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terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Razão do Ataque é...?


Um ponto que tem me chamado atenção nos jornais é o conflito entre as Coréias, catalisado pelo naufrágio do navio de guerra sul-coreano “Cheonan”, no dia 26 de Março. A Coréia do Norte seria a responsável pelo ocorrido ao atacar à embarcação com um torpedo, segundo um relatório multinacional responsável pela averiguação do ocorrido, em que morreram 46 sul-coreanos.

Mas é exatamente neste ponto que meus miolos de estudante prematuro das RIs começam a fritar. Por que um ataque norte-coreano? As consequências advindas do incidente com a embarcação eram previsíveis e vem ocorrendo gradativamente: repressão e ameaças pelo governo de Seul, conclusão de que a Coréia do Norte é culpada, sanções internacionais com participação mais ativa dos EUA, revolta do autoritário Kim Jong-il e tensão contínua entre os envolvidos, com as palavras conflito e guerra emergindo das sombras.

Supondo basicamente que os governos tomem decisões racionais e pensem no bem do regime político e/ou da população (olha a MH de novo...), vejo apenas uma hipótese em que o ataque faria sentido: Kim Jong-il visava à criação de uma tensão contra seu país, embasada em hipóteses capitalistas e imperialistas, pois não há provas definitivas contra o governo de Pyongyang (o relatório internacional não garante, com certeza, que a Coréia tenha feito o ataque). Assim, internamente, Jong-il poderia utilizar forte propaganda contra os preconceituosos, tais quais o governo sul-coreano, estadunidense, entre outros, para fortalecer o comunismo de Estado e permitir a sucessão pacífica por um de seus filhos.
Após esse impasse em achar uma hipótese que me convencesse, pensei nos outros envolvidos: Coréia do Sul e EUA. Apesar de me arriscar em uma teoria da conspiração, supus um auto-ataque, algumas vezes presente na história. Quanto aos Estados Unidos com Obama e em meio a duas guerras, não vejo lógica para tal ato. Vá lá, se ainda fosse o Bush e sua doutrina de “essa guerra não está dando certo, vamos para outra!” e de ataques preventivos; mas com a confusão para os EUA saírem do Iraque e do Afeganistão, investimentos crescentes nesses conflitos, crise econômica, caso iraniano e o diálogo Smart Power do governo, não haveria por que os americanos criarem outra guerra agora.

Por outro lado, a Coréia do Sul conseguiu apoio internacional forte, como vítima do caso, sendo que os EUA realizaram treinamento anti-submarinos conjunto ao país, além de ajudá-lo militarmente, enviando tropas para o treinamento que se somaram aos aproximadamente 29.000 soldados americanos na região fronteiriça entre as Coréias. Apesar disso, meu lado prudente, jovem e ainda raso de conhecimento não se contenta com essa idéia; afinal, foram cidadãos sul-coreanos que morreram; seria um sacrifício de 46 compatriotas, além de constituir uma hipótese muito negativa e sedenta de muitas provas para ser validada.

Em suma, fiquei sem uma resposta satisfatória. Mas esse não é o pior lado: nem ao menos achei referências para checar o pensamento de estudiosos sobre o ocorrido. Nada nos jornais ou revistas sobre a razão de tal ataque, análises, etc. Apenas notícias pontuais sobre o naufrágio, o relatório, o treinamento sul-coreano e estadunidense, mas nada tentando conectá-los ou entendê-los. É como se as relações entre os países fosse óbvia ou inexplicável, pois ambas as formas não precisariam ser discutidas. E tudo que posso afirmar neste texto, pelo que aprendi até agora, é justamente o contrário: as RIs nada tem de óbvias ou de inexplicáveis, mas sim são bem complexas.

Se alguém tiver um insight, outras idéias ou visto algum texto tratando sobre as razões do ataque, agradeço se me mandarem ou comentarem aqui. Abraço.

