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domingo, 27 de junho de 2010
A convivência com a diversidade
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Ode Expiatória
Frente à bandeira norteamericana
É preciso ter força, é preciso ter raça,
É preciso ter Gana!
(Aí...)
À nação dos Ronalds, sempre hegemônica,
A surpresa de outros países dando a tônica
Ao Big Mac, que queria colonizar Acra,
O acre da derrota - com seu molho especial
Porém não é esse o fim, Obama, afinal
Não se vive só de soft power
(Como bem sabia Jack Bauer)
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
Scientia Vinces (I)
A gênese da Universidade de São Paulo, bem como a implantação de boa parte de sua estrutura em um campus estrategicamente distante do centro da cidade de São Paulo, eventos ocorridos em contextos políticos-sociais distintos mas convergentes quanto à crítica importância na realidade brasileira, evidenciam o grande papel social vanguardista que tanto seus docentes quanto discentes exerceram ao longo da história do Brasil. Estandarte do saber em suas mais diversas vertentes, perpassando conhecimentos humanos, exatos, biológicos, interconectando-os em uma complexa teia de interdisciplinaridade, ela constituiu e constitui uma das mais profícuas fontes de recursos humanos e tecnológicos, formando profissionais altamente capacitados, criando contribuições inestimáveis à evolução da ciência e promovendo, constantemente, a comunicação de suas atividades com o meio externo, imiscuindo universidade e comunidade; contribuições essas sintetizadas no tríplice lema do ensino, pesquisa e extensão. Contudo, o vislumbrar das últimas duas décadas tem mostrado triste prospecto, ao menos em seu viés administrativo: à parte das notáveis conquistas intelectuais ali alcançadas, a universidade tem se tornado periodicamente refém inconteste de minorias estudantis e sindicalistas, ansiosas de promoverem politicagens divergentes da proposta evidentemente plural e respeitosa constituinte do âmago universitário. Urge uma minuciosa análise dos motivos, bem como das trágicas conseqüências com as quais o meio universitário arca diante do engessamento de suas principais funções administrativas, sob as frágeis estruturas argumentativas de certos grupos.
É absolutamente inegável o papel fundamental que o mecanismo de greve teve no decorrer de toda a história, especificamente após o advento das revoluções burguesas do fim do século XVIII. A ausência de meios jurídicos, bem como de instrumentos político-legislativos para a regulamentação das relações entre capital e trabalho resultou no absoluto descaso por condições minimamente dignas de exercício remunerado, levando milhões de indivíduos à irremediável miséria – não só monetária, mas fundamentalmente moral –, evidenciando a clara necessidade de uma ação suficientemente coordenada. A greve nasce, dessa forma, como único instrumento eficiente de reivindicação e que, surpreendentemente, obteve sucesso na mobilização da classe trabalhadora e posterior constituição de uma legislação trabalhista que, de forma evidentemente resumida, elenca diversas condições mínimas de dignidade para o exercício humano de uma profissão. Contudo, um passado notavelmente vitorioso não justifica, de maneira alguma, o acobertar de uma realidade cuja patente gravidade se mostra em uma análise necessariamente neutra da presente situação. Concentrar-nos-emos aqui no recorrente esteio fundamental do referido movimento grevista da Universidade de São Paulo: a anual contenda por reajustes salariais, ano após ano vociferada em nome de uma suposta isonomia. A exigência de democracia universitária, polêmica e compartilhada por círculos mais amplos no meio docente e discente, bem como o apoio estudantil a diversas dessas manifestações serão, ambas, objetos de futura análise.
Cabe, nesse contexto, desmistificar o certame salarial que, ano após ano, toma como campo de batalha a Universidade de São Paulo. Segundo dados oficiais e do referente ano, os funcionários não-docentes da instituição dividem-se em três categorias, cada uma com respectivas faixas salariais, a saber: básica (R$1.210,90 e R$2.044), técnica (R$1.789,05 e R$3.569) e superior (R$3.542,20 e R$7.005). É pertinente, aqui, o primeiro comentário, escancarado nos valores supracitados: os salários pagos pela referida instituição estão em níveis incomparavelmente superiores àqueles obtidos na iniciativa privada, colocando por terra a primeira suposição, largamente divulgada, de que os referidos funcionários possuem remuneração parca. Para além do salário nominal, tais indivíduos também têm (de forma indiscutivelmente justa) o direito a uma série de benefícios, como auxílio-alimentação mensal de R$470, auxílio creche mensal (concebido segundo o número de filhos) de R$449,95, auxílio educação-especial no valor de R$449,95, além da ampla gama de serviços providos pela universidade a toda comunidade, como assistência médica e acesso a instalações esportivas. Ambos, salários e benefícios, são reajustados a taxas indiscutivelmente superiores à inflação: a título de exemplo, no período 2007-2010 acumulou-se um processo inflacionário de 16,4%; os reajustes de salário do período, considerando-se a proposta sustentada para o atual ano, de 6,57%, somam 20,3%; no decorrer do período de 2004 a 2010, a inflação de 33,2% foi acompanhada de um aumento no auxílio creche de superiores 49%; no vale refeição de substanciais 127% e, surpreendentemente, no que toca auxílio-alimentação, em um acréscimo da ordem de 213%, variando de R$150,00 para os já citados R$470,00.
