domingo, 27 de junho de 2010

A convivência com a diversidade

"Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabeleiro louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e/ou do negro." - Gilberto Freyre

A sociedade brasileira possui como característica marcante uma imensa diversidade cultural. A maneira como ocorreu o nosso processo de colonização levou ao surgimento de um povo riquíssimo etnicamente. São muitas as raças e os credos que compõem a identidade nacional. Porém, muitas vezes, não damos o devido valor à existência dessas diferenças.
Há muito tempo, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, as minorias são vítimas de preconceito. A marginalização dos nordestinos no Sudeste, a segregação que ainda ocorre nas relações entre negros e brancos e o desrespeito à cultura indígena são alguns dos vários exemplos que comprovam a dificuldade do povo brasileiro em lidar com a diversidade.
É verdade que, nos últimos anos, o debate sobre questões polêmicas como, por exemplo, as cotas para índios e negros nas universidades, vem ganhando espaço na mídia, o que reflete uma maior preocupação social em relação ao tema. Por outro lado, movimentos segregacionistas que nos remetem aos tempos do nazismo ainda persistem.
De acordo com a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO, "a diversidade cultural é, para o gênero humano, tão necessária como a diversidade biológica para a natureza". Por isso, devemos cultivar a miscigenação das raças e valorizar as diferenças culturais existentes em nosso país. Esse é, certamente, um grande desafio para todos, mas extremamente necessário para a superação do preconceito.

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Ode Expiatória

Interpolando à seriedade vossa umas parcas linhas carentes de forma & conteúdo, para - e somente para - cumprir uma promessa ébria (crianças, não façam isso em casa!) ao Fábio:


Frente à bandeira norteamericana
É preciso ter força, é preciso ter raça,
É preciso ter Gana!

(Aí...)

À nação dos Ronalds, sempre hegemônica,
A surpresa de outros países dando a tônica
Ao Big Mac, que queria colonizar Acra,
O acre da derrota - com seu molho especial
Porém não é esse o fim, Obama, afinal
Não se vive só de soft power
(Como bem sabia Jack Bauer)



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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Scientia Vinces (I)

"Dizem que a resignação é uma força terrível"
Dostoiévski

A gênese da Universidade de São Paulo, bem como a implantação de boa parte de sua estrutura em um campus estrategicamente distante do centro da cidade de São Paulo, eventos ocorridos em contextos políticos-sociais distintos mas convergentes quanto à crítica importância na realidade brasileira, evidenciam o grande papel social vanguardista que tanto seus docentes quanto discentes exerceram ao longo da história do Brasil. Estandarte do saber em suas mais diversas vertentes, perpassando conhecimentos humanos, exatos, biológicos, interconectando-os em uma complexa teia de interdisciplinaridade, ela constituiu e constitui uma das mais profícuas fontes de recursos humanos e tecnológicos, formando profissionais altamente capacitados, criando contribuições inestimáveis à evolução da ciência e promovendo, constantemente, a comunicação de suas atividades com o meio externo, imiscuindo universidade e comunidade; contribuições essas sintetizadas no tríplice lema do ensino, pesquisa e extensão. Contudo, o vislumbrar das últimas duas décadas tem mostrado triste prospecto, ao menos em seu viés administrativo: à parte das notáveis conquistas intelectuais ali alcançadas, a universidade tem se tornado periodicamente refém inconteste de minorias estudantis e sindicalistas, ansiosas de promoverem politicagens divergentes da proposta evidentemente plural e respeitosa constituinte do âmago universitário. Urge uma minuciosa análise dos motivos, bem como das trágicas conseqüências com as quais o meio universitário arca diante do engessamento de suas principais funções administrativas, sob as frágeis estruturas argumentativas de certos grupos.

