quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um quê de Amélie

Na escolinha,

pintava, fora da margem e

do mais consciente azul, a maçã.

Trouxe flores pro primeiro namorado.

O tom de voz era um levantar de sobrancelhas.

Tinha um chapéu pra cada humor. E nenhum preto.

Ele a viu e, ali na esquina, à beira da poça, súbito soube:

Que poderia ter se apaixonado por ela um dia e outro e todos -


Mas tinha alma de síndico.



Ler Mais...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O cavaleiro do balde

O cavaleiro do balde

Consumido todo o carvão; vazio o balde; sem sentido a pá; a estufa bafejando frio; o quarto inteiro atravessado por sopros de gelo; diante da janela as árvores rijas de geada; o céu um escudo de prata contra quem deseja o seu auxílio. Preciso de carvão; certamente não posso morrer congelado; atrás de mim a estufa impiedosa, à minha frente o céu igualmente sem pena, tenho portanto de cavalgar nítido entre os dois e no meio buscar a ajuda do carvoeiro. Mas ele já está insensível aos meus pedidos costumeiros; é necessário provar-lhe com precisão absoluta que já não tenho uma só migalha de carvão e que sendo assim ele significa para mim o próprio sol no firmamento. Devo chegar como o mendigo que estrebuchando de fome quer morrer na soleira da porta e a quem, por esse motivo, a cozinheira dos patrões resolve dar para beber a borra do último café; do mesmo modo o carvoeiro, furioso mas sob o raio de luz do mandamento "Não matarás!", tem de atirar no meu balde uma pá cheia de carvão.

Já minha subida deve decidir o caso, por isso vou a cavalo no balde. Como cavaleiro do balde, ao alto a mão na alça - a mais simples das rédeas -, volto-me com dificuldade e desço a escada; mas embaixo meu balde sobe, soberbo, soberbo: camelos agachados no solo não se levantam tão belos estremecendo sob o bastão do cameleiro. Pela rua dura de gelo avança-se em trote regular; muitas vezes sou alçado à altura dos primeiros andares, não mergulho nunca até o nível da porta do prédio. E diante da abóbada do depósito do carvoeiro pairo extremamente alto enquanto ele bem lá embaixo escreve acocorado junto à sua mesinha. Para deixar sair o calor excessivo ele abriu a porta.

- Carvoeiro! - brado com a voz cava e crestada pelo gelo, envolto nas nuvens de fumaça da respiração. - Por favor, carvoeiro, me dê um pouco de carvão. Meu balde já está tão vazio que posso cavalgar nele. Seja bom. Assim que puder eu pago.

O carvoeiro põe a mão no ouvido.

- Estou ouvindo bem? - ele pergunta por sobre os ombros para sua mulher, que está tricotando no banco da estufa. - Estou ouvindo direito? Um freguês.

- Não estou ouvindo absolutamente nada - diz a mulher, inspirando e expirando tranquila sobre as agulhas de tricô, as costas agradavelmente aquecidas.

- Oh, você ouve sim - eu brado -, sou eu, um velho freguês, fiel e dedicado, só que no momento sem recursos.

- Mulher - diz o carvoeiro -, é alguém, é alguém; tanto assim eu não posso me enganar; deve ser um freguês muito antigo que me fala desse modo ao coração.

- O que há com você, homem? - diz a mulher, e repousando um instante comprime o trabalho manual no peito. - Não é ninguém, a rua está vazia, toda a nossa freguesia está servida, podemos fechar a loja durante dias e descansar.

- Mas eu estou sentado aqui em cima no balde - exclamo e lágrimas sem sentimento velam-me os olhos. - Por favor, olhem para cima, vão logo me descobrir; estou pedindo uma pá de carvão e se me derem duas vão me fazer muito, muito feliz. Todo o resto da freguesia aliás já está servido. Ah, se eu já ouvisse o carvão batendo no balde!

