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domingo, 3 de abril de 2011

Pulp Literature #4

112Essa noite sonhei com ela. Não posso dizer que não foi um sonho estranho, porque sem dúvida foi. Ou melhor, talvez não tenha sido de todo estranho, simplesmente não estou acostumado a sonhos desse tipo, não estou acostumado a sonhos que façam tanto sentido ou que me digam alguma coisa de forma tão clara. A maior parte do sonho foi uma simples conversa sobre trivialidades, amenidades. Não vou saber dizer o que foi dito, ou qual foram os temas abordados, foi um sonhos, as coisas não funcionam desse jeito, não lembramos de todos os detalhes horas depois de estarmos acordados. Normalmente deixo ao lado da cama um pequeno caderno de anotações, para escrever aquilo que se passou em minha cabeça durante a noite, muitas de minhas estórias surgem dessa forma, mas normalmente são estórias das quais não gosto muito, são alta-fantasia ou simplesmente apresentam lacunas ou falhas enormes, que eu obviamente não conseguia identificar enquanto estava dormindo, Quase todas então são alguns rabiscos, coisas que nunca vão ver a luz do dia. Mas essa é uma situação diferente.
Não vi necessidade de escrever os acontecimentos do meu sonho. Não eram de grande importância para uma estória. Pelo contrário, eram muito pessoais. Agora não me lembro sobre o que conversamos no sonho. Mas ainda assim tenho uma vaga ideia. Mas, como disse, não faz diferença, não é sobre isso que quero falar. Quero falar que por mais que não lembre sobre o que estávamos conversando, lembro claramente que estava feliz. E me permito à liberdade de pensar que ela também estava, afinal era um sonho meu, e as imagens que conservo em minha mente não me desmentem. É impressionante como algumas imagens de sonhos nunca saem de nossas cabeças. Mas agora que penso nisso, talvez não sejam realmente coisas tiradas de sonhos, mas sim imagens reais das quais não consigo dissociar a sensação onírica – detesto essa palavra, mas não consegui pensar em nada mais apropriado enquanto meus dedos correm pelos tipos da máquina de datilografar.
Mas o que realmente me fez pensar foi o que veio depois disso. Eu não sou o tipo de pessoa que costuma ter sonhos eróticos, veja bem. Não sei dizer exatamente o porquê disso, mas o fato é que posso contar nos dedos de minhas mãos a quantidade de vezes que já sonhei com esse tipo de coisa. Mas o fato é que que o que se seguiu provavelmente pode ser descrito como um sonho erótico. Não vou descrever os mínimos detalhes, isso não é um texto sensacionalista e se o fizesse estaria inventando tudo, pois não lembro dos detalhes, e meu objetivo não podia se mais incompatível com o desenrolar do ato sexual. E ao escrever isso me surpreendo, pois não consigo realmente imaginar esse tipo de palavras saindo da minha boca na vida real, todo esse pseudomoralismo realmente não tem muito a ver comigo. Mas a máquina não rejeita nada, e nela não corro o rico de arrancar a língua com meus próprios dentes simplesmente por ter falado algo que de forma alguma é compatível com o meu comportamento habitual. Afinal escrever não é nada além de mentir pra o papel, e é ele por sua vez que mente para os leitores, não o escritor.
Mas se deixo de lado essa oportunidade que não muitas vezes aparece de fazer comentários lascivos é porque o que vou dizer agora, neste parágrafo teve sobre mim um efeito que não consigo até agora entender completamente. Ao sonhar eu sabia que a pessoa com quem fazia amor não era ela. Era completamente diferente: a cor de seus cabelos, olhos e pele, suas formas, suas proporções, desde seus trejeitos mais suaves até mesmo as diferenças mais gritantes. Não era ela. Mas ao mesmo tempo tinha de ser. Mesmo no sonho me parecia inconcebível que não fosse, mais até do que pareceria se estivesse acordado, sem sombra de dúvida. Não era ela, mas eu não conseguia aceitar que não fosse, então, de fato, era, mesmo não sendo. Não sou um grande intérprete de sonhos, eu reconheço que eles querem me dizer alguma coisa, mas dificilmente algo diferente do que eu quero dizer a mim mesmo. A ideia de dormir com ela era tão inconcebível, tão longe da realidade, que mesmo inconscientemente meu cérebro parece indisposto a aceitar.
***
Ele estava sentado na velha cadeira de balanço vendo o por do sol. Estava em frente a uma daquelas casas de madeira que só podem ser encontradas naquela região. Sempre achara aquilo exótico, de onde viera as casas podiam ser feitas de muitas coisas, mas madeira certamente não era uma delas, exceto talvez por alguns detalhes. Mas aquilo fora muitos anos atrás. Agora estava acostumado a sentar ali, na frente daquela casa, na velha cadeira de balanço algumas horas antes do por-do-sol, o cachorro, velho e cego caído de um dos lados, se aproveitando dos raios de sol até o último, e depois indo para dentro da casa procurar um lugar para se proteger do frio que costumava chegar à noite e fazer doer os seus ossos.
De certa forma aquilo servia também para o homem. Todos os dias sentava-se ali e lia a bíblia que a muitos anos atrás fora de seu pai. Não era um homem religioso, mas já tinha lido várias vezes todos os outros livros que tinha em casa. E o velho livro aguçava a sua imaginação. Quando se via naquela situação lembrava do pai. Eram muito parecidos, agora ele conseguia ver isso. Ele nunca quisera ser parecido com o pai, por mais que tivessem um relacionamento bom. E as vezes se sentia feliz que não tinha nenhum filho para se sentir como ele agora se sentia dentro de alguns anos.
Nos cabos telefônicos algumas andorinhas observavam o por-do-sol junto do homem. Era uma visão bonita, aqueles pássaros. E era um anoitecer bonito, mais bonito que os que costumava observar depois de colocar a bíblia sobre os joelhos e começar a pensar em como era parecido  com o pai. Talvez fosse mais bonito por causa das andorinhas. Elas não cantavam como alguns outros pássaros, mas ainda assim era uma coisa bonita de se ver: aquele Sol enorme e alaranjado sumindo aos poucos, o jogo de sombras com os cabos telefônicos, com as andorinhas, com o próprio homem sentado na sua cadeira de balanço. Só o cachorro não via isso. Olhos fechados, simplesmente sentia os raios de sol no seu pelo, e o medo do frio que vem com a noite.
Morreu sem muito alarde. O Sol se pôs, as andorinhas voaram, não se sabe para onde, não existiam mais sombras, apenas a noite escura e fria. Nunca mais ia ficar a tarde ali na frente da velha casa. Dessa vez o Sol se pôs de verdade.
O homem se levantou da cadeira como se já soubesse que o cachorro tinha morrido, ergueu ele nos braços e o levou para dentro de casa, logo ele ia estar em um lugar quente, onde seus ossos não iam mais doer por causa do frio.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pulp Literature #2

Acordei no chão, completamente nu. Já havia me acostumado a dores nas costas, meus hábitos não eram dos mais sadios, causavam torcicolo com freqüência. Uma grande mancha roxa estava no meu braço direito, perto do ombro. Um copo caíra no chão e se quebrara, diversos cacos de vidro se espalharam, alguns me cortaram, mas nada muito profundo, apenas algumas gotas de sangue no piso branco da cozinha. A cabeça também dói, mas não foi uma pancada. A toalha, também branca e também com algumas gotas de sangue em si está estendida. Ninguém deve ter me ouvido cair, e se ouviram sem dúvida pensaram que era outra coisa qualquer. Agora já começava a escurecer. Por sorte não estava com os óculos. Se bem que quase nunca estava com eles. Mas fui até o meu quanto e os coloquei, para poder pegar todos os cacos de vidro.