É absolutamente inegável o papel fundamental que o mecanismo de greve teve no decorrer de toda a história, especificamente após o advento das revoluções burguesas do fim do século XVIII. A ausência de meios jurídicos, bem como de instrumentos político-legislativos para a regulamentação das relações entre capital e trabalho resultou no absoluto descaso por condições minimamente dignas de exercício remunerado, levando milhões de indivíduos à irremediável miséria – não só monetária, mas fundamentalmente moral –, evidenciando a clara necessidade de uma ação suficientemente coordenada. A greve nasce, dessa forma, como único instrumento eficiente de reivindicação e que, surpreendentemente, obteve sucesso na mobilização da classe trabalhadora e posterior constituição de uma legislação trabalhista que, de forma evidentemente resumida, elenca diversas condições mínimas de dignidade para o exercício humano de uma profissão. Contudo, um passado notavelmente vitorioso não justifica, de maneira alguma, o acobertar de uma realidade cuja patente gravidade se mostra em uma análise necessariamente neutra da presente situação. Concentrar-nos-emos aqui no recorrente esteio fundamental do referido movimento grevista da Universidade de São Paulo: a anual contenda por reajustes salariais, ano após ano vociferada em nome de uma suposta isonomia. A exigência de democracia universitária, polêmica e compartilhada por círculos mais amplos no meio docente e discente, bem como o apoio estudantil a diversas dessas manifestações serão, ambas, objetos de futura análise.

Cabe, nesse contexto, desmistificar o certame salarial que, ano após ano, toma como campo de batalha a Universidade de São Paulo. Segundo dados oficiais e do referente ano, os funcionários não-docentes da instituição dividem-se em três categorias, cada uma com respectivas faixas salariais, a saber: básica (R$1.210,90 e R$2.044), técnica (R$1.789,05 e R$3.569) e superior (R$3.542,20 e R$7.005). É pertinente, aqui, o primeiro comentário, escancarado nos valores supracitados: os salários pagos pela referida instituição estão em níveis incomparavelmente superiores àqueles obtidos na iniciativa privada, colocando por terra a primeira suposição, largamente divulgada, de que os referidos funcionários possuem remuneração parca. Para além do salário nominal, tais indivíduos também têm (de forma indiscutivelmente justa) o direito a uma série de benefícios, como auxílio-alimentação mensal de R$470, auxílio creche mensal (concebido segundo o número de filhos) de R$449,95, auxílio educação-especial no valor de R$449,95, além da ampla gama de serviços providos pela universidade a toda comunidade, como assistência médica e acesso a instalações esportivas. Ambos, salários e benefícios, são reajustados a taxas indiscutivelmente superiores à inflação: a título de exemplo, no período 2007-2010 acumulou-se um processo inflacionário de 16,4%; os reajustes de salário do período, considerando-se a proposta sustentada para o atual ano, de 6,57%, somam 20,3%; no decorrer do período de 2004 a 2010, a inflação de 33,2% foi acompanhada de um aumento no auxílio creche de superiores 49%; no vale refeição de substanciais 127% e, surpreendentemente, no que toca auxílio-alimentação, em um acréscimo da ordem de 213%, variando de R$150,00 para os já citados R$470,00.

A análise concisa e solidamente embasada em referências numéricas imparciais revela a total ausência de razoabilidade no conjunto argumentativo que dá base ao recorrente processo de greve nas dependências da Universidade: os salários e benefícios da referida instituição não só são indubitavelmente correspondentes às obrigações e qualificações de seus funcionários, como também são objeto de reajuste rigorosamente acima da inflação, evidenciando, dessa forma, a transmutação do que seria um esteio para um movimento supostamente legítimo em um insustentável apoio utilizado por elites e minorias sindicais, ciosas de longas paralisações que prejudicam o provimento de serviços fundamentais financiados pelo erário público de forma geral, em mais um clássico exemplo de irresponsável dispêndio de dinheiro advindo de impostos associado à ineficiência administrativa absolutamente endêmica.

