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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quebrando o monopólio Emannoelístico

Ia postar um texto mais sério que eu tenho escrito em doses homeopáticas sobre direitos humanos, mas sai dessa brisa, Roger.


Tô aproveitando o ensejo das férias para assistir a filmes do bem e ler livros sem teor acadêmico como a maior parte dos RIanos, acredito, porque Deus nos livre. E como alguns dos primeiros são bons o suficiente para eu indicar, ia ser segregacionista e enviar e-mails a alguns t-nonos seletos falando sobre eles; mas depois pensei: por que não escrever no iRIdescentes, que tem/tinha um público maior, e de quebra interromper o monopólio de Emanno for the sake of it? Talvez esses filmes não sejam novidade para vocês como foram para mim, que moro numa cidade onde as coisas não acontecem, mas fica a dica.

Engraçado como os filmes que tenho assistido têm uma relação estreita com música, uns mais, outros menos, e tratam de gente perdida, que não sabe qual rumo tomar na vida – RIanos nem se identificam... Entre os que eu assisti recentemente, dos que gostei mais foram ‘A Partida’ e ‘Apenas Uma Vez’.

O primeiro é japonês e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008:



O seu enredo tinha um grande potencial para fazer dele uma novela mexicana, afinal o personagem principal foi abandonado pelo pai e lida constantemente com a morte, presenciando velórios sucessivos; mas alguns momentos cômicos pontuais que permeiam o filme, aliados ao drama de fácil identificação das personagens, extremamente envolventes, tornam-no de certa forma “leve” e cativante. No início da trama, o desafortunado protagonista se vê sem um norte: a orquestra da qual fazia parte tocando violoncelo é dissolvida e ele, obrigado a procurar uma outra atividade que traga sentido à sua vida - sentido esse que até então, descobriu depois, nunca houve. Uma reviravolta se dá com o personagem voltando às suas origens, à maior simplicidade da vida no interior do Japão, onde sua mãe havia lhe deixado uma casa como herança e local em que ele passou a realizar uma atividade a princípio recriminada como indigna pelo seu entorno e até por ele mesmo.
Incrível como tudo nesse filme é bonito e comovente e me faz ter orgulho de ter, em parte, ascendência japonesa. Difícil não se deixar tocar pelo ofício nele exposto, que não vou detalhar aqui, e pelo drama familiar entre as personagens, sobretudo aquele concernente ao protagonista e o seu pai, um inexplicável. Se você não ficar com os olhos marejados durante a cena final, a do reencontro, você tem uma pedra áspera no lugar do coração – ou não entendeu o que aconteceu.

O outro filme, ‘Apenas Uma Vez’, passa-se em Dublin, Irlanda, e trata de uma relação de amizade entre um talentoso músico de rua, que havia sido abandonado por sua namorada, e uma imigrante de origem tcheca, também amante de música, tentando ganhar a vida e o sustento de sua família na cidade. A sinopse que eu havia lido sobre esse filme era enganadora: dava a entender que se tratava de uma “romance” açucarado – tipo que não faz o meu gosto, de verdade. Mas como envolvia música e um assunto de caráter internacionalista, acabei dando uma chance a ele – e não me arrependendo no final.



O filme expressa muito bem o poder agregador da música, de como a sua linguagem universal tem a capacidade de unir as pessoas. Um tesão ver o protagonista indicando os acordes a serem tocados de uma canção escrita por ele em que a outra personagem acompanha tocando piano e fazendo a segunda voz, tudo isso numa loja de instrumentos musicais; o resultado dessa química natural existente entre os dois, que é a música “Falling Slowly” (que rendeu um Oscar), é surpreendente. O resto do filme mostra o drama desses personagens, de como ele se acomodou após o abandono pela namorada e de como a amizade da protagonista, conquistada através da música, foi importante na superação dessa fase na vida dele; a expectativa de uma possível relação amorosa entre os amigos e o processo de criação musical.