Depois de catados os cacos me sentei numa das pequenas cadeiras metálicas. Os últimos dias haviam sido tão estranhos. Não completamente desagradáveis, mas ainda assim estranhos. Aquela queda provavelmente queria dizer que eu não tinha vocação para Buda. Fui para a cama devagar, ainda um pouco tonto. Nem percebi quando adormeci. Quando acordei já era noite, e estava tudo um tanto silencioso, mas por ali as coisas sempre eram silenciosas, ou será que as pessoas ficam tão habituadas com os sons da cidade que depois de um tempo simplesmente não conseguem mais reconhecer o que é silêncio de verdade? Havia escolhido aquela casa exatamente por que era mais silenciosa que a minha anterior, e menor, alguém como eu não tem necessidade de casas muito grandes, isso quando precisamos de uma casa fixa. Não me importei em ver a hora. simplesmente vesti uma roupa qualquer e saí. Poderiam ser nove da noite ou três da manhã, mas não fazia tanta diferença. Ali perto havia uma pequena loja 24hrs. A loja estava vazia, apenas a atendente lia uma revista televisiva atrás do balcão. Parecia cansada, mas todas as pessoas que trabalham me parecem cansadas, ou melhor, todas as pessoas me parecem cansadas quando olho para elas, até eu mesmo. Por isso não tenho espelhos em casa. Uma coisa a menos para ser quebrada acidentalmente. Comprei vário tipos de comida de fácil preparo, por mais que não goste delas. Também alguns copos descartáveis.

A moça no balcão sorriu para mim. Tempos atrás teria visto aquilo com outros olhos, agora sabia que aquilo não queria dizer nada, só um ato um tanto mecânico. Era uma boa atendente. Mesmo sem espelhos em casa sabia que minha aparência devia estar extremamente maltratada, especialmente se alguns cacos de vidros tivessem atingido meu rosto.

Ao chegar em casa preparei alguma coisa, não sei realmente o que, não estava pensando nisso, e comi. Provavelmente isso ia me impedir de cair pelos cantos, ao menos nos próximos tempos. É estranho como esse senso de sobrevivência funciona. É como se fome, sede e atração funcionassem como um piloto automático, só não dão resultados quando são impedidos de funcionar, ou desligados, permanentemente. Voltei para a cama. e peguei a carta que estava ali no chão ao lado dela. Algumas pessoas realmente desligam o programa.


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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pulp Literature #1

toilers_of_the_sea_02 Palavras são tudo. Tudo aquilo que existe e que não existe, tudo aquilo que cria e é criado, destrói ou é destruído. As palavras são tudo,  e quando digo palavras não estou querendo dizer o som delas sendo faladas ou a tinta delas escritas, mas elas em si. Existe um teoria de que se fossemos dividindo todas as coisas em suas partículas fundamentais, reduzindo os átomos a elétrons, prótons e nêutrons, e esses em partículas sub-atômicas, como quarks, chegaríamos num ponto em que descobriríamos que toda a matéria – e também a energia – é constituída simplesmente de informação. E é isso que as palavras são, elas são a informação em sua forma mais misteriosa e perfeita. Existem também aqueles que tendem a relegar aos números uma importância maior, os pitagóricos já diziam que todo o universo pode ser entendido por números. Talvez eles estejam certos quando dizem que os números explicam, mas são as palavras que criam. E é exatamente isso que elas fazem, as palavras são invencíveis e indestrutíveis, elas são a força criadora, mesmo quando agem através da destruição. Não se pode matar uma palavra, elas podem ser esquecidas, podem ceder lugar a palavras novas, podem até mesmo não significar nada – coisa que facilmente deixaria qualquer número, mesmo o mais tímido zero, indignado – mas são as palavras que carregam em si o poder de alimentar esperanças e quebrar corações. 

***

Ele ainda não tinha contado para a mulher, mas ia morrer. O médico não lhe dera falsas esperanças: “Se formos muito otimistas, seis meses, mas o mais provável é que não passa da metade disso”. Na verdade isso não o surpreendera, as últimas semanas haviam sido de dor excruciante, com dezenas de exames que não descobriram o que o afligia, quando descobriram já era tarde demais, mas pelo menos agora a dor havia sumido, provavelmente graças à morfina. A esposa achava que ele já estava se recuperando. Se fosse mais jovem provavelmente ia usar essa situação como desculpa para fazer centenas de coisas que nunca fizera, mas agora, já perto dos seus noventa anos, não conseguia mais pensar assim, talvez porque não quisesse realmente fazer nada mais além daquilo que já tinha feito, ou talvez simplesmente porque os impulsos da juventude haviam passado a muitos anos e não conseguia mais ver como divertida uma coisa apenas porque nunca a tinha feito. A mulher o olhou interrogativamente enquanto enchia a xícara, estavam no café da manhã. Ele não podia dizer que a vida fora fácil, isso seria uma grade hipocrisia, nunca tivera um emprego fixo, fora pedreiro, caminhoneiro, até mesmo chegara a trabalhar como carregador em um porto, na época em que eles funcionavam de uma forma muito diferente, se aposentara quando não tinha mais condições de continuar com trabalhos como esse, vivia da ajuda dos filhos, tivera com sua mulher dois filhos e duas filhas, o filho mais novo morrera, assassinado, fora um grande choque para toda a família, desde que descobrira que estava à beira da morte pensara muito no filho morto. Tivera também um filho fora do casamento, não fazia idéia da vida que ele poderia estar levando, se é que ainda estava vivo, podia muito bem já ter morrido de velhice, já que nascera quando ele ainda era muita jovem, antes mesmo de conhecer a esposa. A vida conjugal em si também não fora nenhum mar de rosas, mas na verdade nunca é, não é mesmo? Desde que se aposentara a mulher decidira que era hora dele retornar todo o trabalho que ela tinha tido com a casa ao longo dos anos, por isso a aproximadamente três décadas ela não fazia nada, toda a tarefa doméstica era função dele, ele na verdade não se importava muito com isso, se não tivesse essas atividades provavelmente se entediaria, mas agora se preocupava em como a esposa iria sobreviver depois que ele morresse, os filhos não tinham realmente muita paciência, eles tinham as próprias vidas para levar, não é certo que os pais queiram ser um fardo assim tão pesado para os filhos apenas por que estão envelhecendo. A mulher não o amava a anos, e talvez ele também não pudesse mais dizer que a amava, eles apenas suportavam aquela pessoa com a qual tinham aprendido a viver por mais de cinqüenta anos. Mas apesar disso ele não imaginava sua vida longe dela, em algum ponto de suas vidas os dois haviam se amado, se é verdade que hoje brigavam a ponto dele não duvidar que ela de certa forma desejava que ele morresse, também é verdade que se entendiam, e que a companhia que faziam um para o outro era – ao menos para ele – uma das poucas coisas que ainda podiam fazer com que a vida valesse a pena mesmo depois dos noventa anos, mesmo depois de ver os seus netos crescidos. Foi naquele café da manhã que percebeu como queria viver os dias que lhe restavam. Ao contrário do que esperava, não iria fazer nada demais, iria continuar a levar a vida como já vinha levando a alguns anos, só que agora com a ajuda de um pouco de morfina de vez em quando. Depois de decidir isso ainda pensou em voltar atrás, “existem tantas coisas para serem feitas, por que desperdiçar o pouco tempo que me resta?” mas na verdade nem sabia como fazer isso, nunca iria se decidir sobre o que gostaria de fazer além daquilo que normalmente fazia. Pensou em escrever um livro, mas não, não lia nada a mais de uma década, nunca fora muito próximo das palavras, ou de qualquer arte. Pensou em rever os amigos de longa data, até mesmo tentou contatar os que acreditava ainda estarem vivos, não estavam, exceto um, mas esse sequer lembrou dele pelo telefone, ele suspeitou que aquele não deveria lembrar mais de nada, não conseguia realmente formar frases que fizessem muito sentido. Talvez isso seja uma daquelas coisas que vêm com a idade, ele mesmo se desacostumara a falar, quando pronunciava alguma palavra se assustava com o ruído cavernoso que saía de sua boca, de sua garganta velha e seca. Se pudesse, naquele momento, teria escolhido morrer antes, quando ainda amava a mulher e quando os amigos eram em sua cabeça pessoas sorridentes, e não com aquele ar solene que todos inevitavelmente tem ao serem colocados em seus caixões. Continuou com sua vida normal, por escolha própria mais do que por falta de opção, por coragem mais do que por medo. Viveu ainda quatro meses, deixou para trás uma mulher em lágrimas – que morreria não mais que um ano depois – e partiu desse mundo num belo e brilhante caixão preto.