Nesse sentido, é infelizmente freqüente na comunidade universitária notar, de forma especial no apoio desmedido e impensado dado por alguns grupos do interior universitário ao movimento, a visão maniqueísta e acobertadora, sempre mais fácil de ser entendida e transmitida: a classe trabalhadora universitária seria mera refém de uma ordem opressiva e construída para destituí-la de seus direitos fundamentais, objetivo comum a quaisquer indivíduos que se atrevam a erguer suas opiniões contrárias à paralisação ou a meramente discuti-la de forma crítica, questionadora e imparcial.

Posicionar, de tal forma automática e impensada, os atores em suas respectivas posições históricas de “oprimidos” e “opressores” não é só uma derrocada das defesas da análise precisa e do entendimento argumentativo: é se entregar a concepções confortavelmente prontas e que, inevitavelmente, nos levarão à traição das divisas fundamentais indelevelmente forjados no brasão da instituição que escolhemos para nos constituirmos enquanto cidadãos cônscios. Que nós vençamos pela ciência.


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Como explicar?

Foi disputado, em três dias, o jogo mais longo da história do tênis. Ele ocorreu no torneio de Wimbledon, no qual não há tie break- o último set teve parciais assombrosas de 70-68. Foram necessárias 11h05, divididas em três dias, para que o jogo acabasse. O confronto teve início na terça-feira e teve de ser paralisado por duas vezes devido à falta de luz natural. Apesar disso, pouca gente fala de tênis. As atenções mundiais, assim como há 4 anos, estão totalmente voltadas para o futebol- qual a magia, então, do futebol? O que move tanta gente em torno de tal esporte? Desde 1930, sem contar 1942 e 1946 quando a Segunda Guerra Mundial impediu sua realização, a Copa do Mundo de Futebol ocorre, a cada 4 anos e durante cerca de um mês, e atrai a atenção do mundo inteiro. Nações inteiras torcendo, sofrendo, chorando ou festejando. Paixão, amor, raça, dor, tristeza e alegria, tudo se mistura quando o assunto é futebol. Como explicar, porém, a magia do esporte, que para alguns não passa de 20 homens correndo atrás de uma bola? Então lhes pergunto, para ficarmos apenas nas Copas do Mundo, como explicar uma seleção mixuruca, como a dos EUA, conquistar um terceiro lugar na primeira Copa- a de 1930? Como explicar a Itália bicampeã com apenas 3 torneios disputados (campeã em 1934 e 1938)? Como explicar a vitória uruguaia em pleno Maracanã, diante de cerca de 200 mil pessoas (sim, naquela época as chamadas “gerais” proporcionavam um espaço muito maior, junto de um desconforto também sem precedentes), na Copa de 1950? Como explicar a Copa de 1954 como um todo, quando o genial Puskas e a seleção húngara- invictos há mais de 4 anos, ou 29 jogos, como preferirem- perdendo a final para a Alemanha (um tanto quanto insossa, na época), time do qual já haviam ganho, na mesma Copa, por 8 a 3? Como explicar Pelé e Garrincha, que juntos, pela seleção, não perderam um jogo sequer? Como explicar a seleção do tri, de 1970, considerada por muitos, até hoje, a melhor seleção campeã de uma Copa do Mundo? Como explicar Cruyff e a “Laranja Mecânica” serem derrotados em 1974? Como explicar o Brasil mágico de 1982, que junto com a Holanda de 1974 e a Hungria de 1954, figura como um dos maiores enigmas das Copas, por não terem sido campeãs? Como explicar, em 1986, um gol de mão dando o título para a Argentina? Como explicar uma seleção chata e sem graça, como a de 1994, acabar campeã? Como explicar a França, campeã em 1998, vexatória em 2002, vice em 2006, vexatória² em 2010? Como explicar o mago Zidane, expulso na final de 2006, levando, consigo, as chances de a França conseguir o título? Como explicar os atuais campeões e vice-campeões eliminados na primeira fase e em último lugar de seus respectivos grupos? Como explicar os guerreiros sul-africanos, que após tanto lutarem, acabaram como a primeira anfitriã a não passar para a segunda fase? Como explicar a Eslovênia, que entrou no vestiário classificada e, quando seus jogadores saíram do banho, descobriram que os EUA marcaram um gol aos 46 do segundo tempo? Como explicar Messi? Como explicar a Itália, que por alguns segundos vê-se classificada, mas logo após nota o bandeirinha erguendo a bandeira? Como explicar uma frágil bandeira chilena, rasgada, retirada dos escombros do terremoto, entregue para seus jogadores, representando a esperança de toda uma nação devastada pelo destino? Não dá para explicar. E, se me perguntarem: qual a magia do futebol? Creio que a única resposta cabível seja: não dá para explicar.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Feijoada búlgara (ou um minuto de cegueira)


