domingo, 13 de junho de 2010

Divegações

Lembra quando você, na áurea época que é a infância, perguntava para a mamãe ou para o papai “Que que tem pra comer hoje?”, e ela ou ele te respondia “Hoje tem abobrinha (ou pimentão, ou quiabo, ou ainda o temível jiló)”? E quando, depois de resmungos, ameaças seguidas de choro ou chantagens baratas com sobremesas, você corajosamente enfrentava o que tinha na mesa, e, com um pouco de sorte, até derrubava seus preconceitos com legumes e outros vegetais? Pois é. Essa tela que você vê agora, que de vez em quando faz as vezes de mesa e de janela, é agora uma mesa de discussão, na qual eu ponho o indigesto tema do vegetarianismo (o que não descarta do eventual cardápio as abobrinhas ou amargores, por se tratar de uma discussão apimentada).

Não quero polemizar, apresentar dados numéricos chatos (evitando em especial gráficos e tabelas), falar de vídeos desagradáveis de animais sofrendo ou criticar quem não é vegetariano. Também não é meu objetivo fazer com que alguém se torne vegetariano, ainda que isso me deixasse feliz. Quero apenas defender e discutir sobre meu ponto de vista, já que quase todas as refeições que faço com outras pessoas trazem consigo a pergunta “Mas por que você é vegetariano?”.

Acho que para alguém se tornar vegetariano, deve acontecer uma espécie de “revolução interna”, que pode ter vários motivos. Para mim, o mais importante é o ético. Não consigo comer algo que eu sei (ou imagino) que foi criado (muitas vezes em condições nada agradáveis) só para que eu o comesse, considerando que esse algo sente prazer e dor, e considerando também que existem alternativas viáveis (aliás, mais eficientes nos sentidos econômico e ambiental, além de mais saudáveis se seguidas com o devido cuidado). Pode até parecer um capricho, um fetiche, mas não é nada disso. É um princípio tão forte quanto aquele, mais comum, de não roubar os outros por achar injusto o ato. Imagine-se em uma situação desagradável decorrente da desobediência a uma regra moral sua, na qual você não consegue nem mesmo pensar direito de tão incomodado, e talvez você se aproxime do que eu sinto ao pensar em comer carne. Acredito que para voltar a fazê-lo, só sofrendo uma “révolução interna” bem forte.

Quanto a outras condutas, como usar roupas feitas com animais ou remédios neles testados, eu faço um cálculo, que imagino se passar na cabeça dos demais colegas de opção alimentar. Penso na dor causada e no benefício proporcionado, pesando os dois em uma aritmética as vezes tão inexata quanto a matemática dos amantes. Nas minhas contas, usar um sapato de couro de crocodilo não me proporciona o benefício que compensaria a dor da perda de uma vida, e não acho que o proporcione nem à pessoa que mais gosta desse tipo de calçado. Ainda que talvez dê um incrível prazer, tal qual a mais fantástica picanha, considero que esse prazer é perfeitamente substituível, quando não supérfluo. No caso do remédio, calculo que a quantidade de vidas que uma droga pode salvar provavelmente compense os poucos animais que sofreram em seu desenvolvimento. Dessa forma, não considero que tenha ocorrido um sacrifício banal só para a satisfação de um desejo meu do qual posso abrir mão. Você sacrificaria um humano para salvar outros 1.000?

Por fim, gostaria de dizer que gostaria de conversar sobre o assunto, recomendando aos que gostariam de entendê-lo melhor que leiam uma entrevista com o filósofo Peter Singer (procure no Google, elas existem aos montes). Espero que eu não seja entendido como piegas, sentimental ou hipócrita.


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