***

Lá estava ela sentada frente-a-frente com ele. Ele podia dizer pelo olhar dela como a expressão no rosto dele deveria ser de total embasbacamento. Os olhos caíram no grande estojo que ela colocara ao lado dela. Ele não tinha mais nada que pudesse perguntar:

- Isso é um violoncelo?

Ela riu. Era uma risada bonita, alegre, mas combinada com os olhos dela não podia deixar de ser um pouco suja. Ele duvidava que a irmã risse daquele jeito. Ela vestia uma camisa xadrez, parecia muito jovem, bem mais jovem do que a irmã dissera que era. Mas ele tinha certeza que essa era a pessoa certa, era a pessoa que estava procurando. Não tinha muito porque se preocupar então, não é? Afinal, isso só estava acelerando seu trabalho, de alguma forma. Mas então ela começou a falar e ele começou a se envolver. Falaram de música, do violoncelo e depois de generos musicais que não costumam usar esse instrumento, depois dança, depois teatro, depois cinema e então literatura, na progressão que se espera para esse tipo de conversa. Pularam as artes plásticas, a filosofia e a política, não são realmente os melhores assuntos para se discutir naquela situação, no lugar disso falaram de cozinha, acabaram comendo comida japonesa juntos. Ela realmente não parecia estar com a menor pressa, e ele se sentiu surpreendentemente confortável com isso. Depois de jantarem ela deu para ele o número de telefone, sem que ele sequer precisasse pedí-lo. No fim da noite ele sabia quais os filmes que ela mais gostava, seus escritores e bandas preferidos, sabia onde ela iria tocar no próximo fim de semana e até mesmo aprendera um ou dois truques para o violoncelo, mas não fizera nenhuma das perguntas que supostamente havia sido contratado para fazer.

***

Só uma notinha rápida, desculpem os possíveis erros gramaticais nessa postagem, assim como na minha anterior, estou tendo alguns problemas para me adaptar com o Windows Live Writer, apesar disso ele é um programa muito bom para fazer postagens em blogs, fica a dica. Ah, e Feliz Ano Novo para todos, sejam Iridescentes sejam leitores! Até a próxima!


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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Detetive particular