"Always look on the bright side of death"
- Monty Pyton

Por Emannuel K.
Morreu José Saramago. Você provavelmente já sabe disso, já deve ter ouvido falar do ocorrido, provavelmente com mais detalhes do que eu. Já sabe que Portugal decretou dois dias de luto pra que o país honrasse o único escritor de língua portuguesa a ganhar um premio Nobel de literatura por um fim de semana. Talvez já saiba até da repercussão disso e as diferentes formas de recepção que a igreja teve do ocorrido. E se você já sabe disso tudo, caro leitor, pouco posso dizer da genialidade que ficou impressa nas páginas dos livros de Saramago. Eu mesmo não cheguei a ler toda a sua obra, seu estilo não era dos que mais me agradavam, mas ainda assim reconheço que foi um como poucos, um dos melhores, que ainda assim me agradou e me orgulhou de ter lido suas obras, de poder dizer que sou lusófono, como Saramago, mas com o sotaque um pouco diferente. Independentemente de minhas preferências literárias pessoais, tinha Saramago como maior escritor vivo de língua portuguesa, e fiquei muito surpreendido quando descobri, no mês de janeiro desse ano de 2010, que na terrinha um outro escritor concorria com o bom velhinho (não o Papai Noel, Saramago) e seu nome era Lobo Antunes. Esse sim é praticamente um desconhecido das massas brasileiras, e mesmo em círculos instruídos não são tão numerosos os que o conhecem, por já estar com uma carga de leitura considerável deixei passar a chance de conhecer o trabalho do Lobo, mas fiquei bastante intrigado desde o inicio do ano. Mas aí morre Saramago e eu sinto que se forma um vazio na nossa querida literatura. Conversando com alguns amigos discuti se seria essa a hora e vez de Lobo Antunes, se seria ele o próximo expoente da literatura lusófona, qual foi minha surpresa ao perceber que todas as respostas foram negativas e categóricas: De forma alguma, quem manda agora é Mia Couto. Esse moçambicano que ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras é, no entanto, feito de um material completamente diferente, a ponto de me espantar o fato de ser unanimidade entre aqueles com quem discuti o tema. Sobreveio então uma dúvida: seria isso culpa da pouca popularidade de Lobo Antunes no Brasil ou porque o único combustível que mantinha o escritor em páreo com Saramago era exatamente a rivalidade entre eles?
Isso leva a uma reflexão muito capciosa: a importância que o conflito entre dois pólos tem para que ambos se sobressaiam. Sem o seu fiel nenhuma balança tem utilidade, ou seja, não é possível que vejamos as qualidades de um sem que exista outro para contrapor. No caso isso funciona mais ou menos assim: Em algum tempo perdido do século passado Portugal tinha dois escritores de qualidade indiscutível, mas que por algum motivo não iam muito além da terrinha que é o dito país. Cria-se então um conflito, sempre no mais cordial dos ânimos, que coloca em conflito esses tais escritores, todos os leitores portugueses se mobilizam e tomam o partido daquele que é seu preferido. Logo, os dois escritores, motivados pela disputa, atingem seu auge criativo e então o resto do mundo não pode mais ficar alheio à literatura portuguesa. Alguns países tomam partido, mesmo que de forma não muito clara, como o Brasil, que não teve nenhum motivo para escolher o lado de Saramago, num caminho diferente do tomado por alguns países da Europa, por exemplo, ou de outros, para onde a disputa se estendeu. E então, para coroar a disputa, um dos dois ganha o Nobel, e esse você já sabe qual é. Mas aí é que está: será que sem Lobo Antunes teria Saramago ganhado o tão cobiçado prêmio? Em nenhum momento sua habilidade na escrita é posta em dúvida, assim como não ponho em questão se seria realmente Antunes um melhor escritor, como defendem alguns, mas a importância desse que foi deixado de lado pelos brasileiros na carreira do rival deve ser considerada ao menos como um fiel da balança, que acabou por pender para o lado de Saramago. Mas sem algo para contrapor o fiel também perde seu significado. Lobo Antunes corre agora o risco de voltar à condição que tinha antes de iniciar seu conflito com Saramago e ter de assistir, impotente á tomada por Mia Couto do título pelo qual disputou muito tempo: o de maior escritor vivo da língua portuguesa.