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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Scientia Vinces (I)

"Dizem que a resignação é uma força terrível"
Dostoiévski

A gênese da Universidade de São Paulo, bem como a implantação de boa parte de sua estrutura em um campus estrategicamente distante do centro da cidade de São Paulo, eventos ocorridos em contextos políticos-sociais distintos mas convergentes quanto à crítica importância na realidade brasileira, evidenciam o grande papel social vanguardista que tanto seus docentes quanto discentes exerceram ao longo da história do Brasil. Estandarte do saber em suas mais diversas vertentes, perpassando conhecimentos humanos, exatos, biológicos, interconectando-os em uma complexa teia de interdisciplinaridade, ela constituiu e constitui uma das mais profícuas fontes de recursos humanos e tecnológicos, formando profissionais altamente capacitados, criando contribuições inestimáveis à evolução da ciência e promovendo, constantemente, a comunicação de suas atividades com o meio externo, imiscuindo universidade e comunidade; contribuições essas sintetizadas no tríplice lema do ensino, pesquisa e extensão. Contudo, o vislumbrar das últimas duas décadas tem mostrado triste prospecto, ao menos em seu viés administrativo: à parte das notáveis conquistas intelectuais ali alcançadas, a universidade tem se tornado periodicamente refém inconteste de minorias estudantis e sindicalistas, ansiosas de promoverem politicagens divergentes da proposta evidentemente plural e respeitosa constituinte do âmago universitário. Urge uma minuciosa análise dos motivos, bem como das trágicas conseqüências com as quais o meio universitário arca diante do engessamento de suas principais funções administrativas, sob as frágeis estruturas argumentativas de certos grupos.

É absolutamente inegável o papel fundamental que o mecanismo de greve teve no decorrer de toda a história, especificamente após o advento das revoluções burguesas do fim do século XVIII. A ausência de meios jurídicos, bem como de instrumentos político-legislativos para a regulamentação das relações entre capital e trabalho resultou no absoluto descaso por condições minimamente dignas de exercício remunerado, levando milhões de indivíduos à irremediável miséria – não só monetária, mas fundamentalmente moral –, evidenciando a clara necessidade de uma ação suficientemente coordenada. A greve nasce, dessa forma, como único instrumento eficiente de reivindicação e que, surpreendentemente, obteve sucesso na mobilização da classe trabalhadora e posterior constituição de uma legislação trabalhista que, de forma evidentemente resumida, elenca diversas condições mínimas de dignidade para o exercício humano de uma profissão. Contudo, um passado notavelmente vitorioso não justifica, de maneira alguma, o acobertar de uma realidade cuja patente gravidade se mostra em uma análise necessariamente neutra da presente situação. Concentrar-nos-emos aqui no recorrente esteio fundamental do referido movimento grevista da Universidade de São Paulo: a anual contenda por reajustes salariais, ano após ano vociferada em nome de uma suposta isonomia. A exigência de democracia universitária, polêmica e compartilhada por círculos mais amplos no meio docente e discente, bem como o apoio estudantil a diversas dessas manifestações serão, ambas, objetos de futura análise.

Cabe, nesse contexto, desmistificar o certame salarial que, ano após ano, toma como campo de batalha a Universidade de São Paulo. Segundo dados oficiais e do referente ano, os funcionários não-docentes da instituição dividem-se em três categorias, cada uma com respectivas faixas salariais, a saber: básica (R$1.210,90 e R$2.044), técnica (R$1.789,05 e R$3.569) e superior (R$3.542,20 e R$7.005). É pertinente, aqui, o primeiro comentário, escancarado nos valores supracitados: os salários pagos pela referida instituição estão em níveis incomparavelmente superiores àqueles obtidos na iniciativa privada, colocando por terra a primeira suposição, largamente divulgada, de que os referidos funcionários possuem remuneração parca. Para além do salário nominal, tais indivíduos também têm (de forma indiscutivelmente justa) o direito a uma série de benefícios, como auxílio-alimentação mensal de R$470, auxílio creche mensal (concebido segundo o número de filhos) de R$449,95, auxílio educação-especial no valor de R$449,95, além da ampla gama de serviços providos pela universidade a toda comunidade, como assistência médica e acesso a instalações esportivas. Ambos, salários e benefícios, são reajustados a taxas indiscutivelmente superiores à inflação: a título de exemplo, no período 2007-2010 acumulou-se um processo inflacionário de 16,4%; os reajustes de salário do período, considerando-se a proposta sustentada para o atual ano, de 6,57%, somam 20,3%; no decorrer do período de 2004 a 2010, a inflação de 33,2% foi acompanhada de um aumento no auxílio creche de superiores 49%; no vale refeição de substanciais 127% e, surpreendentemente, no que toca auxílio-alimentação, em um acréscimo da ordem de 213%, variando de R$150,00 para os já citados R$470,00.

