali a alguns dias, sã e salva.

Passou o resto da madrugada lendo sobre o amargurado homem-do-mar e a baleia branca. Quando o dia começou a se aproximar, desligou o rádio, tirou a camisa, colocou tudo de volta na mochila e esperou os pães chegarem.


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domingo, 21 de agosto de 2011

Vain Attempts

Ela me olhou nos olhos e perguntou:

- Você já amou alguém?

E eu não consegui resistir, sorri. Não um sorriso amarelo, mas também não uma risada. Aquele tipo de sorriso quando um dos lados da boca está aberto e o outro não, um sorriso que, junto ao movimento da minha cabeça, a expressão no olhos, e o franzir das sobrancelhas, daria às pessoas que nos olhassem naquele momento que estávamos flertando. Não era uma completa mentira, mas também não era uma verdade. Ela tentava me provocar e eu certamente não deixaria de tentar provocá-la de volta, não é o tipo de chance que se tem todos os dias. Ou melhor, sim, se tem esse tipo de chance todos os dias, mas raramente elas são chances tão interessantes.

- Eu? Hahaha. Tudo que eu conheço é amor, já a muitos anos. Amor é a única coisa boa que sobrou dentro de mim depois de tanto tempo.

Ela sorriu de volta, de um jeito não menos provocante, embora de uma forma diferente. Os olhos dela tinham aquele brilho que destrói tudo que cruza pela frente. Era como se tivesse um segredo, como soubesse alguma coisa que eu não sabia, como se estivéssemos jogando uma partida de xadrez e eu tivesse feito exatamente o movimento que ela esperava que eu fizesse para me encurralar em um xeque-mate sem que eu percebesse.

- E você fala como se isso quisesse dizer alguma coisa. Como se tivesse respondido a minha pergunta.

Eu obviamente não tive reação alguma, estava muito perdido naqueles olhos – e não só nos olhos para ser completamente sincero – para me importar com uma argumentação. E na verdade eu mesmo sabia que o que havia dito não queria dizer nada, sabia muito antes de falar, mas nunca, numa situação como aquela conseguiria deixar de falar uma frase de efeito. Mas a verdade é que se tivesse pensado antes de falar, como não costumo fazer, teria falado algo bem parecido. Acreditava piamente nos meus amores, e acreditava na minha capacidade de mantê-los, não ia deixar isso de lado por um flerte, alguns sorrisos sugestivos e alguns olhares, por mais que fossem o tipo de sorriso e olhares que mais me interessavam.

Com o meu silêncio, continuamos trocando olhares, e ela continuou:

- Na verdade, se isso me responde alguma coisa, é exatamente que você nunca amou. – Foi isso que me espantou. Instantaneamente mudei de posição na cadeira, sabia que a minha expressão tinha me traído, desviei o olhar, apenas por alguns segundos perdi o contato com os olhos dela e vi o vapor que subia das xícaras. Devo ter ficado vermelho, no momento em que olhei de novo para ela a expressão não tinha mudado muito, continuava segura e orgulhosa, havia encurralado meu rei com uma afirmação que não era verdadeira, não para mim. E continuou. – Levando mais a fundo… Me atrevo a dizer que você nunca conseguiu amar ninguém, e duvido que conseguiria fazer isso hoje.

- E por que você acha uma coisa dessas? Meu coração pode se apaixonar por qualquer coisa, a qualquer momento, sem o menor controle da minha parte. Mas por que tão preocupada com isso? Quer ter certeza que eu vou me apaixonar por você? – Consegui voltar à expressão inicial, não era difícil se perder nela.

Ela riu, uma risada clara, limpa, que não poderia significar nada de ruim.

- Não, seu coração não conseguiria. E sorte a sua que não estou interessa em uma paixão, apenas sexo.

- Ah, mas a pergunta mais importante você não respondeu…

- Você gosta demais do amor, é poeta demais para já ter amado. Você já sabe muito bem das coisas que gosta, só encaixa o mundo nessas coisas e chama de amor.

- Oras, quem sou eu para saber do que preciso, e quem somos nós para saber o que é realmente o amor, ele pode muito bem ser isso que você acabou de falar que não é.

- Não tente escapar com jogos de palavras. Você pode não saber o que precisa, mas eu sei muito bem.

Foi uma noite divertida.

***

“Call in love, call in whatever you please
It's not what you wanted
It might be just what you need

[…]I don't know what it is I'm feelin'
A four letter word really gets my meaning
Nothing ever lasts
Forever” – Beady Eye.


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sábado, 20 de agosto de 2011

Try Again Tomorrow.