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domingo, 20 de junho de 2010

A síndrome do bom burguês

O meu objetivo com esse texto, escrito há algum tempo, é mostrar que de circunstâncias como a greve é possível extrair experiências "edificantes" para o caráter. Além disso, queria aproveitar o espaço desse blog para me expressar e compartilhar um aprendizado que a vida na universidade propiciou.

Estive com o Raúl e mais alguns RIanos na "Assembléia" que teve no prédio da História quinta-feira, cuja pauta era referente à famigerada greve dos funcionários da USP, se os estudantes deveriam aderir a ela. [A princípio, tinha pensado em ir direto ao assunto, mas não resisto a iniciar o texto tecendo uma crítica acerca do modus operandi da "Assembléia".] A bagaça começou com quase uma hora de atraso porque a mesa, composta por membros do DCE, queria estabelecer, por votação direta dos presentes, o tempo disponível aos oradores - os quais seriam sorteados para falar após a sua inscrição - e se estes poderiam concedê-lo a outro se assim o quisessem. A votação mostrou-se um processo primitivo: as quase 300 pessoas que assistiam a "Assembléia" levantaram a mão e foram contadas por uma pessoa x de boa vontade. E para mencionar outros inconvenientes: o prédio da História está longe de ser o mais adequado para essas ocasiões; ele é todo "aberto", o som se propaga para todos os sentidos e a caixa de som em si não ajudava, sem contar o falatório por parte de muitos que ali estavam.

Acho que o fato de haver todo um processo lento e desengonçado antes das "Assembléias", referente ao seu funcionamento, desencoraja quaisquer estudantes que mostrem alguma disposição para se deslocar até o local e participar da coisa política - pensei em vazar na hora, mas como tinha cerveja por 1,50... Por que não criar um modelo fixo de Assembléia, que prescinda dessas formalidades iniciais? Ela não vai deixar de ser menos democrática por isso.

Sobre o que foi dito na "Assembléia", era esperado - pelo menos por mim, calouro ingênuo -, que os dois lados tivessem vez nos discursos, ou seja, que os vermelhinhos (a favor da greve) e os "reaças" (contra) se pronunciassem. No entanto, o que ficou claro é que todos os oradores tendiam à esquerda e defendiam a greve, mas se encontravam divididos [ah, vá...?!] quanto a outras questões. A fala de alguns deles me surpreendeu bastante. O indivíduo y do DCE, que depois eu descobri ser pouco popular entre seus colegas das sociais, poderia mobilizar todos nós e instaurar um regime nazista no Brasil por meio de sua retórica se quisesse; não lembro mais o conteúdo da fala dele, mas foi bastante convincente e me pareceu na hora sensato. Uma oradora conquistou a minha simpatia pelo seu relativo pragmatismo - apesar de ela cursar filosofia -, dizendo que não era contra a greve, mas contra esta ser utilizada como recurso no momento, sem haver uma mobilização geral da USP em prol da causa dos funcionários. O resto tentou nos persuadir dizendo que a universidade já estava mobilizada, que a greve era uma necessidade e um direito conquistado pelos trabalhadores; apelou à nossa consciência, aos valores humanos de compaixão para com o próximo - os funcionários não recebem um reajuste há tanto tempo, tadinhos... - e todo tipo de baboseira. E, acredite, por um momento eu me deixei levar.