- Vou indo - diz o carvoeiro e com as pernas curtas quer subir a escada do porão, mas a mulher já está ao seu lado, segura-o pelo braço e diz:

- Você fica aqui. Se não parar de ser teimoso, subo eu. Lembre-se da sua tosse forte esta noite. Mas por um negócio, mesmo que seja imaginário, você abandona mulher e filho e sacrifica os seus pulmões. Eu vou.

- Mas então conte todos os tipos que temos no estoque; os preços eu grito depois para você.

- Está bem - diz a mulher e sobe para a rua.

Naturalmente ela não me vê logo:

- Senhora carvoeira! - exclamo. - Respeitosa saudação: só uma pá de carvão, bem aqui no balde; eu mesmo o levo para casa; uma pá do pior carvão. Evidentemente pago tudo, mas não agora, não agora.

Como as duas palavras "não agora" parecem um som de sino e como elas se misturam perturbadoramente ao toque do anoitecer que se pode escutar da igreja vizinha!

- O que ele quer, então? - brada o carvoeiro.

- Nada - grita de volta a mulher. - Não é nada, não vejo nada, não ouço nada. O frio está medonho; amanhã provavelmente vamos ter ainda muito trabalho.

Ela não vê nem ouve nada, no entanto desamarra o cinto do avental e tenta me enxotar com ele. Infelizmente consegue. Meu balde tem todas as vantagens de um bom animal de corrida, mas não resistência; ele é leve demais; um avental de mulher tira-lhe as pernas do chão.

- Malvada! - brado ainda, enquanto ela, voltando-se para a loja, dá um tapa no ar, meio com desprezo, meio satisfeita. - Você é malvada! Pedi uma pá do pior carvão e você não me deu.

E com isso ascendo às regiões das montanhas geladas e me perco para nunca mais.

Franz Kafka, 1916
Ler Mais...

sábado, 21 de agosto de 2010

Cool Jazz - Atualização Pirilampa da Madrugada 2.0

Bom, por enquanto eu vi poucas dicas culturais nesse blog. Como eu não posto faz tempo e estou por aqui disposto a postar algo interessante, vai algumas coisas.

Vocês já ouviram falar de cool jazz? É um estilo de jazz mais relaxante...

Um dos álbuns mais lindos que eu conheço é Miles Davis - Kind of Blue.

Acredito que muitos já o conheçam, mas para aqueles que nunca ouviram muito jazz eu sugiro!


Outra coisa bacana, é um músico americano muito conectado com a nossa Bossa Nova, chamado Chet Baker, o cara tem uma voz maravilhosa, além de ter sido um GAAAAAAAAAATO (podem sacanear o cara era bonito mesmo) da época (hauha). Enfim, o mano era fã do João Gilberto, além deste ter sido fã do anterior. Ele tocava maravilhosamente!!! Um luxo babe (já que é pra fazer comentários gays)!!! Ouçam só a música My Funny Valentine, que eu fiquei horas ouvindo.


Lindo, não?

E agora uma dica gastronômica:

Existem vários tipos de cervejas (assim como ocorre com os vinhos - que todos já conhecem): Weiss, Ale, Dark Ale (Stout), Pilsen, Bock... Você já pensou nisso? Eu comecei a pensar recentemente... Eu sei que todos esses tipos são enquadrados em dois tipos maiores que eu não lembro mais... O tipo de sabor da cerveja é ocasionado pela quantidade de ingredientes que são colocados na hora da sua "fabricação", se se quer uma cerveja pilsen põe cevada normal, se se quer uma bock põe a cevada pretinha... assim vai...

As cervejas industriais são sempre pilsen e das mais ruinzinhas (de acordo com padrões estabelecidos)... A Guiness é Stout. As Weiss são as de trigo - eu conheço a Baden Baden e a Bohemia Weiss, ambas são boas. Bom, é isso aí galera.