Você tenta mudar, mas não é fácil. Não dá para mudar aquilo que você é do dia para a noite, ou da noite para o dia. Você pode tomar decisões, você pode até mesmo tentar mudar algumas coisas fundamentais, pode deixar de se importar com as coisas que fingia se importar antes, pode simplesmente não olhar na cara daquelas pessoas que você não consegue mais suportar. Mas esse tipo de coisa não é suficiente, não vai te livrar de coisa alguma. Na verdade, nada vai te livrar do desconforto para o qual a vida vai sempre te empurrar. Mas as perspectivas para além da vida só são melhores se você for muito otimista. E, convenhamos, você não é, não precisa mentir para mim.

thats-life-z4zpsm3pb-85207-430-602A única chance que você pode ter de fazer isso com sucesso – e mesmo assim apenas por algum tempo – é deixando tudo para trás. Mas isso é fácil de imaginar, você já devia ter pensado nisso mesmo antes que eu falasse. Mas também é impossível olhar ao seu redor e não querer continuar se apegando a ao menos alguma coisa; pode ser um amigo, um lugar, uma mania. Ninguém realmente quer se livrar de tudo, mas algumas vezes parece ser mais vantajoso deixar de lado algumas coisas boas quando as ruins são consideravelmente mais significativas. Mas isso não é fácil, a perspectiva de deixar de lado todas as pequenas coisas que ainda te dão prazer para substituí-las por incertezas não é das melhores. Você sabe que a tentação para voltar atrás vai ser grande, e que a única forma que existe de não ter como voltar atrás é muito definitiva, e nem um pouco segura. Então por que não optar pelo caminho mais simples e ir mudando aos poucos, não é mesmo? Só que essas mudanças lentas nunca são mudanças de verdade; quando você começar a ignorar as coisas que merecem ser ignoradas, quando começar a fazer as coisas que sempre quis fazer, vai ter que se preocupar em encaixar o horário da sua vida anterior, vai tentar ser educado quando perguntarem o por que você está tão diferente, por que não anda mais com algumas pessoas, por que sempre que tem tempo livre se afunda num livro qualquer sem a menor pausa para jogar conversa fora. E você não vai dizer que é porque despreza as pessoas ao seu redor, que as conversas que tinha com elas não te dizem nada e que preferia não estar ali, mas que não largou aquilo por um pequeno detalhe que não importa o quão bem você consiga explicar, ninguém nunca vai conseguir entender.

Mas, é claro, existe a possibilidade de você ser um verdadeiro espirito livre e deixar completamente de lado essas malditas convenções sociais. Isso vai fazer com que se sinta melhor, funciona para mim. Mas não importa. A sensação de vazio vai voltar; você vai voltar a perceber que nada daquilo tem significado para você, exceto um ou outro pequeno detalhe. E você vai tentar de novo, e se enganar de novo. Mas essa é a vida, as pessoas não são peças de um quebra-cabeças, as coisas não vão melhorar em algum momento, não vão surgir significados, paixões novas não vão curar as feridas antigas, aquelas três coisinhas que são tudo para você não vão te salvar. Ignorância e inocência vão te proteger, mas não vão mudar o mundo, e, depois de perdidas nunca podem ser recuperadas.

Viver deve ser aprender lidar, sem nunca conseguir, sem nunca se resignar, pois resignação é morte, e a morte não é nada se não a continuidade eterna daquilo do que por uma vida inteira você tentou fugir. E morrendo você não pode dizer nem mesmo que foi teimoso o suficiente para continuar tentando aprender até conseguir.


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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Necessidade desnecessária (Ou I Want You)

O Corvo do Poe olhou para mim e disse: “Nevermore”.
***35771-1c62df-530-668
É difícil argumentar. É difícil tentar explicar. Mesmo uma pessoa que vê significado em tudo vem, olha e vê que não existe nada, é vazio. Não existem motivos, apenas desculpas para suprir as lacunas que, no fundo, não podem sequer ser realmente sentidas, pois não estão lá. Tento sem sucesso me convencer que é só um engano, que estou errado, que não tem como ou porque. O buraco no chão continua apenas meio preenchido, não importando quanta terra se jogue em cima do cadáver, chegando ao ponto de nem sequer se ter certeza se ainda existe alguma coisa sob aquelas pás de terra, se existe alguma coisa no fundo, alguma coisa ainda que morta, ou se tudo não passa de desculpas criadas por uma mente que não consegue encontrar nada que realmente sirva como seu lugar de descanso, como um remédio para as inquietações que sempre teve, mas não quer ter por outra eternidade. Por isso se utiliza de um placebo para os espíritos inquietos, e quando percebe o que está fazendo, deixa com que o buraco que tenta tapar simplesmente cresça e fique mais fundo. Falta a coragem para pular na tumba e se sujar de lama, procurando algo que pode muito bem não estar lá. Não, a coragem não falta, ela simplesmente não existe, como tudo o mais, não existe nem mesmo a fraqueza. E quando percebo isso me desespero. Não existe nada que possa fazer, não existe nada, não existe a mínima chance de criar alguma forma de sair dessa situação, pois não existem lugares para onde ir, e mesmo as ideias não podem ser moldadas para fornecer algum conforto. O desespero faz perceber que também não existe ideia nenhuma, que tudo aquilo no que acredito – aquela pá, aquela terra, e a possibilidade de existir algo abaixo dela – tudo não passa de uma ficção criada para que não me sinta assim o tempo todo. Se as lágrimas ainda existissem dentro de mim, elas viriam, mas nem isso. Tento me convencer que não preciso mais dessas ficções, que não tenho mais utilidade para essas máscaras, que não tenho motivos para não me conformar com a minha existência inútil, sem sentido, praticamente uma não existência.
Tento me convencer que não preciso de desculpas, de como ou porquê, mas não consigo, me perco e me deixo, mas não consigo fingir que sou alguma coisa, fingir que não preciso dessas mentiras para me sentir como humano.
Tento me convencer – mas não consigo – de que não preciso de você.
***
“I couldn't make a sentence,
I couldn't even say what I meant to say.
That I want you;
it doesn't hurt to say I want you.
I need you;
I never thought I'd say I need you.
I'll keep you,
Oh yes I'll keep you and I'll throw myself away.
And I'll break you;
because I lose myself inside you.
I'll make you fit in the space that I provide you.
I'll take you,
Oh yes I'll take you just to push you far away, away, away.”
- Pulp, I Want You.
***