Na verdade, essa crise de consciência não foi só na “Assembléia”. A minha dimensão esquerdista chegou a me recriminar algumas vezes por ser contra essa greve, por visar o meu bem-estar em detrimento de uma causa maior, enquanto os servidores reivindicam, através de um meio supostamente legítimo, um "merecido" reajuste salarial. Afinal, eu e muitos outros estudantes que dependemos dos serviços dos funcionários só estamos tendo que fazer caminhadas involuntárias de mais de uma hora ao todo e gastar mais dinheiro e tempo com a nossa alimentação, sem contar custos de outra ordem. Mas isso foi até eu pesquisar mais sobre o assunto e descobrir, mais uma vez, que no mundo real não há espaço para maniqueísmos, que por si só são simplistas - o Rodas pode não ser o mauzinho da história; os funcionários não ganham mal, aliás recebem mais que a média dos funcionários no Brasil; princípios democráticos têm sido proferidos a esmo e de maneira hipócrita nas tentativas de legitimar a greve; há motivos eleitoreiros envolvidos -, e perceber pelas discussões na Internet que de fato é uma minoria na USP que apóia a famigerada e banal greve.

Uma reflexão que faço é que grupos (Sintusp, DCE) ou indivíduos mal intencionados dentro da universidade, geralmente envolvidos com partidos políticos nanicos de extrema esquerda (PSOL, PSTU), tidos como de direita por alguns estudantes da FFLCH [rs], só têm a ganhar com a alienação e a inércia dos estudantes. Normalmente nós ficamos tão presos à vida acadêmica (ou ao nosso umbigo) que nos tornamos alheios aos acontecimentos os quais se dão para além dela, apesar deles terem um impacto direto no nosso cotidiano, e não nos damos conta de que essa greve pode não constituir uma causa maior – como seus partidários gostam de acreditar, porque assim a querem -, mas a de alguns indivíduos, como os clamores nos cartazes colados por toda cidade universitária dão a entender ao fazerem referência à reintegração do companheiro Brandão, em meio a outras reivindicações não concernentes aos funcionários como um todo. Além disso, nós não os vemos se mobilizando em peso na USP (se é que você pode chamar churrascos regados à cerveja de mobilização), o que também sugere que essa causa é de poucos.

Eu queria entender melhor o que leva alguns estudantes a aderirem a movimentos alheios loucamente, mesmo quando eles os prejudicam e representam uma facção de caráter duvidoso, liderada por um comunista trotskista que acredita na implantação do comunismo por meio da violência, ao mesmo tempo que defende o respeito à democracia nos seus discursos. Não sou tão ingênuo; pretensões políticas e de outra natureza (recreativa, por exemplo) constituem motivos fortes. Mas acho que um idealismo genuíno, aliado à síndrome do bom burguês, em alguns casos colabora. Daí tiro outra reflexão, que sintetiza o meu aprendizado: ser a favor de uma causa que te prejudica diretamente não te torna mais honorável ou nobre, mas sim tolo; em outras palavras, quem se anula é otário mesmo, tá cerrrto?

Roger Lai



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sábado, 19 de junho de 2010

Caem as máscaras

“Dissipar a ilusão significa tirar o sentido do drama inteiro. O que prende os olhares dos espectadores é justamente a ficção, o truque. Toda vida humana nada mais é do que um espetáculo em que, um com uma máscara, outro com outra, cada qual recita seu papel para, a um sinal do chefe do coro, sair de cena”
Erasmo de Roterdã

O processo de identificação de estruturas como razões fundamentais para o comportamento humano, muitas vezes sintetizado na visão determinística, estritamente associada ao conceito do ambiente como modelador indiscutível da personalidade humana, ganhou destaque no pensamento sociológico especialmente no fim do século XIX e no decorrer de seu subseqüente. O pensar e o agir do ser humano, muito mais do que manifestações de um suposto livre-arbítrio, estariam de tal forma associadas a contextos externos a eles que mesmo a idéia de liberdade seria constantemente colocada à prova: Até que ponto somos livres? Fazemos nossas próprias escolhas ou apenas confirmamos modelos pré-determinados de acordo com os contextos em que estamos incluídos – quem sabe inevitavelmente submersos?