Acho que não preciso falar que a trilha sonora de cada um dos filmes mencionados é sensacional.
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Descobri essa música por acaso na net, ignorem a montagem tosca. Richard Thompson cantando com seu filho, Teddy Thompson, “Persuasion”:


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segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Arte de Viver

Texto escrito há 15 dias, mas só agora revisado =D

“O teatro não é o lugar em que fingimos ser outrem ou colocamos máscaras, mas aquele em que nos descobrimos e todos os disfarces caem”.

Passei algum tempo pensando sobre o que devia escrever no blog: matérias mais específicas de RI, cultura, reportagens, qualquer tema ou nenhum. O maior problema, depois da falta de prioridade quanto ao blog, era o receio de escrever. Nunca fui exímio com a caneta; acredito que minha comunicação corporal, apesar de tão acanhada e débil neste primeiro semestre, seja a melhor forma de me expressar.

Quero juntamente registrar aqui que me parece uma ótima idéia a criação de um blog e que minha escrita possui dois fatos estranhos(?): 1- utilizo fontes MUITO diversas e não me importo se estou citando Aristóteles e Morgenthau ou Marco Luque, Batman e Naruto porque, em suma, o que vem de mais novo na produção ocidental e oriental recicla pensamentos e mesmo textos antigos; 2- não escreverei, de primeira, um texto com temas políticos ou extremamente sérios que passaram por minha cabeça, tais quais a catástrofe nordestina, as ondas de suicídio global, o aumento da receita previdenciária ou o acordo sino-taiwanês. Falarei sobre o Teatro, tentando imprimir uma curiosidade e, quem sabe, desejo de participar/assistir teatro por parte dos leitores, pois a falta de público é imensa no Brasil. Abramos as cortinas!

A Arte de Viver

O teatro que hoje representa tanto o local físico da representação cênica quanto esta própria, é uma fonte de conhecimentos interminável para os espectadores, atores, diretores e técnicos envolvidos em seu desenvolvimento. Meu foco aqui será a arte dramática que não apresenta uma única definição absoluta e correta, sendo interessante aquela enunciada por Stanislavski: é a capacidade de representar a vida do espírito humano, em público e de forma artística.
Começo pela face não exata ou paradigmática das qualidades teatrais, eixo essencialmente mais interessante e complexo. A abertura mental a novos universos, idéias, dimensões e sentimentos propiciada pelo teatro é simplesmente esplêndida. Não consigo pensar em nenhum outro meio que conjugue com tal perfeição a leitura, a discussão e a imaginação junto ao uso da melhor ferramenta que nós possuímos: o corpo. A prática teatral possibilita um tal entendimento de si, uma paz e euforia conjuntas e uma felicidade por estar vivo a qual pode dar sentido novo a vida ou criar um para ela.

Além disso, acredito que a diversão e a aprendizagem atingem seu apogeu nas artes cênicas. E não falo aqui só do puro gozo do riso, mas a diversão como resultado de realização pessoal e a aprendizagem constituída por descoberta e criação de conhecimento, expandindo nossos limites.

Há ainda o desenvolvimento do próprio olhar teatral como espectador, que passa pela identificação com o outro e expansão de nossos focos, que iniciam em si mesmo e se expandem para os colegas, para o palco e, enfim, para o público, criando momentos sublimes. Ademais, acho fabuloso a ligação prática de conceitos histórico-geográficos, psicologia e outras áreas do conhecimento na construção de algo maior, sendo que de nossas mãos e mente surge um outro ser, a Persona, e por fim, o espetáculo.

Pelo eixo mais pragmático de aprendizagem, observamos no teatro o contato e aperfeiçoamento de diversas capacidades muito valorizadas atualmente, como: a visão crítica da realidade e tentativa de apresentar resoluções para nossos problemas; o trabalho em grupo; a organização e planejamento de ações individuais e conjuntas e também a agilidade ao lidar com situações improváveis, ou seja, improvisar; memorização de termos chaves e técnicas de leitura rápida; manter a calma ao falar em público, através da identificação com a platéia e manejo da mesma; por fim, a postura e linguagem corpóreas permitem imposição de si mesmo, sendo possível projetar sensações aos outros, como pressa e angústia, perto ao desespero, ou calma e tranquilidade, próximas à paz.