Pensem nisso antes de beber, sugiro a Baden Baden que eu comprei em Campos do Jordão, essas daí vem duma fábrica de lá que foi comprada pelo grupo Schincariol, mas é boa, cerveja nacional premiada e, de acordo com eles, a única feita por métodos artesanais, mas não vão pensar que são fermentadas em barris de carvalho por monjes!!!!!


Aquela abraço.

P.S: (Agora uma dica de turismo - não é propaganda) Para quem for a Campos do Jordão eu recomendo fortemente uma visita à fábrica da Baden Baden, super 1o!





Ler Mais...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Feijoada búlgara (Ou Concerto em D menor para dois violinos)


Acho que o último texto que escrevi não teve muitos comentários por tocar num assunto que não é sequer polêmico, mas apenas aterrador para a maioria das pessoas. Esse provevelmente é mais acessivel, mas ainda assim fala de algumas coisas complicadas.


*** 

Uma pequena litania. Um pouco maçante, é verdade:
 

Não acredito em política, acredito em loucura.
Não acredito em economia, acredito em ambição.
Não acredito na espada, acredito na caneta.
Não acredito no dinheiro, acredito no papel.
Não acredito em direitos, acredito na liberdade total.
Não acredito na Razão, acredito em mentiras.
Não confio nas religiões, confio na fé.
Não acredito na inocência, acredito na procrastinação do pecado.
Não acredito na perfeição, acredito na beleza da imperfeição.
Não confio nos bons, mas confio todas minhas trinta moedas aos maus.
Não acredito no deus que me impõem, acredito no meu.
Não acredito na Morte, acredito no Céu e Inferno, mesmo que na Terra.
Não acredito nas pessoas que amo, acredito cegamente no meu amor por elas.
Não acredito em somas e divisões, acredito na igualdade pura e inconsequente.
Não confio no poeta, confio na Musa.
Não acredito em poucos, acredito em todos.
Não acredito em muitos, acredito no ninguém.

Não acredito nos sábios, acredito nas árvores.
Não acredito no perigo, acredito no medo.
Não confio na Ordem, prefiro o Caos.
Não acredito em promessas e juras, acredito em olhos e mãos.
Não confio em beijos, confio em carícias.
Não acredito em deveres e métodos, acredito em obesessões e manias.
Não confio na humanidade, acredito nos seres humanos.
Não acredito em Charles Darwin, acredito em Charles Chaplin.
Não confio em você, mas acredito que posso estar errado.
 