É certo que a análise histórico-psicológica não nega a influência do meio como fator fundamental na tomada de decisão por parte de diferentes grupos: a paranóia anticomunista materializada no McCartismo, o qual mobilizou a população americana em uma cruzada de perseguição implacável à “ameaça” marxista, exemplifica o quanto a bipolarização político-ideológica do período de Guerra Fria foi capaz de criar um ambiente de pressão psicológica coletiva, onde vizinhos, parentes ou quaisquer outros indivíduos que se mostravam propensos à subversão eram denunciados, investigados e mesmo até compelidos ao suicídio – tudo isso na “terra da liberdade”. Contudo, o pensar deterministicamente, muito mais do que um instrumento para a compreensão pontual de eventos históricos, é constantemente utilizado como esteio fundamental de todo o conjunto de ações perpetradas pelo ser humano, negando-lhe, de certa forma, responsabilidade sobre elas: apóia-se no argumento supostamente absoluto de que o indivíduo foi influenciado por contingências irresistíveis do meio ao qual ele provém ou está inserido, esquecendo-se do quanto temos vontades, medos, ambições, em suma, que somos humanos, movidos por anseios, interesses, paixões próprias. Culpar o meio, seus componentes e características, não é só resultado da vontade de se eximir da culpa, mas também um confortável apoio sob o qual repousamos, por vezes, nossa consciência, certos de encontrar ali consolo para nossas falhas.

Exemplo importante nesse sentido, nossas relações interpessoais e seus aspectos mais escusos já foram, freqüentemente, envoltos por diferentes véus que procuraram, insistentemente, deslocar o foco da culpa para um suposto “sistema”: os alvos favoritos são as exigências de uma sociedade de consumo, a competição desmedida a qual nos é imposta dia após dia e, finalmente, o capitalismo, bode expiatório de todos os flagelos. Olvidamo-nos da nossa responsabilidade indiscutível na gênese de tais fatores de pressão: somos nós os criadores desse meio, desse ambiente que nos oprime em direção a ações de mérito discutível, e é precisamente por essa razão que ele é tão avassaladoramente forte; são elementos internos, intrinsecamente humanos, e não externos, os quais são conseqüências daqueles, que constituem fundamentalmente nossas escolhas, nosso ser e dever-ser.

A carência de transparência e sinceridade em diversas relações humanas, tão agudamente percebida ao longo dos séculos por um sem-número de filósofos, sociólogos e psicólogos, é um modesto mas esclarecedor viés de tal discussão: é freqüente que indivíduos se relacionem de forma diferenciada com distintas pessoas, na medida em que tal relação afeta, de alguma maneira, seus interesses. Dança-se um luxuoso baile de máscaras, em que os participantes, certos de sua esperteza sem igual, escondem suas verdadeiras personalidades por detrás de disfarces cada vez mais sofisticados, justificando-se como atendendo às contingências, novamente irresistíveis, de um meio esmagador e cruel. Monta-se, desfruta-se de uma ficção, mas não por necessidade, senão por vontade: a ilusão é infinitamente mais sedutora que a realidade. Até que as máscaras imiscuem-se cada vez mais com as faces, fundindo-se a elas, perdendo-se a referência, a diferença entre personalidade e máscara, realidade e disfarce. E então, em meio ao farfalhar das fantasias, aos acordes da incansável orquestra e ao brilhar ofuscante do salão, ergue-se uma voz, consciente, consciência, a perguntar: No que nós nos transformamos?


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