Através desta caracterização pessoal e positiva do fato de viver o teatro, tento fazer um tributo à arte cênica em questão. É necessário apresentar aqui um problema que me incitou a tal ato, que é o déficit enorme de atenção social à essa arte de potencial imenso para construção de uma sociedade melhor. Acredito que não seja só pela desigualdade social e preço das peças que haja pouca demanda, até porque há vários espetáculos gratuitos ou de baixo custo em São Paulo; mas pelo fato de não haver uma cultura teatral no Brasil, que precisa ser incitada, mesmo que através de iniciativas pequenas, como esta.


Dica de site para achar apresentações de baixo custo e gratuitas: http://catracalivre.folha.uol.com.br/

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terça-feira, 6 de julho de 2010

Feijoada búlgara (ou finalmente um texto que merece esse título)

Não estou satisfeito com meus posts aqui no Irid's. Nem um pouco satisfeito, de fato. São apenas um monte de besteiras com um pouco de sentido. Acredito que a academicidade dos meus colegas de blog me amedrontou um pouco, mas agora decidi fazer postagens mais livres, mais do jeito que eu gosto, e se por algum desatino do destino – que combinação de palavras incrível! – você gostava daquilo, bem, eu prometo ainda falar um pouco dessas coisas, mas de forma menos crítica, simplesmente viajando, sem tentar encher o texto com piadinhas que ou são completamente desprovidas de todos os atrativos ou são praticamente inacessíveis para compreensão, por não se adequarem de fato a este formato. Ou talvez por que eu não estou devidamente adequado a este formado. Pro inferno.

***

A inspiração é uma vadia. Não, é muito pior do que isso. Você sequer tem a opção de comprá-la por alguns trocados quaisquer sempre que quiser, muito pelo contrário, ela passará dias e dias sem te olhar nos olhos, te evitará, jogar-te-á no lixo dos poetas, pensando que de alguma forma sua criatividade foi inutilizada. E tudo isso, para de uma hora para outra ela te acordar no meio da noite, ou te manter acordado por horas além daquelas que você normalmente estaria disposto a passar em claro, e tudo isso por resultados que nem sempre são satisfatórios. Não é só porque ela te permite tê-la em tuas mãos que você de fato conseguirá moldá-la em arte, ou mesmo em coisas menores. Ela poderá te torturar, te usar, te fazer suar e arfar, só para que quando coloque o ponto final naquilo que estava escrevendo perceber que tudo aquilo que fez ficou péssimo, que para a quantidade de inspiração que tinha poderia fazer algo muito melhor. Talvez essa queda na produtividade se dê exatamente pela falta de sono, afinal a maldita te fez acordar no meio da noite, com uma idéia que parecia ser genial e que no fim não pode ser transposta de forma satisfatória. A idéia talvez realmente fosse genial, talvez o problema estivesse em você. Ou talvez em mim.

***

Um pequeno conto, completamente ficcional, embora a idéia tenha me surgido de uma situação real:

De alguma forma a presença dela me desagradava. Estivera preparado para estar ali, desde cedo sabia que as coisas acabariam em uma mesa com pessoas rindo e falando besteiras. Mas não esperava que ela estivesse lá. De alguma forma aquela presença me incomodava. Não é como se eu não gostasse dela. Muito pelo contrário: todas as pessoas na mesa me eram agradáveis, ela em especial. No entanto algo estava errado. Talvez me tivesse surpreendido, talvez simplesmente não soubesse como agir na frente dela, ficava assustado. Bebi um pouco, apesar de não ser muito afeito a bebidas alcoólicas, pensando que poderia assim me soltar um pouco. Não deu certo, talvez a quantidade tenha sido pouca, ou só me compeliu a falar besteiras que sequer chegavam a ser engraçadas, piorando a sensação que ela me causava. Agora penso que isso pode ter sido completamente imaginado, mais uma das inúteis ilusões que minha mente insiste em criar. Apenas eu, como o bobo solitário que sou, percebia todas as vezes que buscava consolo no rosto dela, como se para fugir de mim mesmo, como se para me perder um pouco mais na demência em que julgava me encontrar, e na qual de fato poderia estar.