A análise concisa e solidamente embasada em referências numéricas imparciais revela a total ausência de razoabilidade no conjunto argumentativo que dá base ao recorrente processo de greve nas dependências da Universidade: os salários e benefícios da referida instituição não só são indubitavelmente correspondentes às obrigações e qualificações de seus funcionários, como também são objeto de reajuste rigorosamente acima da inflação, evidenciando, dessa forma, a transmutação do que seria um esteio para um movimento supostamente legítimo em um insustentável apoio utilizado por elites e minorias sindicais, ciosas de longas paralisações que prejudicam o provimento de serviços fundamentais financiados pelo erário público de forma geral, em mais um clássico exemplo de irresponsável dispêndio de dinheiro advindo de impostos associado à ineficiência administrativa absolutamente endêmica.
Nesse sentido, é infelizmente freqüente na comunidade universitária notar, de forma especial no apoio desmedido e impensado dado por alguns grupos do interior universitário ao movimento, a visão maniqueísta e acobertadora, sempre mais fácil de ser entendida e transmitida: a classe trabalhadora universitária seria mera refém de uma ordem opressiva e construída para destituí-la de seus direitos fundamentais, objetivo comum a quaisquer indivíduos que se atrevam a erguer suas opiniões contrárias à paralisação ou a meramente discuti-la de forma crítica, questionadora e imparcial.
Posicionar, de tal forma automática e impensada, os atores em suas respectivas posições históricas de “oprimidos” e “opressores” não é só uma derrocada das defesas da análise precisa e do entendimento argumentativo: é se entregar a concepções confortavelmente prontas e que, inevitavelmente, nos levarão à traição das divisas fundamentais indelevelmente forjados no brasão da instituição que escolhemos para nos constituirmos enquanto cidadãos cônscios. Que nós vençamos pela ciência.
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Como explicar?
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segunda-feira, 21 de junho de 2010
Feijoada búlgara (ou um minuto de cegueira)
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domingo, 20 de junho de 2010
A síndrome do bom burguês
Estive com o Raúl e mais alguns RIanos na "Assembléia" que teve no prédio da História quinta-feira, cuja pauta era referente à famigerada greve dos funcionários da USP, se os estudantes deveriam aderir a ela. [A princípio, tinha pensado em ir direto ao assunto, mas não resisto a iniciar o texto tecendo uma crítica acerca do modus operandi da "Assembléia".] A bagaça começou com quase uma hora de atraso porque a mesa, composta por membros do DCE, queria estabelecer, por votação direta dos presentes, o tempo disponível aos oradores - os quais seriam sorteados para falar após a sua inscrição - e se estes poderiam concedê-lo a outro se assim o quisessem. A votação mostrou-se um processo primitivo: as quase 300 pessoas que assistiam a "Assembléia" levantaram a mão e foram contadas por uma pessoa x de boa vontade. E para mencionar outros inconvenientes: o prédio da História está longe de ser o mais adequado para essas ocasiões; ele é todo "aberto", o som se propaga para todos os sentidos e a caixa de som em si não ajudava, sem contar o falatório por parte de muitos que ali estavam.
Acho que o fato de haver todo um processo lento e desengonçado antes das "Assembléias", referente ao seu funcionamento, desencoraja quaisquer estudantes que mostrem alguma disposição para se deslocar até o local e participar da coisa política - pensei em vazar na hora, mas como tinha cerveja por 1,50... Por que não criar um modelo fixo de Assembléia, que prescinda dessas formalidades iniciais? Ela não vai deixar de ser menos democrática por isso.