***

Estava no metrô quando vi a primeira. Não estava completamente lotado como costuma em vários horários todos os dias, no entanto estavam naquele último vagão pessoas suficientes para que alguns tivessem de ficar de pé. Eu estava sentado, escutava alguma música do primeiro disco da Laura Marling, não me lembro com exatidão qual. Ela estava de pé, apoiada numa das portas. Vestia uma blusa azul, tão azul quanto a sua calça jeans, mas o cachecol – e o guarda-chuva – era verde limão, ou verde cana, não sou tão bom assim em diferenciar tons de cores. Os cabelos eram loiros e curtos, extremamente cacheados, os olhos estavam fechados, nuca saberei qual a cor que tinham. Alguma coisa nela remetia à androgenia dos anjos. De fato, os anjos deveriam ser como ela. Nem um pouco atraente, ao menos não para mim, mas indiscutivelmente angelical, seja por seu gênero ser de difícil percepção para os desatentos – ou não tanto assim, logo que meus olhos caíram sobre ela sabia que era uma mulher – seja na sua solenidade, ar de erudição, até mesmo aquela presumível arrogância que os anjos devem aparentar ao se verem entre os mortais, especialmente no metrô. Ainda assim ela me fez pensar que é daquele jeito que devem ser os anjos. 
Algum tempo depois finalmente cheguei até onde estava indo. Lá encontrei muitas pessoas, mas a minha surpresa foi que alguma daquelas me fizesse continuar a reflexão que começara no metrô; especialmente por ser uma pessoa que vejo com freqüência. Mas diferentes ocasiões nos propiciam diferentes reflexões, por isso talvez as relações entre pessoas dificilmente conservem-se imutáveis por muito tempo. Elas sempre mudam, talvez apenas um pouco, talvez não para melhor ou pior, talvez até imperceptivelmente, mas mudam. A pessoa que encontrava agora, no entanto, não tinha uma aparência que me lembrasse os anjos. Não, de forma alguma. Ela não tinha uma aparência que pudesse ser descrita apenas por palavras como "encantadora", "fabulosa", ou mesmo "charmosa", no entanto "tentadora" também não se adequaria de forma alguma, embora isso fosse parte do que fizesse. Enfim, era impossível definir aquela aparência, exceto, talvez, por diabólica. Não me entenda mal, se você a visse diria que ela tem cara de santa. Mas mesmo que você dissesse isso alguma coisa nessa definição ia te incomodar. Mas os demônios devem ter uma aparência como a dela para que consigam seduzir com mais facilidade, para que consigam convencer-te que está fazendo determinada coisa por vontade própria enquanto na verdade apenas te arrastam para a perdição. E nesse caso a perdição pode ser qualquer coisa. Uma paixão que faça com que seu peito arda, uma nunca antes provada sensação de rejeição a si mesmo, insegurança quanto àquilo em que você acredita ou, o que é pior, a criação de uma consciência ordinária e banal que vai te fazer repensar tudo aquilo pelo que na verdade deveria se orgulhar como "idiotices de um espírito-livre idiota". Mas tal qual mais vil dos demônios ela te joga no mais profundo poço do inferno apenas para depois te tirar de lá, brincar com você, controlando todos os seus devaneios, infiltrando-se nos seus pensamentos. Tão perfeita quanto só os demônios podem ser.

Ler Mais...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Razão do Ataque é...?


Um ponto que tem me chamado atenção nos jornais é o conflito entre as Coréias, catalisado pelo naufrágio do navio de guerra sul-coreano “Cheonan”, no dia 26 de Março. A Coréia do Norte seria a responsável pelo ocorrido ao atacar à embarcação com um torpedo, segundo um relatório multinacional responsável pela averiguação do ocorrido, em que morreram 46 sul-coreanos.

Mas é exatamente neste ponto que meus miolos de estudante prematuro das RIs começam a fritar. Por que um ataque norte-coreano? As consequências advindas do incidente com a embarcação eram previsíveis e vem ocorrendo gradativamente: repressão e ameaças pelo governo de Seul, conclusão de que a Coréia do Norte é culpada, sanções internacionais com participação mais ativa dos EUA, revolta do autoritário Kim Jong-il e tensão contínua entre os envolvidos, com as palavras conflito e guerra emergindo das sombras.

Supondo basicamente que os governos tomem decisões racionais e pensem no bem do regime político e/ou da população (olha a MH de novo...), vejo apenas uma hipótese em que o ataque faria sentido: Kim Jong-il visava à criação de uma tensão contra seu país, embasada em hipóteses capitalistas e imperialistas, pois não há provas definitivas contra o governo de Pyongyang (o relatório internacional não garante, com certeza, que a Coréia tenha feito o ataque). Assim, internamente, Jong-il poderia utilizar forte propaganda contra os preconceituosos, tais quais o governo sul-coreano, estadunidense, entre outros, para fortalecer o comunismo de Estado e permitir a sucessão pacífica por um de seus filhos.
Após esse impasse em achar uma hipótese que me convencesse, pensei nos outros envolvidos: Coréia do Sul e EUA. Apesar de me arriscar em uma teoria da conspiração, supus um auto-ataque, algumas vezes presente na história. Quanto aos Estados Unidos com Obama e em meio a duas guerras, não vejo lógica para tal ato. Vá lá, se ainda fosse o Bush e sua doutrina de “essa guerra não está dando certo, vamos para outra!” e de ataques preventivos; mas com a confusão para os EUA saírem do Iraque e do Afeganistão, investimentos crescentes nesses conflitos, crise econômica, caso iraniano e o diálogo Smart Power do governo, não haveria por que os americanos criarem outra guerra agora.