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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Escrito em papéis perdidos.

anti-retro-98902-530-352Não gosto das páginas em branco, prefiro pautadas. Pode ser culpa da minha falta de coordenação motora, mas escrever em páginas brancas me parece pretencioso. É como criar algo do nada, as pautas são meu chão, meu começo e meu limite.

O que são palavras se não a tentativa de preencher a lacuna entre dois horizontes? E o que são as pautas se não horizontes? As palavras não estão aqui apenas para preencher o espaço entre o eu-escritor e o você-leitor – se é que isso pode ser considerado um espaço –, mas sim para ocupar muitas outras lacunas, entre meus pensamentos e minhas ações, entre seus sentimentos e suas reflexões. Pelo menos é isso que elas tentam.

Quantas vidas já foram modificadas por aquilo que se colocou entre duas pautas ou pela grandiosidade daquilo que cabe em uma única linha? O Papel branco me assusta, as folhas vazias são como a morte, é o silêncio, é o nada. Tudo que surge na folha em branco é antes forma que conteúdo, símbolos profundos flutuando na superfície do nada. É demais para mim. É muito grande, muito forte, eu sou mais fraco, sou pequeno, sou poeta.

***

As palavras tem que ser fáceis. Complicar não é recomendável. Porque dificultar o entendimento? Arte é sentimento, e nenhum sentimento vem de palavras misteriosas. Não é necessário saber o que se quer falar, os dedos se movem sozinhos, a caneta dança no papel, entre as pautas.

Quando escrevo, faço isso para que você leia, e, principalmente, para que você sinta. Não precisa se sentir da mesma forma que eu, isso é impossível, mesmo que minha habilidade fosse perfeita – e sei que está longe disso – ainda não seria possível. Cada pessoa é muito íntima, cada sensação é muito própria. Mas que sinta alguma coisa, qualquer coisa; que signifique algo para você, que te ajude a entender ou a esquecer. Que faça por você uma pequena parte do que faz por mim.

***

Ela estava no ônibus quando percebeu que havia algo de errado com a sua vida. Naquele momento ainda não conseguiu saber do que se tratava, não foi uma epifania, ela não compreenderia aquilo antes que muitos dias tivessem se passado. Mas naquele momento ela soube que havia algo de errado.

Os cabelos cacheados caiam pouco acima dos ombros, o nariz pequeno se dilatava e retraía, como se estivesse nervosa. A pele, levemente morena, estava mais pálida que o normal. Ela não sabia o que havia de errado, mas sabia que não era estar de pé num ônibus que nem sequer estava insuportavelmente lotado, era algo muito mais profundo, muito mais difícil de ver, ao menos para alguém que olhasse de perto para a própria vida, como ela então fazia.

Ainda um tanto pálida e com os olhos agora brilhando, perdeu o ponto no qual deveria descer, mas não lhe fez mal, o próximo não era assim tão longe, e ela agradeceria – se conseguisse pensar nisso naquele momento – pela chance de caminhar um pouco sob a lua e as estrelas que tinham surgido no céu a pouco, no clima agradável de uma noite em maio.

Muitas coisas poderiam estar acontecendo naquelas ruas enquanto ela andava, mas em nenhuma delas ela prestou atenção. Até mesmo atravessar a rua não foi muito mais que um reflexo, não precisou pensar para fazer, e não é assim grande parte das coisas que fazemos no nosso dia-a-dia? Acabamos perdendo muitos momentos simplesmente porque não prestamos atenção, estamos pensando em outra coisa, e funcionando no piloto-automático. Isso não é uma coisa ruim, não, de forma alguma, muitas vezes é isso e apenas isso que faz alguns dias de nossas vidas suportáveis de tão tediosos, muitas vezes são nesses momentos em que pensamos nas coisas que realmente nos são importantes, muitas vezes são esses os momentos nos quais descobrimos o que realmente nos é importante, e como algumas coisas pequenas ganharam espaço em nossas mentes sem nem ao menos termos percebido até então. Mas não ela não estava pensando em nada disso.