Era o tipo de situação da qual costumo gostar bastante, desde muito minha maior diversão é essa: estar com um grupo de pessoas que considero minhas amigas, se preocupando com pouco, rindo de muito. O consolo dos livros, filmes e mesmo das músicas são de certa forma mais solitários, incomparáveis a uma gargalhada sincera. Mas dessa vez era diferente, não de todo um desconforto, mas a sensação de que algo está no lugar errado; tentei agir como sempre o faço e se consegui não o sei. Justo agora que me acreditava livre da dependência que ela me causava percebi que era fácil ter recaídas. É assim com todos os vícios: ou você se livra deles por vontade própria ou eles vão acabar te matando, de uma forma ou de outra; não existe ajuda externa que salve os viciados, eles não escutam, julgam-se normais em sua decrepitude, em sua imundice. Comigo não é diferente, afinal também é possível que nos viciemos em um rosto, por mais que este não nos diga muito, por mais que ele simplesmente sacie nosso vício. No entanto aquela reação me era nova, uma overdose seria o mais passível de comparação, mas de fato não era isso.

Voltei para casa na noite fria. Dentro do ônibus uma fragrância irritou meu olfato, congestionou minhas vias respiratórias. O cheiro me lembrou a situação ainda a pouco passada: não era um cheiro ruim, pelo contrário, era até agradável, mas me tomava de uma forma que de forma alguma me agradou, muito denso, completamente avesso a mim, praticamente agressivo. Logo creditei-o a uma moça que sentava-se perto de mim, visivelmente preparada para alguma aventura noturna, como se costuma ver muito nos bairros semelhantes àquele em que vivo. Em um ponto, no meio do meu caminho para casa, no entanto, ela desceu, mas o cheiro ficou, continuei a me perturbar, dessa vez ainda mais, com o cheiro que ficava mesmo após sua causa ter desaparecido. Apenas ao descer do ônibus, no curto percurso que tenho de fazer a pé até minha casa percebi que o cheiro era meu. Aquilo me surpreendeu absurdamente. Não reconhecia aquilo como sendo parte de mim. Apesar de provavelmente não ser desagradável para todos, como eu disse não era um cheiro ruim de todo, mas ainda assim era detestável para mim. Fiquei a me perguntar desde quando eu passara a ser tão repulsivo para mim mesmo sem o perceber.

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Depois de todo esse tempo de lançado você já deve ter visto o filme 500 dias com ela. Se não viu faça isso, provavelmente vai ser seu primeiro contato com a Zooey Deschanel. A não ser, é claro, que você já tenha visto O Guia do Mochileiro das Galáxias, mas não é a mesma coisa, talvez porque os dois são extremamente diferentes, em 500 dias a naturalidade é impressionante, a personagem é apaixonante. Mas além de atriz a moça da Califórnia é também vocalista de um duo com M. Ward, conhecido expoente do folk moderno; juntos eles formam o She & Him, que recentemente lançou seu segundo disco, composto por uma boa quantidade de músicas próprias, escritas por Deschanel e musicadas por Ward, além de alguns covers de músicas famosas, como já tinham feito no primeiro álbum. A sonoridade do grupo é bem simples, e agradável, vale a pena conferir. Mas uma curiosidade é que Zooey é casada com o frontman de uma banda que gosto bastante, Ben Gibbard do Death Cab For Cutie, que ao que tudo indica virá ao Brasil no segundo semestre, não pretendo perder. As vezes ao ouvir She & Him, fico pensando na influência que ele pode ter tido sobre as composições da esposa, longe de mim falar que ele teria mão ativa no que ela escreve, até mesmo porque são estilos completamente diferentes: embora ambos sejam tranqüilos e agradáveis S&H é radioso, enquanto DCFC é bem mais sombrio. Mas ainda assim é inegável que ambos devem influenciar um ao outro, se não de forma direta ao menos como inspiração.

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Espero que não tenha ficado um texto de todo confuso. Vamos ver a recepção disso.