Detective__s_Office_by_etwoo Naquela época do ano o pequeno cubículo ficava muito abafado, apesar de lá fora o tempo não estar tão ruim, afinal, era outono. O ventilador de teto não ajudava de forma alguma, tinha pifado alguns meses atrás, e agora fazia pouco mais do que posar como uma peça de cenário de um filme noir. Ele mesmo era uma figura que não faria feio em um desses filmes. O topete parecido com o que Elvis usara na juventude e a roupa social um pouco surrada, um pouco desleixada, provavelmente de propósito. Não era o tipo de coisa que se descartava completamente quando se conhecia melhor a sua personalidade. Pela janela entrava a luz alaranjada de um daqueles pores-de-sol que só se pode encontrar no outono, e naqueles raros dias em que o céu não está nublado. Dos livros que deixava ali no escritório quase todos eram policiais, achava que eles o ajudavam a entrar no clima. Mas nos últimos tempos havia pouco clima no qual entrar fora dos livros. Se metera naquela profissão por influência do velho, seu avô, que fora um dos grandes detetives particulares no tempo em que isso ainda significava glamour e uma boa dose de casos sérios. Herdara tudo que tinha do velho, até mesmo aquele escritório era o mesmo,  nem sequer se dera ao trabalho de mudar o sobrenome na vidraça depois que ele morrera. Pensou em ligar o rádio, mas era dos antigos, apenas pegava as estações, e nada que tocasse nas estações realmente o agradava nos últimos tempos, seu avô dissera que aconteceu o mesmo com ele quando, nos anos 60, sempre que ligava o aparelho ouvia um britânico gritando alguma coisa que deveria ser música do outro lado do atlântico. Quando ele veio morar com o velho, nos anos noventa, a situação ainda parecia ser a mesma.
Sendo assim é possível imaginar a surpresa dele quando a porta se abriu. Não tinha uma secretária desde que a que era empregada pelo avô se aposentara, alguns anos antes. De fato, ele não sabia exatamente o que fazer quando a jovem de cabelos loiros entrou no escritório, só pode imaginar que se tratava de um engano, ela deveria ter aberto a porta errada, apesar do anúncio na vidraça, no mesmo prédio existiam várias outras salas que serviam de escritórios para advogados, profissionais duvidosos e até mesmo um consultório de dentista. Ela parecia ter um sorriso perfeito, não deveria ser para o dentista. Se olharam nos olhos por alguns segundos, o reflexo do sol impedia que ele discernisse com exatidão a cor dos olhos dela, simplesmente sabia que eram claros. Era bonita, como as mulheres que vinham procurar seu avô nos tempos áureos da profissão. Ele nunca realmente acreditara nas histórias que o velho contava sobre as mulheres estonteantes que lhe traziam casos fascinantes, mas agora começava a achar que não era assim tão impossível.
No dia seguinte lá estava ele no pequeno restaurante de comida japonesa, numa praça bem agradável, comendo um donburi. No seu intimo sabia que os restaurantes haviam escolhido esse nome para não batizar o prato de Gyudon deliberadamente. Embora fossem a mesma coisa, com esse nome podiam enganar mais pessoas. O gosto não era dos melhores, era basicamente comida japonesa para quem não tinha dinheiro para comprar nada melhor. Mas ele não podia reclamar, era bem barato, e se tudo desse certo, comeria bem melhor depois de resolver esse caso.
No momento em que pôs os olhos nela soube que era a pessoa que estava procurando. Tinha semelhanças visíveis com a irmã. Os cabelos eram tanto mais longos e era um pouco mais magra. Era fácil perceber que era a mais nova. Os olhos eram azuis – será que os da mais velha também o eram? – límpidos como um lago do norte, um lago raso. Nisso viu uma diferença, os da outra eram profundos, fáceis de se afogar. Mas aqueles olhos rasos não a tornavam menos interessante, era como se a sua alma estivesse despida, sem medo. Outra coisa lhe chamou a atenção. Nas costas a moça carregava um instrumento musical. O estojo era pequeno demais para ser um contrabaixo acústico – ele tinha até mesmo dúvidas se aquela pequena criatura conseguiria carregar um – então provavelmente era um violoncelo. Ele estava tão absorto em analisa-la que deixou de lado uma das coisas essenciais quando um detetive está fazendo uma observação – uma campana – ele deixo que ela percebesse o que ele estava fazendo. Quando ela sorriu para ele não teve outra reação se não retribuir. Mas a expressão dela mudou, como se uma interrogação passasse por sua face. Ela se dirigiu até ele, e ele tentou pensar no que dizer quando ela chegasse. Ela puxou uma cadeira e se sentou. Ele não havia conseguido pensar em nada.
***
Eu não costumo dar muito valor a datas comemorativas, mas tenho que admitir que essa época do ano é importante para mim. Pode parecer meio que um clichê, mas é um tempo bom para refletir sobre o que esse ano significou para mim, o que eu aprendi e coisas do tipo. Isso fica bem claro se você considerar que sempre nos fins de ano gravo Cds para as pessoas que considerei mais importantes para mim naquele ano. O valor que relaciono a essa época não esta relacionado ao natal ou mesmo ao ano novo, mas sim ao fim do ano em si, por isso costuma começar lá pela metade de novembro e acabar em algum momento das férias no qual esteja distraído demais com leituras divertidas e coisas do gênero para me preocupar com repensar as lições que aprendi. Acho que a lição mais importante que levo desse ano se relaciona a pessoas, mas não posso dizer com certeza que foi um aprendizado completamente positivo, em parte foi, sem dúvida, mas acho que acabei exagerando um pouco demais, como é do meu feitio, vocês bem devem saber. Até o começo desse ano eu era muito dependente de pessoas, na forma mais geral possível do termo. Era com elas que eu aprendia tudo, e com elas eu me divertia. Posso dizer sem muito risco que grande parte do meu dia-a-dia dependia de outras pessoas, até mesmo da aceitação delas, especialmente daquelas com as quais eu simpatizava. Eu valorizava aquilo que os outros iriam pensar muito mais do que aquilo que eu pensava. Isso me causava problemas, e desconforto, insatisfação. Alguns anos antes haviam me dito que eu não ligava para o sentimento das pessoas, o que até podia ser verdade, mas eu gostava das pessoas, como entidade abstrata que representa a humanidade pelo menos, então passei de um extremo para o outro.
Mas aí a situação fica curiosa. Apesar de tudo eu em momento nenhum deixara de ter pensamentos próprios, uma visão de mundo pessoal, já que, como muitos de vocês devem saber, eu acho que todos temos a capacidade de pensar por si mesmo, criar coisas pessoais. Pode parecer um pouco contraditório, mas não é tanto assim, muitas pessoas fazem isso. Mas acho que conforme fui, nesse ano, sendo obrigado a explicar muitas coisas nas quais acredito, desenvolveu-se em paralelo um processo no qual o carinho que tinha pelas pessoas foi diminuindo. Mesmo hoje não penso que eu sou o dono da verdade e que todas as outras pessoas estão erradas, até porque a minha filosofia de vida se baseia na crença de que eu estou fundamentalmente errado, buscando coisas impossíveis, mas que valem a pena ser buscadas, mas isso fica para outra oportunidade. Mas, ainda assim foi aumentando em mim a sensação de que todas as pessoas tem um potencial incrível para a idiotice, e para me deixar desconfortável. Recentemente, ao conversar com amigos muito queridos senti esse desconforto, e isso me alarmou bastante. Não sinto remorso algum ao constatar que uma boa quantidade de pessoas simplesmente não me faz bem, não vale o meu tempo nem o meu esforço para construir uma amizade, mas é um tanto doloroso que aquelas com as quais a amizade já está fortemente consolidada sofram com respingos de antipatia direcionados a outras pessoas. É nesse ponto que entra o tal “contrato social” que um amigo(?) gosta tanto de citar. Eu não nego a existência desse “pacto” mas para mim a natureza dele é completamente diferente da que parece ser para ele. Esse “contrato”, na minha concepção, divide as pessoas em dois grupos: aqueles que “valem a pena”, com os quais é possível se formar uma amizade verdadeira e, por isso, deve tornar as pessoas mais próximas, afinal, se sou amigo de alguém posso falar com essa pessoa sobre o que bem entender, de forma franca e leve; e as pessoas que “não valem a pena”, e essas são aquelas quais, pelo menos atualmente, eu pouco me importo com o que pensam de mim, e sem dúvida é a grande maioria das pessoas com as quais eu convivo, para com essas pessoas pouca diferença fazem os excessos de cuidado. Eu não estou dizendo que seja impossível que uma pessoa “fora do contrato” entre nele ou que aconteça o contrário, e muito menos que algumas pessoas devem ser tratadas mal, mas simplesmente que nos preocupar demais com o que as pessoas acham de nós costuma não ser algo muito bom, o que nos leva de volta às reflexões de fim de ano. Se durante um ano se vai de um extremo a outro é sinal de que alguma coisa está errada, é exatamente o tempo para repensar as nossa atitudes durante o ano –e tentar encontrar um ponto de equilíbrio - que essa época nos oferece.
***
Você é minha droga. Fico inquieto quando estou em abstinência. Espero por algum sinal – qualquer sinal – enquanto leio páginas e mais páginas de livros, sem realmente prestar atenção nas palavras. Você me transformou, me viciou. Não, não, estou mentindo, já era viciado muito antes, viciado em outras pessoas, outros prazeres. Agora minha santidade me surpreende, minha pureza se conserva em meus olhos vermelhos, enquanto espero através das madrugadas uma visita, algumas poucas palavras. Meu caso, no entanto, nunca antes foi tão grave. Agora me vejo vítima de horas e horas de tédio todos os dias. Minha consideração pela humanidade se resume à minha consideração por você. Preciso de você. Mas meus apelos não fazem diferença, não importa o quanto eu peça, sei que seu espírito não me pertence, sei que não sou eu quem vai definir quando você vai me responder e como será essa resposta. Já esperei por muito tempo, nada me impede de esperar mais, de encontrar outras pessoas, pessoas que jamais vão me saciar, a não ser que ajam exatamente como você. Seria necessário muito tempo para explicar, e sem dúvida você sabe como consigo fazer com que minhas palavras percam o sentido quanto mais eu falo. Você me lê, isso me faz depender de você.
***
Que bom que outras pessoas finalmente estão postando no blog! Espero que nessas férias o movimento aqui pelo Irid’s aumente. E aproveito para desejar a todos um Feliz Natal!