A análise concisa e solidamente embasada em referências numéricas imparciais revela a total ausência de razoabilidade no conjunto argumentativo que dá base ao recorrente processo de greve nas dependências da Universidade: os salários e benefícios da referida instituição não só são indubitavelmente correspondentes às obrigações e qualificações de seus funcionários, como também são objeto de reajuste rigorosamente acima da inflação, evidenciando, dessa forma, a transmutação do que seria um esteio para um movimento supostamente legítimo em um insustentável apoio utilizado por elites e minorias sindicais, ciosas de longas paralisações que prejudicam o provimento de serviços fundamentais financiados pelo erário público de forma geral, em mais um clássico exemplo de irresponsável dispêndio de dinheiro advindo de impostos associado à ineficiência administrativa absolutamente endêmica.

Nesse sentido, é infelizmente freqüente na comunidade universitária notar, de forma especial no apoio desmedido e impensado dado por alguns grupos do interior universitário ao movimento, a visão maniqueísta e acobertadora, sempre mais fácil de ser entendida e transmitida: a classe trabalhadora universitária seria mera refém de uma ordem opressiva e construída para destituí-la de seus direitos fundamentais, objetivo comum a quaisquer indivíduos que se atrevam a erguer suas opiniões contrárias à paralisação ou a meramente discuti-la de forma crítica, questionadora e imparcial.

Posicionar, de tal forma automática e impensada, os atores em suas respectivas posições históricas de “oprimidos” e “opressores” não é só uma derrocada das defesas da análise precisa e do entendimento argumentativo: é se entregar a concepções confortavelmente prontas e que, inevitavelmente, nos levarão à traição das divisas fundamentais indelevelmente forjados no brasão da instituição que escolhemos para nos constituirmos enquanto cidadãos cônscios. Que nós vençamos pela ciência.


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domingo, 20 de junho de 2010

A síndrome do bom burguês

O meu objetivo com esse texto, escrito há algum tempo, é mostrar que de circunstâncias como a greve é possível extrair experiências "edificantes" para o caráter. Além disso, queria aproveitar o espaço desse blog para me expressar e compartilhar um aprendizado que a vida na universidade propiciou.

Estive com o Raúl e mais alguns RIanos na "Assembléia" que teve no prédio da História quinta-feira, cuja pauta era referente à famigerada greve dos funcionários da USP, se os estudantes deveriam aderir a ela. [A princípio, tinha pensado em ir direto ao assunto, mas não resisto a iniciar o texto tecendo uma crítica acerca do modus operandi da "Assembléia".] A bagaça começou com quase uma hora de atraso porque a mesa, composta por membros do DCE, queria estabelecer, por votação direta dos presentes, o tempo disponível aos oradores - os quais seriam sorteados para falar após a sua inscrição - e se estes poderiam concedê-lo a outro se assim o quisessem. A votação mostrou-se um processo primitivo: as quase 300 pessoas que assistiam a "Assembléia" levantaram a mão e foram contadas por uma pessoa x de boa vontade. E para mencionar outros inconvenientes: o prédio da História está longe de ser o mais adequado para essas ocasiões; ele é todo "aberto", o som se propaga para todos os sentidos e a caixa de som em si não ajudava, sem contar o falatório por parte de muitos que ali estavam.

Acho que o fato de haver todo um processo lento e desengonçado antes das "Assembléias", referente ao seu funcionamento, desencoraja quaisquer estudantes que mostrem alguma disposição para se deslocar até o local e participar da coisa política - pensei em vazar na hora, mas como tinha cerveja por 1,50... Por que não criar um modelo fixo de Assembléia, que prescinda dessas formalidades iniciais? Ela não vai deixar de ser menos democrática por isso.