Por outro lado, a Coréia do Sul conseguiu apoio internacional forte, como vítima do caso, sendo que os EUA realizaram treinamento anti-submarinos conjunto ao país, além de ajudá-lo militarmente, enviando tropas para o treinamento que se somaram aos aproximadamente 29.000 soldados americanos na região fronteiriça entre as Coréias. Apesar disso, meu lado prudente, jovem e ainda raso de conhecimento não se contenta com essa idéia; afinal, foram cidadãos sul-coreanos que morreram; seria um sacrifício de 46 compatriotas, além de constituir uma hipótese muito negativa e sedenta de muitas provas para ser validada.

Em suma, fiquei sem uma resposta satisfatória. Mas esse não é o pior lado: nem ao menos achei referências para checar o pensamento de estudiosos sobre o ocorrido. Nada nos jornais ou revistas sobre a razão de tal ataque, análises, etc. Apenas notícias pontuais sobre o naufrágio, o relatório, o treinamento sul-coreano e estadunidense, mas nada tentando conectá-los ou entendê-los. É como se as relações entre os países fosse óbvia ou inexplicável, pois ambas as formas não precisariam ser discutidas. E tudo que posso afirmar neste texto, pelo que aprendi até agora, é justamente o contrário: as RIs nada tem de óbvias ou de inexplicáveis, mas sim são bem complexas.

Se alguém tiver um insight, outras idéias ou visto algum texto tratando sobre as razões do ataque, agradeço se me mandarem ou comentarem aqui. Abraço.

Ler Mais...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A ambrosia do século vinte e um

Eu, a exemplo de alguns outros colegas recém-blogueiros, também divaguei um pouco sobre o conteúdo das minhas postagens por aqui. Pensei em escrever sobre política, mas a MH me lavou o cérebro de tal modo que quando falo de política, me sinto trabalhando e, convenhamos, estou de férias. Pensei em abordar temas polêmicos (olha eu, separando política de polêmica!), mas o que quer que dissesse seria ofuscado pelos textos melhor articulados dos meus colegas. Então quem sabe fosse escrever contos ou poesias, mas lembrei que me falta a criatividade ficcional e a coerência estética. Decidi por fim escrever sobre o que me vier à cabeça, e desde já peço perdão por isso. Minha cabeça é imprevisível, inconstante, revoltosa, anárquica (como o sistema de Estados - sai MH!!) e por vezes obscena, mas com alguma sorte e muita dedicação, ela pode ser domada para formular bobagens inofensivas como a que vem a seguir.

Esses dias andava eu, displicentemente no banco de trás do carro - lugar dos que não querem nada da vida -, quando vi anunciando numa placa chamativa em frente ao que agora creio que fosse uma loja de cosméticos: “Temos RAÇÃO HUMANA!” (com o devido destaque). A princípio achei engraçado, cada coisa que inventam, deviam demitir já o responsável, tem uma ideia pra cada doido no mundo. O problema foi a proliferação da expressão: aquele fenômeno que só acontece quando você nunca ouviu falar de algo curioso e basta ver a primeira vez para encontrar em todo lugar. E o pior, logo depois você se dá conta de que o problema era com você: assombrosamente todos já tinham ouvido falar disso. Foi só quando eu vi estampado em uma dessas revistas de quinta categoria, que por acaso estava ao meu lado em um momento de ócio, que veio curiosidade e disposição suficientes pra me familiarizar com o assunto.