Na verdade é difícil dizer que ela estava realmente pensando em alguma coisa. Talvez fosse mais fácil comparar aquele estado com alguma droga. Uma droga muito potente, e aparentemente sem muitos efeitos colaterais. Quem olhasse para ela enquanto atravessava a rua nunca imaginaria o que se passava naquela cabeça, e teria que conhecê-la muito bem para perceber que  estava pálida. Ela conseguia sentir o vento em seu rosto, em seu cachos, e não porque era um vento violento, mas por que ele estava lá, como sempre está e nunca percebemos. Por dentro também, era como se uma brisa suave balançasse as folhas da árvore da consciência, deixando-as temporariamente inconscientes da sua consciência.

Entrar em casa foi a mesma coisa. Abriu e fechou as portas, abriu as janelas, acendeu as luzes e tirou o cachecol. E não foi sem um pouco de surpresa que percebeu que estava em casa. Agora ela sabia que algo havia de errado, e não desistiria antes de descobrir o que era. Mas foi essa a vez na qual percebeu que estava em casa, e foi nessa vez em que finalmente estava certa.


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domingo, 3 de abril de 2011

Pulp Literature #4

112Essa noite sonhei com ela. Não posso dizer que não foi um sonho estranho, porque sem dúvida foi. Ou melhor, talvez não tenha sido de todo estranho, simplesmente não estou acostumado a sonhos desse tipo, não estou acostumado a sonhos que façam tanto sentido ou que me digam alguma coisa de forma tão clara. A maior parte do sonho foi uma simples conversa sobre trivialidades, amenidades. Não vou saber dizer o que foi dito, ou qual foram os temas abordados, foi um sonhos, as coisas não funcionam desse jeito, não lembramos de todos os detalhes horas depois de estarmos acordados. Normalmente deixo ao lado da cama um pequeno caderno de anotações, para escrever aquilo que se passou em minha cabeça durante a noite, muitas de minhas estórias surgem dessa forma, mas normalmente são estórias das quais não gosto muito, são alta-fantasia ou simplesmente apresentam lacunas ou falhas enormes, que eu obviamente não conseguia identificar enquanto estava dormindo, Quase todas então são alguns rabiscos, coisas que nunca vão ver a luz do dia. Mas essa é uma situação diferente.
Não vi necessidade de escrever os acontecimentos do meu sonho. Não eram de grande importância para uma estória. Pelo contrário, eram muito pessoais. Agora não me lembro sobre o que conversamos no sonho. Mas ainda assim tenho uma vaga ideia. Mas, como disse, não faz diferença, não é sobre isso que quero falar. Quero falar que por mais que não lembre sobre o que estávamos conversando, lembro claramente que estava feliz. E me permito à liberdade de pensar que ela também estava, afinal era um sonho meu, e as imagens que conservo em minha mente não me desmentem. É impressionante como algumas imagens de sonhos nunca saem de nossas cabeças. Mas agora que penso nisso, talvez não sejam realmente coisas tiradas de sonhos, mas sim imagens reais das quais não consigo dissociar a sensação onírica – detesto essa palavra, mas não consegui pensar em nada mais apropriado enquanto meus dedos correm pelos tipos da máquina de datilografar.
Mas o que realmente me fez pensar foi o que veio depois disso. Eu não sou o tipo de pessoa que costuma ter sonhos eróticos, veja bem. Não sei dizer exatamente o porquê disso, mas o fato é que posso contar nos dedos de minhas mãos a quantidade de vezes que já sonhei com esse tipo de coisa. Mas o fato é que que o que se seguiu provavelmente pode ser descrito como um sonho erótico. Não vou descrever os mínimos detalhes, isso não é um texto sensacionalista e se o fizesse estaria inventando tudo, pois não lembro dos detalhes, e meu objetivo não podia se mais incompatível com o desenrolar do ato sexual. E ao escrever isso me surpreendo, pois não consigo realmente imaginar esse tipo de palavras saindo da minha boca na vida real, todo esse pseudomoralismo realmente não tem muito a ver comigo. Mas a máquina não rejeita nada, e nela não corro o rico de arrancar a língua com meus próprios dentes simplesmente por ter falado algo que de forma alguma é compatível com o meu comportamento habitual. Afinal escrever não é nada além de mentir pra o papel, e é ele por sua vez que mente para os leitores, não o escritor.
Mas se deixo de lado essa oportunidade que não muitas vezes aparece de fazer comentários lascivos é porque o que vou dizer agora, neste parágrafo teve sobre mim um efeito que não consigo até agora entender completamente. Ao sonhar eu sabia que a pessoa com quem fazia amor não era ela. Era completamente diferente: a cor de seus cabelos, olhos e pele, suas formas, suas proporções, desde seus trejeitos mais suaves até mesmo as diferenças mais gritantes. Não era ela. Mas ao mesmo tempo tinha de ser. Mesmo no sonho me parecia inconcebível que não fosse, mais até do que pareceria se estivesse acordado, sem sombra de dúvida. Não era ela, mas eu não conseguia aceitar que não fosse, então, de fato, era, mesmo não sendo. Não sou um grande intérprete de sonhos, eu reconheço que eles querem me dizer alguma coisa, mas dificilmente algo diferente do que eu quero dizer a mim mesmo. A ideia de dormir com ela era tão inconcebível, tão longe da realidade, que mesmo inconscientemente meu cérebro parece indisposto a aceitar.
***
Ele estava sentado na velha cadeira de balanço vendo o por do sol. Estava em frente a uma daquelas casas de madeira que só podem ser encontradas naquela região. Sempre achara aquilo exótico, de onde viera as casas podiam ser feitas de muitas coisas, mas madeira certamente não era uma delas, exceto talvez por alguns detalhes. Mas aquilo fora muitos anos atrás. Agora estava acostumado a sentar ali, na frente daquela casa, na velha cadeira de balanço algumas horas antes do por-do-sol, o cachorro, velho e cego caído de um dos lados, se aproveitando dos raios de sol até o último, e depois indo para dentro da casa procurar um lugar para se proteger do frio que costumava chegar à noite e fazer doer os seus ossos.
De certa forma aquilo servia também para o homem. Todos os dias sentava-se ali e lia a bíblia que a muitos anos atrás fora de seu pai. Não era um homem religioso, mas já tinha lido várias vezes todos os outros livros que tinha em casa. E o velho livro aguçava a sua imaginação. Quando se via naquela situação lembrava do pai. Eram muito parecidos, agora ele conseguia ver isso. Ele nunca quisera ser parecido com o pai, por mais que tivessem um relacionamento bom. E as vezes se sentia feliz que não tinha nenhum filho para se sentir como ele agora se sentia dentro de alguns anos.
Nos cabos telefônicos algumas andorinhas observavam o por-do-sol junto do homem. Era uma visão bonita, aqueles pássaros. E era um anoitecer bonito, mais bonito que os que costumava observar depois de colocar a bíblia sobre os joelhos e começar a pensar em como era parecido  com o pai. Talvez fosse mais bonito por causa das andorinhas. Elas não cantavam como alguns outros pássaros, mas ainda assim era uma coisa bonita de se ver: aquele Sol enorme e alaranjado sumindo aos poucos, o jogo de sombras com os cabos telefônicos, com as andorinhas, com o próprio homem sentado na sua cadeira de balanço. Só o cachorro não via isso. Olhos fechados, simplesmente sentia os raios de sol no seu pelo, e o medo do frio que vem com a noite.
Morreu sem muito alarde. O Sol se pôs, as andorinhas voaram, não se sabe para onde, não existiam mais sombras, apenas a noite escura e fria. Nunca mais ia ficar a tarde ali na frente da velha casa. Dessa vez o Sol se pôs de verdade.
O homem se levantou da cadeira como se já soubesse que o cachorro tinha morrido, ergueu ele nos braços e o levou para dentro de casa, logo ele ia estar em um lugar quente, onde seus ossos não iam mais doer por causa do frio.