Sobre o que foi dito na "Assembléia", era esperado - pelo menos por mim, calouro ingênuo -, que os dois lados tivessem vez nos discursos, ou seja, que os vermelhinhos (a favor da greve) e os "reaças" (contra) se pronunciassem. No entanto, o que ficou claro é que todos os oradores tendiam à esquerda e defendiam a greve, mas se encontravam divididos [ah, vá...?!] quanto a outras questões. A fala de alguns deles me surpreendeu bastante. O indivíduo y do DCE, que depois eu descobri ser pouco popular entre seus colegas das sociais, poderia mobilizar todos nós e instaurar um regime nazista no Brasil por meio de sua retórica se quisesse; não lembro mais o conteúdo da fala dele, mas foi bastante convincente e me pareceu na hora sensato. Uma oradora conquistou a minha simpatia pelo seu relativo pragmatismo - apesar de ela cursar filosofia -, dizendo que não era contra a greve, mas contra esta ser utilizada como recurso no momento, sem haver uma mobilização geral da USP em prol da causa dos funcionários. O resto tentou nos persuadir dizendo que a universidade já estava mobilizada, que a greve era uma necessidade e um direito conquistado pelos trabalhadores; apelou à nossa consciência, aos valores humanos de compaixão para com o próximo - os funcionários não recebem um reajuste há tanto tempo, tadinhos... - e todo tipo de baboseira. E, acredite, por um momento eu me deixei levar.

Na verdade, essa crise de consciência não foi só na “Assembléia”. A minha dimensão esquerdista chegou a me recriminar algumas vezes por ser contra essa greve, por visar o meu bem-estar em detrimento de uma causa maior, enquanto os servidores reivindicam, através de um meio supostamente legítimo, um "merecido" reajuste salarial. Afinal, eu e muitos outros estudantes que dependemos dos serviços dos funcionários só estamos tendo que fazer caminhadas involuntárias de mais de uma hora ao todo e gastar mais dinheiro e tempo com a nossa alimentação, sem contar custos de outra ordem. Mas isso foi até eu pesquisar mais sobre o assunto e descobrir, mais uma vez, que no mundo real não há espaço para maniqueísmos, que por si só são simplistas - o Rodas pode não ser o mauzinho da história; os funcionários não ganham mal, aliás recebem mais que a média dos funcionários no Brasil; princípios democráticos têm sido proferidos a esmo e de maneira hipócrita nas tentativas de legitimar a greve; há motivos eleitoreiros envolvidos -, e perceber pelas discussões na Internet que de fato é uma minoria na USP que apóia a famigerada e banal greve.

Uma reflexão que faço é que grupos (Sintusp, DCE) ou indivíduos mal intencionados dentro da universidade, geralmente envolvidos com partidos políticos nanicos de extrema esquerda (PSOL, PSTU), tidos como de direita por alguns estudantes da FFLCH [rs], só têm a ganhar com a alienação e a inércia dos estudantes. Normalmente nós ficamos tão presos à vida acadêmica (ou ao nosso umbigo) que nos tornamos alheios aos acontecimentos os quais se dão para além dela, apesar deles terem um impacto direto no nosso cotidiano, e não nos damos conta de que essa greve pode não constituir uma causa maior – como seus partidários gostam de acreditar, porque assim a querem -, mas a de alguns indivíduos, como os clamores nos cartazes colados por toda cidade universitária dão a entender ao fazerem referência à reintegração do companheiro Brandão, em meio a outras reivindicações não concernentes aos funcionários como um todo. Além disso, nós não os vemos se mobilizando em peso na USP (se é que você pode chamar churrascos regados à cerveja de mobilização), o que também sugere que essa causa é de poucos.