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Don't give up love tonight

Não, eu não sou assim, sei muito bem o que eu quero dela, e o que quero envolve muitos beijos, uma boa dose de gemidos e alguns suspiros.
***
De fato, eu não sou o tipo de pessoa que os outros gostam. Nem sequer tento ser esse tipo de pessoa. Cresci sendo chato e me acostumei bastante bem com isso nos últimos tempos. Muitas das pessoas que me cercam hoje tem dificuldades para lidar com a minha sinceridade, que conservo sem realmente ligar para "contratos sociais" ou para o quão ofendido alguém pode ficar por conta das minhas observações. Essas mesmas pessoas costumam ter problemas com o meu humor, na verdade, nesse caso, não as culpo. Meu humor é uma coisa bem curiosa, que muitas vezes não pode ser entendida, e não consigo explicar sem ficar com a sensação que só devo ter tornado as coisas ainda mais incompreensiveis. Você precisa de um bom tempo convivendo perto de mim para finalmente começar a entender minhas piadas. Mas a maioria não fica por perto por tanto tempo. Não que eu seja anti-social, de forma alguma, a maioria das pessoas até pode gostar de mim inicialmente, mas acho que rapidamente elas ficam ofendidas com alguma pequena besteira que falei, ou por que tentei ser (falsamente) solícito, ou por acharem que é só mais bobagem quando na verdade estou falando algo sério. 
Mais recentemente, porém, descobri outro "problema". Minhas crenças pessoais. Eu reconheço que pode até ser feio ou exagerado da minha parte, mas não consigo ver com bons olhos aquelas pessoas que não pensam por si mesmas nem mesmo nas pequenas coisas. Não que seja errado acreditar naquilo que outros já falaram, mas seguir cegamente algo só por que alguém que você admira falou que as coisas funcionam assim é burrice. Uma burrice tão grande quanto achar que as pessoas não podem ter ideias originais e boas, ninguém precisa fundamentar suas crenças em coisa alguma, não é só por que nenhum filósofo grego está na base da sua filosofia de vida que isso a torna pior que qualquer outra. E tentar humilhar ou denegrir uma filosofia pessoal deveria ser visto como uma ofensa tão grave quanto qualquer tipo de preconceito. E isso por que nem comecei a falar de fé.
Mesmo que todas essas barreiras sejam transpostas aparece mais uma: Eu simplesmente não sou uma pessoa de convívio fácil. Posso ter conversas metafísicas por horas, mas pouca coisa além disso e de algumas bem mais curtas sobre coisas das quais gosto. O resto do tempo é de uma falta de habilidade expressiva para lidar com pessoas reais, talvez por isso a fuga para personagens ficcionais. Talvez por isso tento conhecer o máximo das pessoas com algumas poucas trocas de olhares e palavras, tento chegar ao mais fundo de suas almas antes que elas se tornem inacessíveis para mim, talvez por isso me apaixone pelos pequenos detalhes de suas personalidades; simplesmente para transformar essas pessoas em música e em personagens. Mas chega de desabafos por hoje.
***
- Sabe, eu não acredito em nada disso. Essas coisas nunca acabam bem, não existe isso de final feliz.
Por mais que eu soubesse que ela não acreditava em finais felizes aquilo me surpreendeu um pouco, talvez por que para mim aquilo era algo duro demais para se dizer, eu nunca perdera a esperança de que por mais complicado que fossem as coisas iam dar certo no final.
Eu vivia recebendo meus amigos em casa, era quase como Friends, eles iam e vinham sempre, e eu sempre tinha um bule de café esperando por eles. Não era raro que todos nós oito nos encontrassemos ali na minha casa, as portas estavam sempre abertas, mas hoje éramos só eu e ela. Os outros chegariam mais tarde, sem dúvida, afinal ela viera muito cedo, me fez levantar da cama. e também não era a primeira vez que acontecia, embora fosse a primeira vez com ela. Eu sempre me dispunha a ouvir o que eles tinham para dizer, e sempre que vinham cedo como ela estava fazendo era por que tinham algo importante para desabafar. 
Ela era uma das minhas amigas mais estáveis, nunca imaginaria que um dia ela também iria precisar de uma xícara de café assim tão cedo. Mas o problema não era com ela mesma, mas sim com uma amiga em comum, uma das que certamente passariam pela minha casa mais tarde naquele dia. Elas eram muito próximas e a que estava aqui agora se preocupava que a outra iria se machucar.
- Talvez você esteja certa, talvez não dê para conseguir um final feliz, mas também não vale a pena se preocupar com isso, você é uma daquelas pessoas que adora aproveitar o momento, talvez ela se machuque, mas não somos nós que devemos querer mudar o que ela pensa, como ela age. Se for pra sofrer, que sofra, nós dois sabemos que as vezes isso é necessário, que as vezes um sorriso e cinco minutos de liberdade fazem com que tudo valha a pena. Por que começar a se preocupar com isso agora?
- Talvez estejamos ficando velhos demais pra essas coisas, talvez esteja chegando a hora de nos acalmarmos.
Depois dessa nós dois rimos, sabiamos que aquilo era uma mentira, pelo menos parcial, que nunca nos aquietariamos, mas no fim das contas aquela conversa não mudou nada na vida de ninguém.
***
Maybe I wasn't right
N' things might not be good
But I won't give up love tonight
Don't be rude as I try to be nice
Don't try to lose
While I try hard to find
Love for more than a night
Please love me madly
'Coz I want you badly
And I won't give up love tonight
Don't you give up love tonight

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sábado, 20 de novembro de 2010

Feijoada Búlgara (Ou algumas razões e dúvidas)