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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Pulp Literature #3

“Build me up buttercup, don’t break my heart”

- The Foundations

 

A realidade existe simplesmente para servir de inspiração à arte.

***

Anos atrás eu costumava olhar para as duas e não conseguia deixar de pensar que as coisas estavam finalmente certas. Nunca fora fácil, definitivamente não acredito que qualquer pessoa diria que para chegar até aquele ponto minha vida não havia passado por suas eventualidades. Duvido muito também que alguém que me visse então discordasse que tudo que me tinha ocorrido de mal tinha valido a pena. É o sonho de muitos, não duvido. Mas também não duvido da infinita capacidade humana de se sentir insatisfeito, de não conseguir ser feliz. Ou será que a felicidade é apenas o momento? Não, não é, o momento é alegria, é apenas a esperança de felicidade, e esperança é uma sensação quase tão gratificante quanto felicidade. Pelo menos assim imagino, já que hoje sei que nunca fui feliz, apenas tive esperança de sê-lo. Isso é basicamente o que acontece com todas as pessoas quando elas pensam que são felizes.

Mas o fato é que quando via as duas juntas, a mãe brincando com a filha, acreditava que aquilo era felicidade, que queria que aquilo durasse para sempre. Mas o momento acabou. E isso foi a anos atrás. Não sou mais jovem. Não como era quando minha filha nasceu. Não como era quando conheci a mãe dela. Não como achei que continuaria sendo para sempre. As pequenas coisas com o tempo vão destruindo tudo aquilo que achava que tinha. Um belo dia olhei no espelho e vi que parecia mais com meu pai do que algum dia gostaria de parecer, fui para o trabalho e percebi que as conversas mais divertidas, nas quais os mais jovens se divertiam aconteciam sempre quando eu não estava lá, percebi que minha filha já não tinha mais um sorriso inocente como quando era um bebê, muito pelo contrário, tinha quase a mesma idade que a mãe dela tinha quando a conheci, e isso me deixou com medo de que ela conhecesse um homem imprestável como eu era na época. Ela era exatamente igual à mãe quando jovem, mas certamente não acreditaria nisso, não importa quem falasse ou quantas fotos antigas olhasse, era inconcebível para ela que em alguns anos fosse ficar no mesmo estado de sua mãe. Isso porque a mãe certamente não tinha mais muitas coisas pelas quais o jovem que fui se apaixonou, mas isso é compreensível, eu definitivamente mudara ainda mais. Já a algum tempo estávamos tentando ter mais um filho, ou melhor, ela queria mais um filho, para mim era simplesmente indiferente, ela queria se sentir como se sentira quando nossa filha nascera, eu naquele dia perdi todas as esperanças que ainda poderia ter de que isso algum dia pudesse acontecer. Naquela noite não tentamos.