"A Coerência é o fantasma das mentes pequenas"
-Woody Allen.

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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Como explicar?

Foi disputado, em três dias, o jogo mais longo da história do tênis. Ele ocorreu no torneio de Wimbledon, no qual não há tie break- o último set teve parciais assombrosas de 70-68. Foram necessárias 11h05, divididas em três dias, para que o jogo acabasse. O confronto teve início na terça-feira e teve de ser paralisado por duas vezes devido à falta de luz natural. Apesar disso, pouca gente fala de tênis. As atenções mundiais, assim como há 4 anos, estão totalmente voltadas para o futebol- qual a magia, então, do futebol? O que move tanta gente em torno de tal esporte? Desde 1930, sem contar 1942 e 1946 quando a Segunda Guerra Mundial impediu sua realização, a Copa do Mundo de Futebol ocorre, a cada 4 anos e durante cerca de um mês, e atrai a atenção do mundo inteiro. Nações inteiras torcendo, sofrendo, chorando ou festejando. Paixão, amor, raça, dor, tristeza e alegria, tudo se mistura quando o assunto é futebol. Como explicar, porém, a magia do esporte, que para alguns não passa de 20 homens correndo atrás de uma bola? Então lhes pergunto, para ficarmos apenas nas Copas do Mundo, como explicar uma seleção mixuruca, como a dos EUA, conquistar um terceiro lugar na primeira Copa- a de 1930? Como explicar a Itália bicampeã com apenas 3 torneios disputados (campeã em 1934 e 1938)? Como explicar a vitória uruguaia em pleno Maracanã, diante de cerca de 200 mil pessoas (sim, naquela época as chamadas “gerais” proporcionavam um espaço muito maior, junto de um desconforto também sem precedentes), na Copa de 1950? Como explicar a Copa de 1954 como um todo, quando o genial Puskas e a seleção húngara- invictos há mais de 4 anos, ou 29 jogos, como preferirem- perdendo a final para a Alemanha (um tanto quanto insossa, na época), time do qual já haviam ganho, na mesma Copa, por 8 a 3? Como explicar Pelé e Garrincha, que juntos, pela seleção, não perderam um jogo sequer? Como explicar a seleção do tri, de 1970, considerada por muitos, até hoje, a melhor seleção campeã de uma Copa do Mundo? Como explicar Cruyff e a “Laranja Mecânica” serem derrotados em 1974? Como explicar o Brasil mágico de 1982, que junto com a Holanda de 1974 e a Hungria de 1954, figura como um dos maiores enigmas das Copas, por não terem sido campeãs? Como explicar, em 1986, um gol de mão dando o título para a Argentina? Como explicar uma seleção chata e sem graça, como a de 1994, acabar campeã? Como explicar a França, campeã em 1998, vexatória em 2002, vice em 2006, vexatória² em 2010? Como explicar o mago Zidane, expulso na final de 2006, levando, consigo, as chances de a França conseguir o título? Como explicar os atuais campeões e vice-campeões eliminados na primeira fase e em último lugar de seus respectivos grupos? Como explicar os guerreiros sul-africanos, que após tanto lutarem, acabaram como a primeira anfitriã a não passar para a segunda fase? Como explicar a Eslovênia, que entrou no vestiário classificada e, quando seus jogadores saíram do banho, descobriram que os EUA marcaram um gol aos 46 do segundo tempo? Como explicar Messi? Como explicar a Itália, que por alguns segundos vê-se classificada, mas logo após nota o bandeirinha erguendo a bandeira? Como explicar uma frágil bandeira chilena, rasgada, retirada dos escombros do terremoto, entregue para seus jogadores, representando a esperança de toda uma nação devastada pelo destino? Não dá para explicar. E, se me perguntarem: qual a magia do futebol? Creio que a única resposta cabível seja: não dá para explicar.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Feijoada búlgara (ou um minuto de cegueira)