Eu queria entender melhor o que leva alguns estudantes a aderirem a movimentos alheios loucamente, mesmo quando eles os prejudicam e representam uma facção de caráter duvidoso, liderada por um comunista trotskista que acredita na implantação do comunismo por meio da violência, ao mesmo tempo que defende o respeito à democracia nos seus discursos. Não sou tão ingênuo; pretensões políticas e de outra natureza (recreativa, por exemplo) constituem motivos fortes. Mas acho que um idealismo genuíno, aliado à síndrome do bom burguês, em alguns casos colabora. Daí tiro outra reflexão, que sintetiza o meu aprendizado: ser a favor de uma causa que te prejudica diretamente não te torna mais honorável ou nobre, mas sim tolo; em outras palavras, quem se anula é otário mesmo, tá cerrrto?

Roger Lai



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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Para além do Bem e do Mal

"Além disso, o inimigo começou a empregar uma nova e terrível bomba, cujo poder de destruição incalculável tem tirado a vida de muitos inocentes. Se continuássemos a lutar, isso não apenas resultaria no colapso final e na obliteração da nação japonesa, mas também levaria à extinção total da civilização humana"
Hirohito


Il Gattopardo, romance ímpar do italiano Tomasi de Lampedusa tem como âmago a trajetória de Dom Fabrizio Corbera, decadente nobre do Risorgimento retratado em sua constante derrocada como aristocrata diante das novas forças da burguesia republicana italiana. Estupefato, ele se agarra desesperadamente a prerrogativas já perdidas, ao mesmo tempo em que o casamento do sobrinho com a filha de um emergente comerciante demonstra que, a despeito dos tradicionalismos, a única maneira de sobreviver é encarar e entender a realidade, para só assim modificá-la em seu benefício. No nobre italiano, discerne-se um notável paralelo com a realidade internacional atual: é indubitável que à era da hegemonia norte-americana segue-se, atualmente, um novo período de multilateralismo, mais e mais evidente na incapacidade americana de lidar com os desafios políticos e econômicos de um mundo que reluta cada vez mais em identificar na bandeira americana uma liderança incontestável no cenário internacional. Prova maior da inépcia e ilusão acerca da liderança da flâmula ianque, a desastrosa política estadunidense com o Irã nega-se a entender a patente verdade e, tal como o nobre siciliano, encontrar vias de trabalhá-la, no caso, a favor da estabilidade geopolítica da conturbada região do Oriente Médio.
É tradicional a manutenção, em diversos níveis acadêmicos, de uma série de preconceitos e visões parciais sobre a realidade em países que fogem à órbita ocidental tradicional, especialmente os de tradição persa e árabe, colocados sob o mesmo rótulo do islamismo. Vamos aos fatos. O Irã, país que tem em sua origem a Pérsia, é um país de cada vez maior relevância no cenário econômico local: de 2004 a 2008 o PIB iraniano cresceu, em média, 3,42%. Dos seus 72 milhões de habitantes (cuja expectativa de vida é 71 anos), 82,3% são alfabetizados. As previsões econômicas, de forma geral, indicam maior dinamismo comercial com os vizinhos, bem como ampliação da influência regional, o que chama a atenção para o aspecto geopolítico iraniano. O país possui fronteiras, a oeste, com o Iraque, invadido por tropas norte-americanas, e a Turquia; a leste, com o Paquistão (detentor de artefatos atômicos), o Afeganistão (outro país sob ocupação americana); e, ainda, encontra-se nas proximidades de Rússia, China e Israel, três Estados que, comprovadamente, são detentores da bomba nuclear. Evidencia-se, assim, a complexa situação geopolítica na qual o país se encontra inserido, cercado por países com grande potencial destrutivo e, alguns deles, dominados pelo maior rival político iraniano, os Estados Unidos. É patente, nesse contexto, a urgência de procurar e desenvolver a tecnologia nuclear como poderoso instrumento de barganha local, sendo condição indispensável para sua desejada emersão como potência regional. Tais elementos são, até certo ponto, inerentes ao fato de o governo ter caráter autoritário e teocrático: mesmo as mais límpidas democracias, a exemplo de Israel, procuraram o refúgio nuclear em contextos semelhantes.
Por outro lado, a análise da situação nuclear iraniana atual demonstra com clareza os avanços já realizados nesse campo: para muitos especialistas, trata-se de uma questão de tempo – relativamente pouco, aliás – para que a nuclearização do país torne-se uma realidade, a despeito dos esforços internacionais. Nesse sentido, vale o comentário da clara ineficiência da nova (e das que porventura vierem) rodada de sanções da Organização das Nações Unidas. Historicamente, o mecanismo de isolamento via restrições econômicas raramente é eficaz, tendo em vista seu alcance limitado, por um lado, pelos interesses comerciais que certas potências, como a China, possuem com o país e, por outro, pela dificuldade da aplicação efetiva de tais medidas em um mundo onde as trocas econômicas adquiriram caráter cada vez mais dinâmico.
O cenário claramente desenhado pelas circunstâncias supracitadas não deixa dúvidas: a união da necessidade, nos conceitos de razão de Estado, para a ascensão do Irã como potência a nível local, com a possibilidade técnica para a produção de artefatos nucleares, elucida que não obstante os esforços internacionais, um Irã atômico é uma mera questão de tempo. Agarrar-se à cartilha wilsoniana da segurança coletiva não só é uma perda preciosa de tempo e de esforços: é também um perigoso instrumento de isolamento de um país que, cedo ou tarde, tornar-se-á detentor de armamentos de desmedido poder destrutivo.
O momento atual seria, dessa forma, muito mais proveitoso se utilizado para abrir canais de comunicação, formas de retirar o Irã do auto-isolamento e colocá-lo na mesa de negociações. A concretização da experiência nuclear iraniana tornará o equilíbrio político do Oriente Médio uma questão ainda mais delicada e predisposta a catástrofes: trabalhar com os novos aspectos desse equilíbrio que surgirá com a emergência dessa nova potência nuclear não é só uma proposta importante, mas a única opção no presente momento e no futuro, caso se queira evitar uma guerra de grandes proporções na região. A ameaça do cataclismo atômico, nesse sentido, suplanta até mesmo as críticas de violações de direitos humanos: há de se conversar para evitar uma tragédia ainda maior. Para além do Bem e do Mal, há uma realidade ali e, tal como Dom Fabrizio no século XIX, resta-nos encará-la, entendê-la para só assim modificá-la.