A tal ração humana consiste no resultado da mistureba no liquidificador de delícias como trigo, linhaça, aveia e gergelim: deve-se restringir o café-da-manhã (e o jantar, para uma ação mais efetiva, afinal quem está na chuva é para se molhar) a jogar goela abaixo a diluição de duas colheres de sopa do preparado com leite. Desnatado, claro. A promessa é “secar até 8 quilos em um mês”. Logo se nota que é uma dieta mirabolante não diferente de muitas outras, vindo à memória ecos daquelas propagandas da Polishop nas altas madrugadas. Contudo, a impressão que me deu foi que esta prática vem sendo mais levada a sério que o normal e está se tornando cada vez mais popular. E a grande diferença, peculiaridade que me chamou a atenção desde o início, é que o nome vai direto ao ponto.

Sem enrolações, sem cortinas de fumaça, tucanagens ou eufemismos. É a ração humana. A animalização daqueles que se submetem a insanas torturas estéticas é, finalmente, oficial. Não há esforço do marketing, talvez pela primeira vez na história das vendas baratas, para atrair o consumidor com devaneios de que a compra a ser realizada é especial, fina: aquilo não passa de ração. Talvez seja mera humilhação sádica dos vendedores. Já que o que não falta são clientes para produtos de magreza, vamos fazê-los rastejar por eles. Pensando bem, provavelmente não é isso, já que capitalistas são bonzin... Já que capitalistas querem o máximo de público. Bom, deve ser só um nome de produto facilmente memorizável.

E como é notável! Extasiemo-nos! É o auge da honestidade corporativista! Quem segue dieta sujeita-se a sacrificar o próprio paladar para emagrecer. E se é assim, por que se enganar rotulando a alimentação industrialmente balanceada de qualquer outra coisa que não ração? Afinal, você permite que outros decidam o que é bom para você (é a felicidade fabricada) - assim como o ser humano faz com seu cachorro. Ó, plebeu, entenda: quando você diz estar acompanhando a dieta com o Max Emagreceitor Bündchen 2000, sabemos que no fundo você quer usar aquelas cinco letrinhas. Entendemos, e lamentamos. Palmas para os inventores: além de sinceridade, trouxeram aceitação para os pobres coitados que correm atrás para ser o modelo ideal de pessoa.

Tudo, claro, é proveniente daqueles velhos parâmetros da sociedade a que todos supostamente devemos nos adequar. Alguém ao seu lado, de cima, de fora dizendo: você deve ser assim (até que a voz começa a vir de dentro). Não quero descambar para o lado clichê de mostrar a óbvia e patética preocupação da sociedade com a imagem, mas não deixa de impressionar o quanto as pessoas decidem sacrificar do próprio agrado para dedicarem-se a serem agradáveis para os outros. A auto-estima ferida funciona como um ralo, e drena cada vez mais de um corpo e mente perfeitamente normais, quando a pessoa decide impor-se penitências e, julgando-se indigna, exterminar luxos que traziam deleite. O prazer da refeição é ignorado em prol dos objetivos puramente biológicos: se seu corpo obtém todas as vitaminas necessárias e todos os nutrientes recomendados, você deveria estar satisfeito. Não critico que as pessoas procurem ser mais saudáveis, contudo questiono quanto do carpe diem elas estão dispostas a defenestrar nessa viagem.

Nos filmes e livros futuristas, desde os mais pessimistas até as historinhas do Astronauta do Mauricio de Sousa, é frequente a preocupação em retratar a substituição da comida por produtos sintéticos. O paladar é desprezível por fugir do racional. De fato, se for esse o prisma considerado, acabamos de dar mais um passo em direção a esse admirável mundo novo.