"Always look on the bright side of death"
- Monty Pyton

Por Emannuel K.
Morreu José Saramago. Você provavelmente já sabe disso, já deve ter ouvido falar do ocorrido, provavelmente com mais detalhes do que eu. Já sabe que Portugal decretou dois dias de luto pra que o país honrasse o único escritor de língua portuguesa a ganhar um premio Nobel de literatura por um fim de semana. Talvez já saiba até da repercussão disso e as diferentes formas de recepção que a igreja teve do ocorrido. E se você já sabe disso tudo, caro leitor, pouco posso dizer da genialidade que ficou impressa nas páginas dos livros de Saramago. Eu mesmo não cheguei a ler toda a sua obra, seu estilo não era dos que mais me agradavam, mas ainda assim reconheço que foi um como poucos, um dos melhores, que ainda assim me agradou e me orgulhou de ter lido suas obras, de poder dizer que sou lusófono, como Saramago, mas com o sotaque um pouco diferente. Independentemente de minhas preferências literárias pessoais, tinha Saramago como maior escritor vivo de língua portuguesa, e fiquei muito surpreendido quando descobri, no mês de janeiro desse ano de 2010, que na terrinha um outro escritor concorria com o bom velhinho (não o Papai Noel, Saramago) e seu nome era Lobo Antunes. Esse sim é praticamente um desconhecido das massas brasileiras, e mesmo em círculos instruídos não são tão numerosos os que o conhecem, por já estar com uma carga de leitura considerável deixei passar a chance de conhecer o trabalho do Lobo, mas fiquei bastante intrigado desde o inicio do ano. Mas aí morre Saramago e eu sinto que se forma um vazio na nossa querida literatura. Conversando com alguns amigos discuti se seria essa a hora e vez de Lobo Antunes, se seria ele o próximo expoente da literatura lusófona, qual foi minha surpresa ao perceber que todas as respostas foram negativas e categóricas: De forma alguma, quem manda agora é Mia Couto. Esse moçambicano que ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras é, no entanto, feito de um material completamente diferente, a ponto de me espantar o fato de ser unanimidade entre aqueles com quem discuti o tema. Sobreveio então uma dúvida: seria isso culpa da pouca popularidade de Lobo Antunes no Brasil ou porque o único combustível que mantinha o escritor em páreo com Saramago era exatamente a rivalidade entre eles?
Isso leva a uma reflexão muito capciosa: a importância que o conflito entre dois pólos tem para que ambos se sobressaiam. Sem o seu fiel nenhuma balança tem utilidade, ou seja, não é possível que vejamos as qualidades de um sem que exista outro para contrapor. No caso isso funciona mais ou menos assim: Em algum tempo perdido do século passado Portugal tinha dois escritores de qualidade indiscutível, mas que por algum motivo não iam muito além da terrinha que é o dito país. Cria-se então um conflito, sempre no mais cordial dos ânimos, que coloca em conflito esses tais escritores, todos os leitores portugueses se mobilizam e tomam o partido daquele que é seu preferido. Logo, os dois escritores, motivados pela disputa, atingem seu auge criativo e então o resto do mundo não pode mais ficar alheio à literatura portuguesa. Alguns países tomam partido, mesmo que de forma não muito clara, como o Brasil, que não teve nenhum motivo para escolher o lado de Saramago, num caminho diferente do tomado por alguns países da Europa, por exemplo, ou de outros, para onde a disputa se estendeu. E então, para coroar a disputa, um dos dois ganha o Nobel, e esse você já sabe qual é. Mas aí é que está: será que sem Lobo Antunes teria Saramago ganhado o tão cobiçado prêmio? Em nenhum momento sua habilidade na escrita é posta em dúvida, assim como não ponho em questão se seria realmente Antunes um melhor escritor, como defendem alguns, mas a importância desse que foi deixado de lado pelos brasileiros na carreira do rival deve ser considerada ao menos como um fiel da balança, que acabou por pender para o lado de Saramago. Mas sem algo para contrapor o fiel também perde seu significado. Lobo Antunes corre agora o risco de voltar à condição que tinha antes de iniciar seu conflito com Saramago e ter de assistir, impotente á tomada por Mia Couto do título pelo qual disputou muito tempo: o de maior escritor vivo da língua portuguesa.

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