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DÍVIDA PÚBLICA EM POUCAS PALAVRAS, O QUE É?

Assim como as pessoas, em uma dada quantidade de tempo, os países arrecadam fundos. As pessoas trabalham e mensalmente recebem um salário, como normalmente ocorre. Já os países, arrecadam fundos com base nos impostos cobrados de sua população, em um ano, por exemplo, recebem uma quantidade X de dinheiro. As pessoas usam seus salários, como a arrecadação dos países, para gastos pessoais, como: alimentos, vestimentos, entretenimento, educação ou saúde, entre outros. Os países utilizam suas arrecadações (obtidas através de impostos) da mesma maneira que as pessoas utilizam seus salários (obtidos através do trabalho, na maioria das vezes). Apesar dos países possuírem um escopo maior de frentes para gastarem os fundos recebidos, em geral, ele é utilizado da mesma maneira que as pessoas utilizam seus salários; porém, de uma forma que beneficie, em tese, a todos os cidadãos, os chamados bens públicos. Os gastos feitos pelos governos dos países vão para: saúde, educação, cultura, entretenimento, etc. Ou seja, pode-se fazer uma analogia entre países e pessoas, sendo que o primeiro é o segundo em dimensões centenas de vezes maiores.

As pessoas costumam poupar o dinheiro arrecadado nos salários para ser usado mais tarde. Por exemplo: uma pessoa pode receber R$ 5.000 e gastar somente R$ 3.000, ela terá R$ 2.000 sobrando para ser poupado. Assim também podem fazer os países. Porém, para ambos os atores, tal poupança normalmente é bem improvável, geralmente ocorre a dívida, gerada pelos déficits.