Ler Mais...

sábado, 24 de julho de 2010

Feijoada bulgara (Ou As coisas seguem caminhos tortuosos)

Por Emannuel K.
O nome sempre me parecera incomum. Era aquele tipo de nome que você sabe que existe, mas nunca tive a oportunidade de alguma vez encontrar alguém que o tivesse. Era, portanto, quase que um mito. Mas as coisas seguem caminhos tortuosos. Mais cedo ou mais tarde eu teria que conhecer alguém com esse nome, e de fato encontrei. Então as coisas mudaram um pouco. Agora, sempre que uma atendente de telemarketing me telefonava, era uma com o nome dela, sempre que andava de ônibus ou metrô ouvia o nome dela na conversa de outros passageiros, descobri que o nome da mãe de uma grande amiga era o mesmo nome dela, ou que minha própria mãe faz amizade com uma mulher com o mesmo nome dela. Agora quando baixo um disco é quase certo que, sem que eu saiba, uma das músicas tenha o nome dela, ou alguma variante próxima, agora as personagens de alguns dos filmes que eu mais gosto de ver tem personagens com o nome dela. O nome me persegue, e o faz não por forças do acaso, mas o faz por sua dona. Em condições como essa era de se esperar que fossem apenas duas as possibilidades: ou eu a odiaria ou a amaria. Mas desde pequeno fui educado para não odiar, esse é um sentimento muito ruim e muito forte, e por mais que valha a pena experimentar todos os sentimentos, alguns não compensam mais do que isso. Portanto, me apaixonei. Ou melhor, muito antes disso começar já estava apaixonado. Exatamente quando pensava em deixar de lado, partir pra outra, achar coisa melhor pra fazer, o nome começou a me perseguir, e não consigo parar de pensar nele, volta sempre que estou prestes a me deixar levar.
***
Eu não voltava para minha terra natal a aproximadamente um ano e meio. Mas as coisas seguem caminhos tortuosos. Assim que cheguei tive medo; medo de que todo aquele tempo que passei distante na verdade não tivesse existido, que a vida continuasse como sempre tinha sido, e o ultimo ano e meio não passasse de férias prolongadas. Os mesmos rostos de sempre, as mesmas piadas sem graça e os mesmos problemas, todas essas coisas que formam aquilo que chamamos de família estavam de volta, e isso me incomodou muito. Quando decidi que voltaria estava fazendo isso pelos meus amigos, para revê-los, mas devia ter lembrado que a família estaria sempre lá pra perguntar qual era mesmo o curso que eu estou fazendo, pra dizer que cresci, mesmo não sendo verdade.
À noite deitei no quarto que dormia antes de me mudar, olhei pela janela através da qual já tinha observado a rua lá em baixo centenas de vezes e nas horas de insônia, que me afligem todas as noites, fitei o mesmo teto que já tinha estado lá para mim em muitas situações semelhantes.
Mas finalmente revi meus amigos, não todos, não sempre, mas os vi; conversei com eles, contei minhas histórias e ouvi as deles, rimos juntos, rimos muito, e isso me deu aquela sensação estranha de que nada tinha mudado, estar com eles era tão bom quanto sempre fora. Logo já estava novamente falando com um pouco do sotaque que nunca tive mais que um pouco, olhando para o céu sem nenhuma nuvem à vista, depois de ter esquecido que era possível um céu tão azul, tão chapado quanto a parede de um quarto. Havia esquecido que o Sol estava assim tão perto de nós; já tinha me acostumado a pensarque na verdade ele estava mais distante, que era mais fraco, que era possível escapar a sua luz que machuca, dói, incomoda. Mas lembrei também como é sentar-se sobre um tapete, sob uma arvore, em um parque, comendo com amigos, tirando mais de 700 fotos em uma única tarde. Lembrei como é passar noites jogando baralho, como as cidades pequenas são tranqüilas para se ler na madrugada. E mostrei para meus amigos como é bom comer comida japonesa, como é bom andar por vários quilômetros nas ruas vazias e mal iluminadas.