Alguns meses atrás, em uma conversa com uma amiga que sabe que minhas intenções literárias são prioritárias a outras no que se refere a carreira ela me disse que eu não tinha nenhum dos três vícios do escritor. Bebida, cigarro e café. Isso ficou um pouco na minha cabeça, não concordo que os vícios de escritor sejam esses – cadê o sexo e as drogas? – mas tudo bem, vamos considerar que sejam esses. Já a alguns anos um amigo, com o qual eu não falo a algum tempo na verdade, havia me desafiado a encontrar um escritor do qual eu goste que não seja, nas palavras dele, um bêbado, e nisso enquadrando esses vícios anteriores. Na verdade é bem difícil encontrar um que não bebesse, mesmo entre os clássicos, de forma alguma. Entre os mais recentes é um trabalho um tanto difícil encontrar algum que não bebesse morbidamente. E de fato eu não bebo, não muito, não com muita freqüência, não gosto de beber, do gosto da coisa em si. Esse amigo sempre usou isso como argumento para justificar por que eu nunca seria um bom escritor, nunca conseguiria fugir dos meus temas-padrão.
Então vem o cigarro. Esse é complicado.  Eu tenho plena consciência que seria hoje um fumante, se não por outro motivo, pela estética da coisa, pelo ar cool e noir que o cigarro pode dar a uma pessoa. E eu sempre gostei de filmes noir. Mas isso não aconteceu, e eu realmente não creio que vá acontecer. Não é mistério nenhum que quando tinha 11 anos meu pai morreu vitima de um câncer, causado pelo consumo excessivo de cigarro. Então prometi para mim mesmo que não ia fumar. Até agora tenho sido muito bom em manter promessas, não pretendo começar quebrando logo essa. Todos os meus amigos que poderiam me influenciar para fazer isso em um momento mais crítico – e eu tenho esses de vez em quando – sabem dessa história e decidiram me apoiar, então acho que estou bem, for the time being.
E, finalmente, o café. Na época que me classificaram fora desses vícios realmente não tomava café. Hoje todos os dias – ou noites – ele está lá, numa xicrinha. Tudo começou quando decidi parar de beber refrigerantes. Não por um motivo especial, talvez só estivesse procurando uma pequena mudança nesses dias que parecem tão esquisitos dentro de um daqueles globos com paisagens congeladas dentro, e neve. Ou talvez porque na minha cabeça já consumi refrigerante suficiente para derreter meus ossos, de fato eles não estão muito bem nos últimos tempos. Mas o ponto é que substituí o refrigerante pelo café. Quando contei isso para alguns amigos mais antigos eles não puderam deixar de comentar que não esperavam menos de mim, não posso diminuir meus vícios, apenas substituí-los. Afinal de contas, sou uma pessoa de vícios – por mais que não aqueles lá em cima – e manias, outro ponto muito curioso da minha personalidade. Fico muito chateado quando confundem minhas manias com algum tipo de organização ou método. Elas não fazem lógica, eu faço porque sinto que tenho que fazer, só isso.
E agora que o objetivo que tinha em mente quando comecei esse texto já foi completamente pelos ares, vou aproveitar para falar um pouquinho de outra coisa que me incomoda muito, a idéia que as pessoas costumam ter de ironia. Talvez a culpa seja do humor inglês, que costuma não só ser irônico como juntar a isso o sarcasmo. Quando você usa de ironia numa frase você não precisa estar querendo dizer o contrário do que de fato diz – ficou confuso? – mas apenas dizer algo diferente, no meu caso algo diferente no sentido moral, na maioria das vezes. A idéia é que quando se usa ironia não é necessária a descrença naquilo que se diz, pelo contrário, em muitos casos a ironia pode e deve ser usada para ressaltar um discurso, relacionando-o a um contexto diferente, a paradigmas diferentes, ou simplesmente para incitar no interlocutor – detesto essa palavra – um pensamento crítico. Ironia é basicamente um comentário sagaz sobre algo. Ironia é uma forma de fazer as pessoas pensarem através da destruição dos conceitos pré-estabelecidos que elas possam ter. Se alguém não quer olhar pela janela e ver os campos verdejantes lá fora a ironia chega e derruba as paredes, assim a pessoa não vai poder evitar ver, ou melhor, só não verá se for cega. E essa cegueira foi um comentário irônico.
Digo isso porque as pessoas costumam ter dificuldade para entender muitos dos comentários que faço, não que todos eles tenham sentido, a maioria não tem e gosto muito deles assim. Mas normalmente é necessário um período de convívio para que as pessoas comecem a entender, a contextualizar, talvez, e ainda assim não consideram isso ironia, a não ser quando acompanhada de sarcasmo. Mas até aí tudo isso pode ser só uma pequena ironia.
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Ele cuidava do pequenino bonsai como se cuidasse de um filho recém-nascido. De fato, desde que se separara dois anos antes e deixara de ver os filhos de verdade poucas coisas realmente recebiam seu afeto. Inicialmente pensara em um cachorro, afinal dizem que é o melhor amigo do homem, mas assim que entrou na pet shop e olhou para aquelas criaturinhas começou a pensar com qual deles as crianças gostariam de  brincar quando viessem visitá-lo, qual seria melhor para a casa pequena, para não atrapalhar os vizinhos. Então lembrou que os filhos não viriam visitar, pelo menos não nos próximos dez anos, até terem idade suficiente para uma viajem internacional sem acompanhantes. Lembrou que o casal de velhinhos do andar abaixo sequer se incomodaria em reclamar, por mais que quisessem, era muito esforço só para se entrar em uma discussão, e não se quer isso depois de uma certa idade, lembrou que o síndico no andar de cima não deixaria de perceber o animalzinho, e que não era muito dado a aceitar esse tipo de coisa no condomínio. Lembrou que ele mesmo não iria querer torturar o cão cortando suas cordas vocais mas também não teria paciência com as coisas que nenhum animal pode evitar fazer. Talvez fosse essa sua falta de paciência que tivesse o colocado na situação na qual se encontrava.
Mas quando viu o bonsai não pensou em nada, não lembrou nada, simplesmente o achou ideal. E não o bonsai de uma forma geral, mas sim aquele bonsai. No começo teve grandes dificuldades, mesmo agora não era um grande artista no que se refere ao tratamento da pequena árvore. Mas lentamente vai evoluindo, vai aperfeiçoando a planta colossal em significado e compacta em espaço. A cada delicada tesourada aparando e ajudando no crescimento se perde em pensamentos que abandona assim que acaba. O bonsai lhe ensinou não só a paciência, ensinou o valor da reflexão e do pensamento, mesmo que insondável, mesmo que inóspito. A planta infecunda colocou naquela cabeça centenas de fantasias e esperanças, expectativas que nunca se confirmariam. O homem, inocente, pensava em como estava melhorando, em como estava evoluindo com o que aquela árvore lhe ensinava. Esqueceu que tudo que tirava dela era esperança, e não sabia que as esperanças são feitas para permanecer na alma, para serem podadas antes que cheguem ao coração.
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- Bom saber que você está feliz, mas por favor tome cuidado, não entre em parafuso. – Foram as palavras que ela disse, feias como foram, e naquele momento percebi que era inevitável, que ia acontecer tudo novamente.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Mais uma gota de veneno - ou As cidades de Calvino


Agora que já quebrei a primeira regra do blog e já consegui um cúmplice, dou mais um passo na minha cruzada para matar o velho Iridescentes. O que acharam do novo layout? Não gostaram? Pois então que façam alguma coisa, reclamem nos comentários, mudem por vocês mesmos, tentem me impedir nesse assassínio. Não gostei muito do resultado final, na verdade, mas foi o melhor que consegui fazer com a pressa que estou no momento.
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Estou lendo – graças ao coleguinha Fábio Andó Filho – o livro Cidades Invisíveis do Ítalo Calvino. A edição é ao mesmo tempo simples e interessante. Sem nenhuma informação e curiosidade, apenas o texto na íntegra, mas numa tradução muito boa, e em capa dura de verdade, não nessas capas duras dobráveis que estão por aí nas bancas. Fazendo um link com um dos meus posts recentes, é um livro que não tem realmente uma estória, é ele todo profundidade filosófica, tendo como pano de fundo as descrições que Marco Polo fazia de cidades ao imperador tártaro Kublai Kahn. Se você não sabe nada sobre o relacionamento dos dois, não é necessário, Calvino explica muito bem que Polo era apenas um dos que estavam trabalhando para o Kahn, e que o refinamento filosófico das descrições do veneziano agradava muito mais ao imperador que as centenas de relatos factuais dos demais inspetores. O livro usa as cidades que Marco Polo descreve ao imperador para estabelecer várias argumentações sobre temas como memória, morte, a importância dos símbolos e nomes, dos desejos. Cada um dos nove capítulos se subdivide em outros menores, cada um dedicado a explorar um aspecto de um tema, e a forma que esses temas se colocam dispersos pelo livro não chega a ser de modo algum ilógica, muito pelo contrario, parece mostrar como esses temas estão interligados no âmbito humano – as cidades invisíveis e muitas vezes impossíveis de Marco Polo. Cada subcapítulo, normalmente com cerca de uma página, possibilita uma reflexão, que acredito variar bastante de pessoa para pessoa. Talvez algumas páginas não te façam parar por alguns minutos, mas essas provavelmente são páginas que vão servir para outras pessoas, e as que te fizerem parar não necessariamente vão te dar uma nova compreensão sobre o mundo, mas vão mudar um pouquinho a que você já tem, vão ao menos te fazer pensar sobre aquilo, e pensar sobre aquilo é o que cria possibilidades, é o que te faz ver como as vezes não é preciso pensar, já pensou demais, já tem sua opinião formada, agora é só sentir, agora é só se perder pelas ruas, pelos mistérios dessas cidades invisíveis que somos nós, que carregamos dentro de nós.
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O que aconteceu naquele dia? Nada demais, alguém morreu, alguém sorriu, alguém amou. Andou no frio e deixou a imaginação levar para aquele lugar onde as pernas nunca conseguiriam. Olhos e casaco fechados. Quando se deu conta estava perdido. Isso nunca teria acontecido se nunca tivesse se dado conta de algo.