Déficit orçamentário é a situação cuja arrecadação é bem menor que o gasto. Por exemplo, utilizando o exemplo da pessoa acima, supondo que ela gaste R$ 6.000, ela terá um déficit de R$ 1.000. Logo, ela estará devendo R$ 1.000. Isso também ocorre com países, quando isto ocorre, chamamos de déficit do orçamento de um governo em um dado período de tempo. O que diferencia a dívida do déficit é que a primeira é a soma de todos os déficits. Quando alguém, uma pessoa ou um país, está em devendo uma quantidade de dinheiro, ela/e precisará pagar tal dívida o quanto antes possível, pois alguém estará esperando receber pelo bem/serviço que forneceu a este devedor. Se tal pessoa/ país não saldar tal dívida, ela será taxada de inadimplente, e não terá mais confiança na hora de gastar seus fundos. Caso essa pessoa/ país pagar sua dívida, será cobrada uma taxa de juros proporcional ao tempo em que está dívida existiu, se tal dívida perdurou por 30 dias, será cobrado uma porcentagem de juros proporcional a esses 30 dias.

Voltando ao caso da poupança, usando o mesmo exemplo da pessoa que provavelmente poupou R$ 2.000. O que ela faria com esse dinheiro poupado?

Existe o chamado mercado financeiro, que é composto pelas pessoas que poupam e aquelas que necessitam de mais dinheiro. Aquelas que poupam, colocarão seu dinheiro à disposição daqueles que precisam de mais, nas chamadas poupanças – ou em outros meios de investimento, gerando aos poupadores um rendimento extra, uma porcentagem específica em cima do que elas disponibilizaram. Tal rendimento é gerado em cima dos juros cobrados dos devedores. A lucratividade das casas bancárias que oferecem a poupança, entre outros meios de investimento, ocorre graças a diferença entre os juros cobrados em cima dos devedores e aquele dado aos poupadores. Graças aos poupadores, um artista plástica recém-formado que gostaria de abrir seu ateliê poderá recorrer às casas bancários e pedir um empréstimo, que gerará a este uma dívida, a fim de que ele possa construir seu ateliê e saldar tal dívida posteriormente, com os devidos juros, à medida que seu ateliê gere lucratividade.

Voltando aos países, que nos é mais interessante, os países que poupam poderão disponibilizar seu excedente àqueles que precisarem de investimentos (tanto pessoas quanto países), gerando ao governo um rendimento, e possibilitando que a economia de tal país poupador cresça; tendo em vista o crescente investimento de capital poupado. Já os países em déficit e endividados poderão recorrer a empréstimos a fim de saldar suas dívidas, tais empréstimos podem vir de várias maneiras, tanto internamente quanto externamente. Externamente, que não é nosso foco, poderá ser feito em organizações, bancos ou fundos internacionais, como o FMI, ou bilateralmente com outro país poupador. Tal empréstimo externo ocorrerá da maneira comum, com um juros específico, e a ser saldado mais tarde, com as devidas especificidades. Já internamente, nosso foco, ocorrerá pela venda de títulos públicos, onde um governo vende títulos aos seus cidadãos (também a estrangeiros), pegando um quantia específica de dinheiro emprestado de um dado cidadão (normalmente a quantia que esse compra do título, por exemplo, os R$ 2.000 do exemplo acima) e se comprometendo a pagá-lo mais tarde, com uma taxa de juros também determinada (pelos bancos centrais, por exemplo, de 10% ao mês). No entanto, se endividar nunca é uma boa opção, deve-se fazer um trade-off entre se endividar ou cortar gastos, ou entre se endividar ou imprimir mais dinheiro, gerando uma inflação. O endividamento leva uma queda no crescimento.

Vemos assim, que os países, assim como as pessoas, podem negociar seu capital excedente no mercado financeiro e, assim que necessário, pedir emprestado mais capital para usá-lo assim como necessitar. No entanto, tal questão gera muitos problemas e polêmicas atualmente, a exemplo, os países largamente endividados da União Europeia ou da África. Qual será o papel dos banqueiros frente a tais dívidas? Quem se beneficiará com o grande endividamento de países? Como os cidadãos poderão alocar seus recursos frente uma grande dívida do governo? Entre muitos outros.