Sobre o que foi dito na "Assembléia", era esperado - pelo menos por mim, calouro ingênuo -, que os dois lados tivessem vez nos discursos, ou seja, que os vermelhinhos (a favor da greve) e os "reaças" (contra) se pronunciassem. No entanto, o que ficou claro é que todos os oradores tendiam à esquerda e defendiam a greve, mas se encontravam divididos [ah, vá...?!] quanto a outras questões. A fala de alguns deles me surpreendeu bastante. O indivíduo y do DCE, que depois eu descobri ser pouco popular entre seus colegas das sociais, poderia mobilizar todos nós e instaurar um regime nazista no Brasil por meio de sua retórica se quisesse; não lembro mais o conteúdo da fala dele, mas foi bastante convincente e me pareceu na hora sensato. Uma oradora conquistou a minha simpatia pelo seu relativo pragmatismo - apesar de ela cursar filosofia -, dizendo que não era contra a greve, mas contra esta ser utilizada como recurso no momento, sem haver uma mobilização geral da USP em prol da causa dos funcionários. O resto tentou nos persuadir dizendo que a universidade já estava mobilizada, que a greve era uma necessidade e um direito conquistado pelos trabalhadores; apelou à nossa consciência, aos valores humanos de compaixão para com o próximo - os funcionários não recebem um reajuste há tanto tempo, tadinhos... - e todo tipo de baboseira. E, acredite, por um momento eu me deixei levar.
Na verdade, essa crise de consciência não foi só na “Assembléia”. A minha dimensão esquerdista chegou a me recriminar algumas vezes por ser contra essa greve, por visar o meu bem-estar em detrimento de uma causa maior, enquanto os servidores reivindicam, através de um meio supostamente legítimo, um "merecido" reajuste salarial. Afinal, eu e muitos outros estudantes que dependemos dos serviços dos funcionários só estamos tendo que fazer caminhadas involuntárias de mais de uma hora ao todo e gastar mais dinheiro e tempo com a nossa alimentação, sem contar custos de outra ordem. Mas isso foi até eu pesquisar mais sobre o assunto e descobrir, mais uma vez, que no mundo real não há espaço para maniqueísmos, que por si só são simplistas - o Rodas pode não ser o mauzinho da história; os funcionários não ganham mal, aliás recebem mais que a média dos funcionários no Brasil; princípios democráticos têm sido proferidos a esmo e de maneira hipócrita nas tentativas de legitimar a greve; há motivos eleitoreiros envolvidos -, e perceber pelas discussões na Internet que de fato é uma minoria na USP que apóia a famigerada e banal greve.
Uma reflexão que faço é que grupos (Sintusp, DCE) ou indivíduos mal intencionados dentro da universidade, geralmente envolvidos com partidos políticos nanicos de extrema esquerda (PSOL, PSTU), tidos como de direita por alguns estudantes da FFLCH [rs], só têm a ganhar com a alienação e a inércia dos estudantes. Normalmente nós ficamos tão presos à vida acadêmica (ou ao nosso umbigo) que nos tornamos alheios aos acontecimentos os quais se dão para além dela, apesar deles terem um impacto direto no nosso cotidiano, e não nos damos conta de que essa greve pode não constituir uma causa maior – como seus partidários gostam de acreditar, porque assim a querem -, mas a de alguns indivíduos, como os clamores nos cartazes colados por toda cidade universitária dão a entender ao fazerem referência à reintegração do companheiro Brandão, em meio a outras reivindicações não concernentes aos funcionários como um todo. Além disso, nós não os vemos se mobilizando em peso na USP (se é que você pode chamar churrascos regados à cerveja de mobilização), o que também sugere que essa causa é de poucos.
Eu queria entender melhor o que leva alguns estudantes a aderirem a movimentos alheios loucamente, mesmo quando eles os prejudicam e representam uma facção de caráter duvidoso, liderada por um comunista trotskista que acredita na implantação do comunismo por meio da violência, ao mesmo tempo que defende o respeito à democracia nos seus discursos. Não sou tão ingênuo; pretensões políticas e de outra natureza (recreativa, por exemplo) constituem motivos fortes. Mas acho que um idealismo genuíno, aliado à síndrome do bom burguês, em alguns casos colabora. Daí tiro outra reflexão, que sintetiza o meu aprendizado: ser a favor de uma causa que te prejudica diretamente não te torna mais honorável ou nobre, mas sim tolo; em outras palavras, quem se anula é otário mesmo, tá cerrrto?