Na manhã seguinte a idéia de olhar para ela ao acordar era repulsiva. Não porque à achasse feia. Por mais que isso pudesse ser verdade, eu a amara – e realmente a amara – por tanto tempo que não conseguia concebê-la como sendo feia, mas não podia suportar a manifestação de todo o tempo que passamos juntos no rosto dela.

Muitas pessoas durante os anos me disseram que queriam uma vida como a minha, uma família bonita como a minha. Essas pessoas acham que ter esse tipo de coisa faria com que elas fossem mais feliz do que são com aquelas que tem. Essas pessoas acham que o mundo é injusto porque algumas pessoas tem a possibilidade de serem felizes – e elas me incluem nesse grupo – e outras não tem – e elas sempre incluem a si mesmas nesse – mas elas estão erradas. O mundo é injusto, disso não tenho dúvidas, mas não pelos motivos que elas querem ver. O mundo é injusto porque todas as pessoas, não importa quem elas sejam, o que elas tenham ou o que elas façam, todas as pessoas são essencialmente insatisfeitas. Mas o mundo é tão justo quanto é injusto, pois todos, sem exceção, tem o direito àqueles momentos – que por vezes duram mais do que simples momentos – nos quais acham que são felizes. Até que finalmente esse momento passa e não existe nenhum motivo para pensar que algum dia ele poderá voltar.

Mas então, em uma noite qualquer, o mundo te faz voltar para casa depois de um dia de trabalho extenuante, e você vê sua filha saindo de casa, no meio da noite, sem avisar aos pais com um cara com uma guitarra nas costas, um cara que de certa forma te faz lembrar de como você era muito antes dele nascer. Então eu entro em casa, jogo o paletó no chão, afrouxo a gravata e abro alguns botões da camisa, pego a velha máquina de escrever e começo a bater nos tipos até a mulher acordar e me abraçar por trás. Naquele momento você imagina ela não como é hoje, mas como era anos atrás, e sem nem mesmo perceber aquilo que os são chamariam da realidade, leva ela para a cama e percebe que os olhos são os mesmos. E percebe que aqueles momentos podem voltar, percebe que ainda consegue ter esperança, mesmo sabendo que ela é vã, e mesmo sabendo que aquilo é só um momento.
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pulp Literature #2

Acordei no chão, completamente nu. Já havia me acostumado a dores nas costas, meus hábitos não eram dos mais sadios, causavam torcicolo com freqüência. Uma grande mancha roxa estava no meu braço direito, perto do ombro. Um copo caíra no chão e se quebrara, diversos cacos de vidro se espalharam, alguns me cortaram, mas nada muito profundo, apenas algumas gotas de sangue no piso branco da cozinha. A cabeça também dói, mas não foi uma pancada. A toalha, também branca e também com algumas gotas de sangue em si está estendida. Ninguém deve ter me ouvido cair, e se ouviram sem dúvida pensaram que era outra coisa qualquer. Agora já começava a escurecer. Por sorte não estava com os óculos. Se bem que quase nunca estava com eles. Mas fui até o meu quanto e os coloquei, para poder pegar todos os cacos de vidro.

Depois de catados os cacos me sentei numa das pequenas cadeiras metálicas. Os últimos dias haviam sido tão estranhos. Não completamente desagradáveis, mas ainda assim estranhos. Aquela queda provavelmente queria dizer que eu não tinha vocação para Buda. Fui para a cama devagar, ainda um pouco tonto. Nem percebi quando adormeci. Quando acordei já era noite, e estava tudo um tanto silencioso, mas por ali as coisas sempre eram silenciosas, ou será que as pessoas ficam tão habituadas com os sons da cidade que depois de um tempo simplesmente não conseguem mais reconhecer o que é silêncio de verdade? Havia escolhido aquela casa exatamente por que era mais silenciosa que a minha anterior, e menor, alguém como eu não tem necessidade de casas muito grandes, isso quando precisamos de uma casa fixa. Não me importei em ver a hora. simplesmente vesti uma roupa qualquer e saí. Poderiam ser nove da noite ou três da manhã, mas não fazia tanta diferença. Ali perto havia uma pequena loja 24hrs. A loja estava vazia, apenas a atendente lia uma revista televisiva atrás do balcão. Parecia cansada, mas todas as pessoas que trabalham me parecem cansadas, ou melhor, todas as pessoas me parecem cansadas quando olho para elas, até eu mesmo. Por isso não tenho espelhos em casa. Uma coisa a menos para ser quebrada acidentalmente. Comprei vário tipos de comida de fácil preparo, por mais que não goste delas. Também alguns copos descartáveis.