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Feijoada Búlgara (Ou quatro textos e um link)

Acordou pela terceira vez na mesma noite.
Os sonhos não atrapalham, mas são difíceis,
As vezes nos fazem querer desistir de dormir,
As vezes não temos motivos pra insistir,
Tentar voltar para um sonho que já foi
Só porque parecia real, talvez até mais
Que as coisas que quando dormimos
Tentamos deixar para trás.
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Antes de vir para São Paulo ouvir Radiohead sempre foi uma experiência estranha para mim. Talvez eu já tenha escrito isso antes em algum lugar, ou talvez já tenha comentado isso com alguém, o tema me parece familiar, mas hoje definitivamente tenho de escrever sobre ele. Por quê? Bem, posso começar dizendo que normalmente só escuto Radiohead quando até mesmo Joy Division está me parecendo uma banda feliz demais, não me pergunte o motivo disso, mas me parece mais apropriado, assim como Maroon 5 é eficaz para quando sua vida amorosa vai à sarjeta – o que me dá bastante medo de dizer, afinal o Last.FM constatou que essa é a banda que mais escuto. Mas, hoje, ou melhor, nos últimos dias, me veio uma vontadezinha de escutar Thom Yorke e companhia mesmo estando muito bem, obrigado. Na verdade, desde que cheguei aqui em São Paulo Radiohead ganhou uma nova profundidade para mim, não faz muito sentido escutar a música deles em uma cidadezinha quente e ensolarada no meio do nada, o mundo parece muito afável para te permitir ouvir Radiohead do jeito certo. É claro que lá eu já podia fazer isso, e já gostava de muitas músicas da banda, como Creep, Stop Whispering e There There; mas quando chega um dia nublado numa cidade grande, com o frio tentando entrar em você por baixo das suas unhas, uma nova dimensão se abre para você, seja ouvindo no seu mp3 enquanto se apóia no alumínio gelado do metrô, que aparente mente esvazia para que você possa ouvir All I Need, ou quando você chega em casa depois de um dia cansativo, coloca o OK Computer para tocar e deita na cama, pensando na vida. Só nessas situações é realmente possível entender o que eles querem te dizer não só com aquelas letras incongruentes com um dia de Sol na beira do rio, mas também com aqueles sons tão alienígenas que você pensava que nunca iria escutar até chegar em algum ponto da Avenida Paulista e dar uma de August Rush. Se já me chamaram de whining quando falei do Morrissey, imagina o que vão falar agora, mas isso não vai tirar da minha cabeça aquela voz estranha cantando: Anyoooone caaan plaaay guitaaaaaarrrr!!!
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Esse Blog está muito parado. Difícil imaginar que quando estávamos planejando como escrever isso em grupo, criando algumas normas de boa convivência chegamos a pensar que seria tão prolífico a ponto de restringirmos o número de posts diários e coisas do gênero. Temos muitas pessoas dispostas a falar muitas coisas, mas elas parecem não ter se interessando, parecem ter se decepcionado com o formato do Blog ou algo assim. Talvez estejam com muitas coisas pra fazer ou tenham esquecido o Iridescentes, difícil dizer, provavelmente só continuo aqui porque é difícil impedir que meus dedos fiquem apertando os tipos do teclado.
Ou Talvez as pessoas só sejam mais vazias do que eu imaginava, talvez não tenham nada para dizer, e não queiram nem mesmo ler. Pretty unlikely, but still. Por isso proponho-me aqui a algo ousado. O blog está moribundo, então irei matando-o aos poucos, com posts como esse. Se não quiserem isso, escrevam, me impeçam. Começo quebrando a regra dos dois posts por dia. O último que publiquei foi pouco após desse dia começar, meia-noite e pouquinho, espero publicar esse antes que a nova meia noite passe.
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Pode ter sido apenas um “oi!”, é bem verdade, mas, pelos poucos segundos que nossos olhos se fixaram uns nos outros, posso afirmar que o fizeram de uma forma que nunca havia imaginado que fosse possível, de uma forma que nunca acreditei que fosse conseguir fitar aqueles olhos. Agora não saem da minha cabeça. Como vou poder não tremer da próxima vez que for cumprimentá-los? Como vou poder não me perder da próxima vez que entabulemos uma conversa casual, tão casual quanto a última? Onde estarão minha ancora e meu colete salva-vidas?
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Deixo com vocês um link para um dos meus poemas preferidos, precisam vê-lo recitado no filme “Four weddings and a funeral”: http://www.davidpbrown.co.uk/poetry/wystan-hugh-auden.html

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Feijoada Búlgara (Ou dialogos)

Os dois estão olhando para o teto, deitados e cobertos numa grande cama. Grande o suficiente para que sequer toquem um ao outro levemente. Nenhum dos dois parece particularmente cansado, e a única iluminação é a dos abajures, um de cada lado da cama. Estão conversando já a bastante tempo, e é como uma conversa qualquer, nem mesmo se olham nos olhos, trivialidades. Podemos apenas imaginar o que aconteceu antes, quando chegamos pegamos apenas o fim de uma da frase:
-... por isso não quero viver por muito tempo. – ele disse, e, sem saber o que falou antes disso não podemos contextualizar a frase muito bem.
- mas hoje em dia isso não quer dizer muito, não importa o quão velho você fique, sempre existirá a possibilidade se ser saudável se você se cuidar, são grandes as chances de se continuar lúcido, principalmente alguém como você, lendo livros, escrevendo e fazendo palavras cruzadas. Até mesmo a aparência não vai ser um problema, quando ficarmos velhos ninguém vai conseguir imaginar qual a nossa idade de verdade. Você vê os velhinhos hoje e consegue sentir como eles são jovens por dentro, logo eles vão conseguir ser jovens por fora também, e tudo isso não vai fazer mais tanta diferença.  – esse não era realmente o tipo de coisa que ela costumava falar, mas o fato de apagar o abajur que estava do lado dela da cama deve dizer algo sobre isso.
- não importa o quão bem eu pareça por fora, ou o quão jovem eu tente parecer quando estiver conversando com alguém. Isso não vai mudar o fato que eu já vou ter feito muitos amigos, aproveitado muito tempo com eles, que eu já vou ter enterrado muitas das pessoas que amei, já vou ter sorrido muito com você e que já vou ter aprendido muito, a duras penas, com o mundo. Já vai ter passado o tempo de segurar crianças no colo ou trocar fraldas. Já vai ter passado o tempo de ganhar dinheiro, e vai ter acabado o impulso que podia fazer com que eu o gastasse bem. Já vai ter passado o tempo em que coisas delicadas me maravilhavam e o tempo em que nada me maravilhava, vou ficar encantado com tudo só para não me deixar cair na apatia. A idade vai fazer com que eu precise de remédios antes de te levar para a cama, e vai fazer com que não nos amemos mais por prazer mas simplesmente porque é isso que fazemos a anos. Envelhecer só vai me deixar mais ranzinza ou bobo, vai me fazer ter medo de tomar banho de chuva e dizer para que as pessoas não saiam de casa sem agasalho, afinal elas podem pegar um resfriado. Envelhecer só vai fazer com que todas as vezes que eu olhe para o mundo não me surpreenda, não de uma forma boa pelo menos, simplesmente vou olhar para como as coisas estão e pensar em como elas eram melhores quando eu era jovem. A velhice só vai me dar tempo para pensar, e você sabe como eu detesto pensar nas coisas, tudo parece tão mais sombrio quando pensamos nisso. – então ele ouviu o leve ressoar dela. Tinha adormecido. Apagou também o seu abajur e a abraçou. Não pode deixar de pensar em como estava ficando velho.
***
Sabe, se tem uma coisa que eu realmente gosto nos filmes do Tarantino são os diálogos. Quando gosto de filmes, séries ou mesmo livros, geralmente gosto por causa da estória que eles contam, sem uma estória interessante perdem quase que toda a graça para mim. Tudo o mais é sacrificável em prol de uma boa estória: efeitos especiais, humor, romance e até mesmo profundidade filosófica. Se você tem uma estória boa, me ganha facinho. Mas dizem que toda a regra tem exceção não é mesmo? A minha deve ser Tarantino. Sejamos sinceros, as estórias dele não são lá as mais elaboradas, ou as mais interessantes, por mais que sangue, drogas e sexo em geral facilitem bastante o trabalho. Esse provavelmente deve ser meu problema com Kubrick, metade dos diretores europeus e a quase totalidade dos diretores americanos. Mas, voltando ao ponto, Tarantino me ganha nos diálogos, e geralmente aqueles logo no começo do filme: as conversas estranhamente cativantes no começo de Reservoir Dogs ou Pulp Fiction tanto quanto aquela primeira cena dos Bastardos Inglórios, todos esses diálogos são geniais, e se é verdade que os filmes não se compõem apenas de momentos como esses é mais para não deixá-los na mesmice que por falta de capacidade. Se você prestar bem atenção vai ver que os filmes dele são, como um todo, uma grande conversa com nós que assistimos e nos divertimos. Por isso Kill Bill é o filme que acho mais sem-graça. Ele traz o melhor do diretor, exceto seus diálogos. O visual é interessante, tem bastante galhofa e bastante apelação, como qualquer filme-Tarantino, mas onde está a essência? Onde está o Mr. White para contextualizar o presente com o histórico de um monte de personagens dos quais nem mesmo sabemos os nomes? Onde está Vincent Vega para falar sobre hambúrgueres?
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E foi só um “oi!”, será que posso mesmo chamar isso de conversa?