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Texto desenvolvido para o trabalho da professora Maria Antonieta del Tedesco Lins. Um texto mais sério e educativo - a La Maniw, comparando-se com as crônicas que eu possuo aqui e tenho preguiça de digitar.


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domingo, 13 de junho de 2010

Loucos, sãos, Israel

Às vezes, penso o que se passa na cabeça dos governantes; eles só podem ser loucos. Afinal, o que explicaria o ataque israelense, em águas internacionais, à flotilha que levava ajuda humanitária à Gaza? Se a intenção fosse por o mundo inteiro contra si, vá lá, mas creio que os israelenses valorizam, e muito, o apoio da comunidade internacional; principalmente num momento de crise no Oriente Médio.

De fato, nada seria pior para os israelenses do que se o Irã conseguisse armamento nuclear. E não é que o ataque israelense também conseguiu, além de isolar o país internacionalmente, adiar a votação das sanções para o vizinho muçulmano? Ou seja, não há definição melhor para o ato do que burrice; insanidade chega perto, mas creio que nem um louco conseguiria acarretar tantas consequências negativas para si em um só ato.

Não sei quantos sabem, portanto irei reproduzir aqui trecho de notícia que saiu no jornal Folha de São Paulo em 1º de Junho, terça feira. O contexto é a chegada dos navios ao porto de Ashdod. “O trabalho dos jornalistas atraiu centenas de moradores, a grande maioria identificada com a direita nacionalista. (...) No meio da agitação nacionalista, duas jovens com as cabeças cobertas com véus, facilmente identificáveis como árabes, circulavam com ar tímido. Logo foram abordadas pelos manifestantes, que as cercaram sob um coro de insultos. (...) Após observar passivamente o assédio que sofriam, policiais tiveram de acompanhá-las, para que não fossem agredidas. O ímpeto nacionalista também atingiu uma equipe da rede de TV qatariana Al Jazeera, cujo repórter, ao vivo, teve a voz abafada pelos manifestantes, jovens e idosos. ‘Morte aos árabes’, gritavam.”.

“Se Israel tem a bomba e o Irã não, se Israel ataca pacifistas estrangeiros e o Irã não, se Israel não ouve ninguém para decidir atos assim e o Irã pelo menos tenta um acordo”, será que não seria cabível propor sanções também a Israel? Já há quem defenda, inclusive, o direito do Irã de enriquecer urânio e assim se proteger de radicais israelenses. Não vou tão longe, mas defendo, sim, o direito, não só do Irã, mas do mundo inteiro, de viver em um mundo sem armas nucleares; ou seja, um desarmamento completo.

É nessa direção que caminha a revisão do TNP. Alguns pontos acertados: a)Oriente Médio: convocação para 2012 de conferência sobre “zona livre da bomba” no Oriente Médio; reafirma importância de Israel aderir ao TNP e pôr instalações nucleares sob salvaguardas da AIEA; pede que Índia, Paquistão e Israel suspendam desenvolvimento de arsenais e adiram ao TNP e b) Desarme nuclear: fase final do desarme deve ter “moldura legal”(não ser baseada apenas em medidas voluntárias); potências devem relatar até 2014 avanços à comissão preparatória da revisão de 2015; reafirma necessidade de “irreversibilidade” do desarme.

Bom, por fim, para voltar ao assunto “lunáticos”, o time marcou mais um ponto: segundo Ri Jang-gon, embaixador-adjunto norte-coreano perante a Conferência de Desarmamento da ONU “a situação na península coreana está ‘tão grave’ que uma guerra pode começar ‘a qualquer momento.’”. Não satisfeito, adicionou: “as tropas norte-coreanas estão sob alerta total e preparadas para reagir prontamente a qualquer retaliação, inclusive a guerra”. E para completar a felicidade dos loucos de plantão o secretário de Defesa americano, Robert Gates, disse que os EUA estudam realizar exercício militares extras com a aliada Coréia do Sul em breve. Haja mundo para suportar a tanta vontade de fazer a guerra. Parece, de fato, que os mais lúcidos atualmente são Brasil, Turquia e Irã, que buscam o diálogo e o acordo de maneira exemplar.

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