Roger Lai
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sábado, 19 de junho de 2010
Caem as máscaras
“Dissipar a ilusão significa tirar o sentido do drama inteiro. O que prende os olhares dos espectadores é justamente a ficção, o truque. Toda vida humana nada mais é do que um espetáculo em que, um com uma máscara, outro com outra, cada qual recita seu papel para, a um sinal do chefe do coro, sair de cena”
Erasmo de Roterdã
O processo de identificação de estruturas como razões fundamentais para o comportamento humano, muitas vezes sintetizado na visão determinística, estritamente associada ao conceito do ambiente como modelador indiscutível da personalidade humana, ganhou destaque no pensamento sociológico especialmente no fim do século XIX e no decorrer de seu subseqüente. O pensar e o agir do ser humano, muito mais do que manifestações de um suposto livre-arbítrio, estariam de tal forma associadas a contextos externos a eles que mesmo a idéia de liberdade seria constantemente colocada à prova: Até que ponto somos livres? Fazemos nossas próprias escolhas ou apenas confirmamos modelos pré-determinados de acordo com os contextos em que estamos incluídos – quem sabe inevitavelmente submersos?
É certo que a análise histórico-psicológica não nega a influência do meio como fator fundamental na tomada de decisão por parte de diferentes grupos: a paranóia anticomunista materializada no McCartismo, o qual mobilizou a população americana em uma cruzada de perseguição implacável à “ameaça” marxista, exemplifica o quanto a bipolarização político-ideológica do período de Guerra Fria foi capaz de criar um ambiente de pressão psicológica coletiva, onde vizinhos, parentes ou quaisquer outros indivíduos que se mostravam propensos à subversão eram denunciados, investigados e mesmo até compelidos ao suicídio – tudo isso na “terra da liberdade”. Contudo, o pensar deterministicamente, muito mais do que um instrumento para a compreensão pontual de eventos históricos, é constantemente utilizado como esteio fundamental de todo o conjunto de ações perpetradas pelo ser humano, negando-lhe, de certa forma, responsabilidade sobre elas: apóia-se no argumento supostamente absoluto de que o indivíduo foi influenciado por contingências irresistíveis do meio ao qual ele provém ou está inserido, esquecendo-se do quanto temos vontades, medos, ambições, em suma, que somos humanos, movidos por anseios, interesses, paixões próprias. Culpar o meio, seus componentes e características, não é só resultado da vontade de se eximir da culpa, mas também um confortável apoio sob o qual repousamos, por vezes, nossa consciência, certos de encontrar ali consolo para nossas falhas.
Exemplo importante nesse sentido, nossas relações interpessoais e seus aspectos mais escusos já foram, freqüentemente, envoltos por diferentes véus que procuraram, insistentemente, deslocar o foco da culpa para um suposto “sistema”: os alvos favoritos são as exigências de uma sociedade de consumo, a competição desmedida a qual nos é imposta dia após dia e, finalmente, o capitalismo, bode expiatório de todos os flagelos. Olvidamo-nos da nossa responsabilidade indiscutível na gênese de tais fatores de pressão: somos nós os criadores desse meio, desse ambiente que nos oprime em direção a ações de mérito discutível, e é precisamente por essa razão que ele é tão avassaladoramente forte; são elementos internos, intrinsecamente humanos, e não externos, os quais são conseqüências daqueles, que constituem fundamentalmente nossas escolhas, nosso ser e dever-ser.
A carência de transparência e sinceridade em diversas relações humanas, tão agudamente percebida ao longo dos séculos por um sem-número de filósofos, sociólogos e psicólogos, é um modesto mas esclarecedor viés de tal discussão: é freqüente que indivíduos se relacionem de forma diferenciada com distintas pessoas, na medida em que tal relação afeta, de alguma maneira, seus interesses. Dança-se um luxuoso baile de máscaras, em que os participantes, certos de sua esperteza sem igual, escondem suas verdadeiras personalidades por detrás de disfarces cada vez mais sofisticados, justificando-se como atendendo às contingências, novamente irresistíveis, de um meio esmagador e cruel. Monta-se, desfruta-se de uma ficção, mas não por necessidade, senão por vontade: a ilusão é infinitamente mais sedutora que a realidade. Até que as máscaras imiscuem-se cada vez mais com as faces, fundindo-se a elas, perdendo-se a referência, a diferença entre personalidade e máscara, realidade e disfarce. E então, em meio ao farfalhar das fantasias, aos acordes da incansável orquestra e ao brilhar ofuscante do salão, ergue-se uma voz, consciente, consciência, a perguntar: No que nós nos transformamos?
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