A moça no balcão sorriu para mim. Tempos atrás teria visto aquilo com outros olhos, agora sabia que aquilo não queria dizer nada, só um ato um tanto mecânico. Era uma boa atendente. Mesmo sem espelhos em casa sabia que minha aparência devia estar extremamente maltratada, especialmente se alguns cacos de vidros tivessem atingido meu rosto.

Ao chegar em casa preparei alguma coisa, não sei realmente o que, não estava pensando nisso, e comi. Provavelmente isso ia me impedir de cair pelos cantos, ao menos nos próximos tempos. É estranho como esse senso de sobrevivência funciona. É como se fome, sede e atração funcionassem como um piloto automático, só não dão resultados quando são impedidos de funcionar, ou desligados, permanentemente. Voltei para a cama. e peguei a carta que estava ali no chão ao lado dela. Algumas pessoas realmente desligam o programa.


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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Mientras comprabas cigarrillos

Tentou se lembrar de quando havia começado a comprar livros para sua estante e não para si. Tentou se lembrar da cor da estante-seis-prestações-sem-juros. Seria Matias o nome do porteiro do seu prédio? Ou talvez Matias fosse o homem ocupando dois terços da sua cama e fração nenhuma da sua vida...
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Desligou o despertador, deu-lhe o pagamento a Matias ou Mateus ou José, vestiu a cara que melhor combinava com os sapatos e saiu sem cumprimentar Lúcia, a porteira.

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pulp Literature #1

toilers_of_the_sea_02 Palavras são tudo. Tudo aquilo que existe e que não existe, tudo aquilo que cria e é criado, destrói ou é destruído. As palavras são tudo,  e quando digo palavras não estou querendo dizer o som delas sendo faladas ou a tinta delas escritas, mas elas em si. Existe um teoria de que se fossemos dividindo todas as coisas em suas partículas fundamentais, reduzindo os átomos a elétrons, prótons e nêutrons, e esses em partículas sub-atômicas, como quarks, chegaríamos num ponto em que descobriríamos que toda a matéria – e também a energia – é constituída simplesmente de informação. E é isso que as palavras são, elas são a informação em sua forma mais misteriosa e perfeita. Existem também aqueles que tendem a relegar aos números uma importância maior, os pitagóricos já diziam que todo o universo pode ser entendido por números. Talvez eles estejam certos quando dizem que os números explicam, mas são as palavras que criam. E é exatamente isso que elas fazem, as palavras são invencíveis e indestrutíveis, elas são a força criadora, mesmo quando agem através da destruição. Não se pode matar uma palavra, elas podem ser esquecidas, podem ceder lugar a palavras novas, podem até mesmo não significar nada – coisa que facilmente deixaria qualquer número, mesmo o mais tímido zero, indignado – mas são as palavras que carregam em si o poder de alimentar esperanças e quebrar corações. 