Mas já estou com vontade de voltar. Agora mais do que nunca sinto que aqui é um lugar pequeno demais para as almas que querem em seu âmago abarcar o mundo. E logo vou ter de voltar, voltar a sentir saudades de amigos caros, voltar pensar em momentos como aqueles sobre um tapete e sob uma arvore como coisas felizes mas distantes. Logo vou ter de voltar ao caos com o qual me identifico tanto, ao barulho e aos passeios pela Paulista, vou ter de voltar a viver, não sem sofrer um pouco, é verdade, mas sempre feliz por me livrar da mediocridade.
***
A floresta era densa e à noite, como começava a acontecer naquele caso, ficava difícil ver para onde se está indo. Mas as coisas seguem caminhos tortuosos. Depois de algumas horas perdido o príncipe viu ao longe uma fraca luz. Imediatamente galopou naquela direção, com sua comitiva, pouco mais de meia dúzia de súditos, a segui-lo. Encontrou com facilidade uma pequena casa de madeira em uma igualmente pequena clareira, mas a luz não vinha da casa.
Ao lado do casebre sete tochas estavam levantadas em círculo, em altura média. Cada uma na mão de um pequeno homem, pequenos de uma forma que o príncipe nunca antes tinha visto, apenas ouvido falar em histórias de terras distantes e contos de fada. Os pequenos homens e suas tochas rodeavam um grande bloco de pedra, grande o suficiente para que coubesse ali uma pessoa, uma pessoa de tamanho normal. Ao ver a tampa ao lado do bloco de pedra o príncipe percebeu que se tratava de um funeral.
O príncipe se aproximou do caixão de pedra maciça e os anões abriram caminho para ele, silenciosamente se afastando um pouco, mas a luz de suas tochas, juntamente a do Sol quase que completamente escondido pelas arvores da floresta e pelo horizonte, ainda permitia que a figura lá dentro fosse visível em todos os seus detalhes. Era uma jovem com não mai que dezessete anos, a mais bela que o príncipe já tinha alguma vez visto. Era pálida como o mais puro mármore, pálida como o cadáver que era, mas misteriosamente seus lábios ainda conservavam um pouco de vermelho. “Deve estar recém-falecida” pensou o príncipe. Os cabelos era negros como uma noite sem lua e sem estrelas, e mesmo estando com os olhos fechados era fácil imaginar que os olhos eram da mesma cor. O vestido era vermelho vivo, um pouco puído, provavelmente o único que a jovem tinha para ser enterrada. 
O príncipe ordenou que seu séquito afastasse os anões, que foram presos no casebre sem muita resistencia. O príncipe ficou então sozinho com a falecida. Ah, como ela era linda, ele estava enfeitiçado, não poderia resistir mais tempo. Num átimo rasgou o vestido vermelho com violência. Sob ele a jovem estava completamente nua. Lentamente o príncipe acariciou as partes rosadas da jovem, surpreendendo-se com a frieza da pele, que esperava ainda estar ao menos um pouco quente, mas não era apenas a palidez da jovem que era marmórea. Mas isso não o deteve. Rapidamente o príncipe se livrou de suas roupas e trouxe o cadaver da jovem ao chão gramado. Se deteve por mais alguns instantes a acariciar a pele macia, até não mais resistir, tinha que possuí-la.
Afundou a cabeça nos cabelos escuros, sentindo o odor ainda agradável da jovem e se colocou entre as pernas dela, sem resistência, como era esperado. Mas então algo estranho aconteceu.
O príncipe não pode ver, mas os olhos da jovem se abriram, e eram tão escuros quanto ele havia imaginado. Mas então a mão fria se colocou nas costas quentes do príncipe e o grito que ele teria dado foi abafado pela mordida de dentes profundos na garganta real. O príncipe podia sentir seu sangue fluíndo para a boca da jovem, que não ficava nem um pouco mais quente. O pavor foi então substituído pelo prazer, um prazer crescente e agudo, um prazer tão grande quanto morrer. Un petit mort.
***
Espero que tenham gostado desse post, só lembrando que se você gosta dos meus textos aqui visite o http://talvezblog.blogspot.com
Cuidem-se todos.

Ler Mais...