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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Feijoada búlgara (Ou Concerto em D menor para dois violinos)


Acho que o último texto que escrevi não teve muitos comentários por tocar num assunto que não é sequer polêmico, mas apenas aterrador para a maioria das pessoas. Esse provevelmente é mais acessivel, mas ainda assim fala de algumas coisas complicadas.


*** 

Uma pequena litania. Um pouco maçante, é verdade:
 

Não acredito em política, acredito em loucura.
Não acredito em economia, acredito em ambição.
Não acredito na espada, acredito na caneta.
Não acredito no dinheiro, acredito no papel.
Não acredito em direitos, acredito na liberdade total.
Não acredito na Razão, acredito em mentiras.
Não confio nas religiões, confio na fé.
Não acredito na inocência, acredito na procrastinação do pecado.
Não acredito na perfeição, acredito na beleza da imperfeição.
Não confio nos bons, mas confio todas minhas trinta moedas aos maus.
Não acredito no deus que me impõem, acredito no meu.
Não acredito na Morte, acredito no Céu e Inferno, mesmo que na Terra.
Não acredito nas pessoas que amo, acredito cegamente no meu amor por elas.
Não acredito em somas e divisões, acredito na igualdade pura e inconsequente.
Não confio no poeta, confio na Musa.
Não acredito em poucos, acredito em todos.
Não acredito em muitos, acredito no ninguém.

Não acredito nos sábios, acredito nas árvores.
Não acredito no perigo, acredito no medo.
Não confio na Ordem, prefiro o Caos.
Não acredito em promessas e juras, acredito em olhos e mãos.
Não confio em beijos, confio em carícias.
Não acredito em deveres e métodos, acredito em obesessões e manias.
Não confio na humanidade, acredito nos seres humanos.
Não acredito em Charles Darwin, acredito em Charles Chaplin.
Não confio em você, mas acredito que posso estar errado.
 

***

Estava no metrô quando vi a primeira. Não estava completamente lotado como costuma em vários horários todos os dias, no entanto estavam naquele último vagão pessoas suficientes para que alguns tivessem de ficar de pé. Eu estava sentado, escutava alguma música do primeiro disco da Laura Marling, não me lembro com exatidão qual. Ela estava de pé, apoiada numa das portas. Vestia uma blusa azul, tão azul quanto a sua calça jeans, mas o cachecol – e o guarda-chuva – era verde limão, ou verde cana, não sou tão bom assim em diferenciar tons de cores. Os cabelos eram loiros e curtos, extremamente cacheados, os olhos estavam fechados, nuca saberei qual a cor que tinham. Alguma coisa nela remetia à androgenia dos anjos. De fato, os anjos deveriam ser como ela. Nem um pouco atraente, ao menos não para mim, mas indiscutivelmente angelical, seja por seu gênero ser de difícil percepção para os desatentos – ou não tanto assim, logo que meus olhos caíram sobre ela sabia que era uma mulher – seja na sua solenidade, ar de erudição, até mesmo aquela presumível arrogância que os anjos devem aparentar ao se verem entre os mortais, especialmente no metrô. Ainda assim ela me fez pensar que é daquele jeito que devem ser os anjos. 
Algum tempo depois finalmente cheguei até onde estava indo. Lá encontrei muitas pessoas, mas a minha surpresa foi que alguma daquelas me fizesse continuar a reflexão que começara no metrô; especialmente por ser uma pessoa que vejo com freqüência. Mas diferentes ocasiões nos propiciam diferentes reflexões, por isso talvez as relações entre pessoas dificilmente conservem-se imutáveis por muito tempo. Elas sempre mudam, talvez apenas um pouco, talvez não para melhor ou pior, talvez até imperceptivelmente, mas mudam. A pessoa que encontrava agora, no entanto, não tinha uma aparência que me lembrasse os anjos. Não, de forma alguma. Ela não tinha uma aparência que pudesse ser descrita apenas por palavras como "encantadora", "fabulosa", ou mesmo "charmosa", no entanto "tentadora" também não se adequaria de forma alguma, embora isso fosse parte do que fizesse. Enfim, era impossível definir aquela aparência, exceto, talvez, por diabólica. Não me entenda mal, se você a visse diria que ela tem cara de santa. Mas mesmo que você dissesse isso alguma coisa nessa definição ia te incomodar. Mas os demônios devem ter uma aparência como a dela para que consigam seduzir com mais facilidade, para que consigam convencer-te que está fazendo determinada coisa por vontade própria enquanto na verdade apenas te arrastam para a perdição. E nesse caso a perdição pode ser qualquer coisa. Uma paixão que faça com que seu peito arda, uma nunca antes provada sensação de rejeição a si mesmo, insegurança quanto àquilo em que você acredita ou, o que é pior, a criação de uma consciência ordinária e banal que vai te fazer repensar tudo aquilo pelo que na verdade deveria se orgulhar como "idiotices de um espírito-livre idiota". Mas tal qual mais vil dos demônios ela te joga no mais profundo poço do inferno apenas para depois te tirar de lá, brincar com você, controlando todos os seus devaneios, infiltrando-se nos seus pensamentos. Tão perfeita quanto só os demônios podem ser.

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