***

Ele ainda não tinha contado para a mulher, mas ia morrer. O médico não lhe dera falsas esperanças: “Se formos muito otimistas, seis meses, mas o mais provável é que não passa da metade disso”. Na verdade isso não o surpreendera, as últimas semanas haviam sido de dor excruciante, com dezenas de exames que não descobriram o que o afligia, quando descobriram já era tarde demais, mas pelo menos agora a dor havia sumido, provavelmente graças à morfina. A esposa achava que ele já estava se recuperando. Se fosse mais jovem provavelmente ia usar essa situação como desculpa para fazer centenas de coisas que nunca fizera, mas agora, já perto dos seus noventa anos, não conseguia mais pensar assim, talvez porque não quisesse realmente fazer nada mais além daquilo que já tinha feito, ou talvez simplesmente porque os impulsos da juventude haviam passado a muitos anos e não conseguia mais ver como divertida uma coisa apenas porque nunca a tinha feito. A mulher o olhou interrogativamente enquanto enchia a xícara, estavam no café da manhã. Ele não podia dizer que a vida fora fácil, isso seria uma grade hipocrisia, nunca tivera um emprego fixo, fora pedreiro, caminhoneiro, até mesmo chegara a trabalhar como carregador em um porto, na época em que eles funcionavam de uma forma muito diferente, se aposentara quando não tinha mais condições de continuar com trabalhos como esse, vivia da ajuda dos filhos, tivera com sua mulher dois filhos e duas filhas, o filho mais novo morrera, assassinado, fora um grande choque para toda a família, desde que descobrira que estava à beira da morte pensara muito no filho morto. Tivera também um filho fora do casamento, não fazia idéia da vida que ele poderia estar levando, se é que ainda estava vivo, podia muito bem já ter morrido de velhice, já que nascera quando ele ainda era muita jovem, antes mesmo de conhecer a esposa. A vida conjugal em si também não fora nenhum mar de rosas, mas na verdade nunca é, não é mesmo? Desde que se aposentara a mulher decidira que era hora dele retornar todo o trabalho que ela tinha tido com a casa ao longo dos anos, por isso a aproximadamente três décadas ela não fazia nada, toda a tarefa doméstica era função dele, ele na verdade não se importava muito com isso, se não tivesse essas atividades provavelmente se entediaria, mas agora se preocupava em como a esposa iria sobreviver depois que ele morresse, os filhos não tinham realmente muita paciência, eles tinham as próprias vidas para levar, não é certo que os pais queiram ser um fardo assim tão pesado para os filhos apenas por que estão envelhecendo. A mulher não o amava a anos, e talvez ele também não pudesse mais dizer que a amava, eles apenas suportavam aquela pessoa com a qual tinham aprendido a viver por mais de cinqüenta anos. Mas apesar disso ele não imaginava sua vida longe dela, em algum ponto de suas vidas os dois haviam se amado, se é verdade que hoje brigavam a ponto dele não duvidar que ela de certa forma desejava que ele morresse, também é verdade que se entendiam, e que a companhia que faziam um para o outro era – ao menos para ele – uma das poucas coisas que ainda podiam fazer com que a vida valesse a pena mesmo depois dos noventa anos, mesmo depois de ver os seus netos crescidos. Foi naquele café da manhã que percebeu como queria viver os dias que lhe restavam. Ao contrário do que esperava, não iria fazer nada demais, iria continuar a levar a vida como já vinha levando a alguns anos, só que agora com a ajuda de um pouco de morfina de vez em quando. Depois de decidir isso ainda pensou em voltar atrás, “existem tantas coisas para serem feitas, por que desperdiçar o pouco tempo que me resta?” mas na verdade nem sabia como fazer isso, nunca iria se decidir sobre o que gostaria de fazer além daquilo que normalmente fazia. Pensou em escrever um livro, mas não, não lia nada a mais de uma década, nunca fora muito próximo das palavras, ou de qualquer arte. Pensou em rever os amigos de longa data, até mesmo tentou contatar os que acreditava ainda estarem vivos, não estavam, exceto um, mas esse sequer lembrou dele pelo telefone, ele suspeitou que aquele não deveria lembrar mais de nada, não conseguia realmente formar frases que fizessem muito sentido. Talvez isso seja uma daquelas coisas que vêm com a idade, ele mesmo se desacostumara a falar, quando pronunciava alguma palavra se assustava com o ruído cavernoso que saía de sua boca, de sua garganta velha e seca. Se pudesse, naquele momento, teria escolhido morrer antes, quando ainda amava a mulher e quando os amigos eram em sua cabeça pessoas sorridentes, e não com aquele ar solene que todos inevitavelmente tem ao serem colocados em seus caixões. Continuou com sua vida normal, por escolha própria mais do que por falta de opção, por coragem mais do que por medo. Viveu ainda quatro meses, deixou para trás uma mulher em lágrimas – que morreria não mais que um ano depois – e partiu desse mundo num belo e brilhante caixão preto.

***

Lá estava ela sentada frente-a-frente com ele. Ele podia dizer pelo olhar dela como a expressão no rosto dele deveria ser de total embasbacamento. Os olhos caíram no grande estojo que ela colocara ao lado dela. Ele não tinha mais nada que pudesse perguntar:

- Isso é um violoncelo?

Ela riu. Era uma risada bonita, alegre, mas combinada com os olhos dela não podia deixar de ser um pouco suja. Ele duvidava que a irmã risse daquele jeito. Ela vestia uma camisa xadrez, parecia muito jovem, bem mais jovem do que a irmã dissera que era. Mas ele tinha certeza que essa era a pessoa certa, era a pessoa que estava procurando. Não tinha muito porque se preocupar então, não é? Afinal, isso só estava acelerando seu trabalho, de alguma forma. Mas então ela começou a falar e ele começou a se envolver. Falaram de música, do violoncelo e depois de generos musicais que não costumam usar esse instrumento, depois dança, depois teatro, depois cinema e então literatura, na progressão que se espera para esse tipo de conversa. Pularam as artes plásticas, a filosofia e a política, não são realmente os melhores assuntos para se discutir naquela situação, no lugar disso falaram de cozinha, acabaram comendo comida japonesa juntos. Ela realmente não parecia estar com a menor pressa, e ele se sentiu surpreendentemente confortável com isso. Depois de jantarem ela deu para ele o número de telefone, sem que ele sequer precisasse pedí-lo. No fim da noite ele sabia quais os filmes que ela mais gostava, seus escritores e bandas preferidos, sabia onde ela iria tocar no próximo fim de semana e até mesmo aprendera um ou dois truques para o violoncelo, mas não fizera nenhuma das perguntas que supostamente havia sido contratado para fazer.

***

Só uma notinha rápida, desculpem os possíveis erros gramaticais nessa postagem, assim como na minha anterior, estou tendo alguns problemas para me adaptar com o Windows Live Writer, apesar disso ele é um programa muito bom para fazer postagens em blogs, fica a dica. Ah, e Feliz Ano Novo para todos, sejam Iridescentes sejam leitores! Até a próxima!


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