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quarta-feira, 16 de junho de 2010

A tese de Ivan Karamazov

Há, em nossa sociedade, uma ideia muito comum, segundo a qual os altos índices de criminalidade atuais devem-se à baixa religiosidade da população em geral. Corrobora com essa ideia, a tese de Ivan Karamazov, personagem de Dostoiévski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Sartre, um dos grandes pensadores do século XX, também já recorreu à ideia para fundamentar um de seus principais conceitos (óbvio que existem uma série de outras ideias e preceitos envolvidos nessa fundamentação); o de que estaríamos condenados à liberdade. A tese de Karamazov, entretanto, é facilmente refutável, assim como o senso comum. Recorrerei, para isso, a argumentos já utilizados em texto por Antônio Cícero.

Comecemos por um simples experimento de pensamento. Suponha que Deus apareça para você e lhe ordene que mate seu pai (ou mãe, ou filho, não importa). Sua primeira reação, como a minha, seria a de duvidar do que estaria acontecendo. E isso por duas razões: primeiro, porque Deus não costuma aparecer para nós, pelo menos não atualmente; segundo, e mais importante, porque Deus, fonte de todo o bem, estaria lhe ordenando para fazer uma coisa má. Algo, sem dúvidas ou receios, errado. Pensaria, portanto, ser aquilo um delírio, ou tratar-se de um impostor- talvez o Diabo. Não acreditaria, enfim.

Suponhamos, então, que por uma razão inconcebível, você tivesse certeza que era Deus. De uma maneira inexplicável, você soubesse que Ele estava ali. Creio que, assim como eu, você, leitor, ainda assim não mataria seu pai (ou mãe, ou filho). Digo mais: não mataria sequer um estranho. Por quê? Porque seria errado. E não o seria devido aos mandamentos que o próprio Deus decretara, uma vez que, ao lhe ordenar tal atrocidade, Ele mesmo os estaria revogando. Seria errado, pois, independente de qualquer mandamento, matar uma pessoa é errado. Assim, mesmo que Deus não exista, é errado matar uma pessoa. O primeiro passo foi então dado: nem tudo é permitido, ainda que Deus não exista. Tal passo, além de fundamental para quebrar a tese de Karamazov, também contraria uma das ideias principais de Sartre. O filósofo, ao propor que nossa grande tragédia seria o fato de Deus não existir, supunha ser tudo permitido. Estaríamos, portanto, condenados à liberdade e teríamos de responsabilizar-nos por todos os nossos atos. De fato, a ideia da “estarmos condenados a ser livres” está já desfeita.

Muitos, nesse ponto, com certeza lembraram-se da Bíblia (Gn,22): Abraão, após ter recebido ordem de Deus, pega a faca para sacrificar seu filho primogênito, quando é impedido por um anjo, enviado por Deus. Óbvio que, como sabemos, tal passagem retrata um teste pelo qual Abraão teria de passar para provar sua fé em Deus. Do ponto de vista estritamente ético, entretanto, não se justificaria a prontidão de Abraão. A fé- superior à ética, por constituir uma relação individual e absoluta com Deus- justifica a atitude de Abraão. Fica claro, assim, que graças à religião, a esfera da ética é relativizada pela da fé.

Chegamos, agora, ao segundo passo: a tese de Karamazov deve, na verdade, ser invertida. De fato, não só não é verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido- já que nosso experimento mostrou que não é permitido matar-, mas, ao contrário, é se Deus existir que tudo se torna permitido.

Longe de ser o fundamento da ética, a fé em Deus é a condição de relativizar e, no limite, negar a ética. Isso lembra as palavras do físico norte-americano Steven Weinberg, detentor do Prêmio Nobel de Física: “Com ou sem religião, as pessoas bem-intencionadas farão o bem e as pessoas mal-intencionadas farão o mal; mas, para que as pessoas bem-intencionadas façam o mal, é preciso religião.”.

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