quinta-feira, 23 de junho de 2011

Escrito em papéis perdidos.

anti-retro-98902-530-352Não gosto das páginas em branco, prefiro pautadas. Pode ser culpa da minha falta de coordenação motora, mas escrever em páginas brancas me parece pretencioso. É como criar algo do nada, as pautas são meu chão, meu começo e meu limite.

O que são palavras se não a tentativa de preencher a lacuna entre dois horizontes? E o que são as pautas se não horizontes? As palavras não estão aqui apenas para preencher o espaço entre o eu-escritor e o você-leitor – se é que isso pode ser considerado um espaço –, mas sim para ocupar muitas outras lacunas, entre meus pensamentos e minhas ações, entre seus sentimentos e suas reflexões. Pelo menos é isso que elas tentam.

Quantas vidas já foram modificadas por aquilo que se colocou entre duas pautas ou pela grandiosidade daquilo que cabe em uma única linha? O Papel branco me assusta, as folhas vazias são como a morte, é o silêncio, é o nada. Tudo que surge na folha em branco é antes forma que conteúdo, símbolos profundos flutuando na superfície do nada. É demais para mim. É muito grande, muito forte, eu sou mais fraco, sou pequeno, sou poeta.

***

As palavras tem que ser fáceis. Complicar não é recomendável. Porque dificultar o entendimento? Arte é sentimento, e nenhum sentimento vem de palavras misteriosas. Não é necessário saber o que se quer falar, os dedos se movem sozinhos, a caneta dança no papel, entre as pautas.

Quando escrevo, faço isso para que você leia, e, principalmente, para que você sinta. Não precisa se sentir da mesma forma que eu, isso é impossível, mesmo que minha habilidade fosse perfeita – e sei que está longe disso – ainda não seria possível. Cada pessoa é muito íntima, cada sensação é muito própria. Mas que sinta alguma coisa, qualquer coisa; que signifique algo para você, que te ajude a entender ou a esquecer. Que faça por você uma pequena parte do que faz por mim.

***

Ela estava no ônibus quando percebeu que havia algo de errado com a sua vida. Naquele momento ainda não conseguiu saber do que se tratava, não foi uma epifania, ela não compreenderia aquilo antes que muitos dias tivessem se passado. Mas naquele momento ela soube que havia algo de errado.

Os cabelos cacheados caiam pouco acima dos ombros, o nariz pequeno se dilatava e retraía, como se estivesse nervosa. A pele, levemente morena, estava mais pálida que o normal. Ela não sabia o que havia de errado, mas sabia que não era estar de pé num ônibus que nem sequer estava insuportavelmente lotado, era algo muito mais profundo, muito mais difícil de ver, ao menos para alguém que olhasse de perto para a própria vida, como ela então fazia.

Ainda um tanto pálida e com os olhos agora brilhando, perdeu o ponto no qual deveria descer, mas não lhe fez mal, o próximo não era assim tão longe, e ela agradeceria – se conseguisse pensar nisso naquele momento – pela chance de caminhar um pouco sob a lua e as estrelas que tinham surgido no céu a pouco, no clima agradável de uma noite em maio.

Muitas coisas poderiam estar acontecendo naquelas ruas enquanto ela andava, mas em nenhuma delas ela prestou atenção. Até mesmo atravessar a rua não foi muito mais que um reflexo, não precisou pensar para fazer, e não é assim grande parte das coisas que fazemos no nosso dia-a-dia? Acabamos perdendo muitos momentos simplesmente porque não prestamos atenção, estamos pensando em outra coisa, e funcionando no piloto-automático. Isso não é uma coisa ruim, não, de forma alguma, muitas vezes é isso e apenas isso que faz alguns dias de nossas vidas suportáveis de tão tediosos, muitas vezes são nesses momentos em que pensamos nas coisas que realmente nos são importantes, muitas vezes são esses os momentos nos quais descobrimos o que realmente nos é importante, e como algumas coisas pequenas ganharam espaço em nossas mentes sem nem ao menos termos percebido até então. Mas não ela não estava pensando em nada disso.

Na verdade é difícil dizer que ela estava realmente pensando em alguma coisa. Talvez fosse mais fácil comparar aquele estado com alguma droga. Uma droga muito potente, e aparentemente sem muitos efeitos colaterais. Quem olhasse para ela enquanto atravessava a rua nunca imaginaria o que se passava naquela cabeça, e teria que conhecê-la muito bem para perceber que  estava pálida. Ela conseguia sentir o vento em seu rosto, em seu cachos, e não porque era um vento violento, mas por que ele estava lá, como sempre está e nunca percebemos. Por dentro também, era como se uma brisa suave balançasse as folhas da árvore da consciência, deixando-as temporariamente inconscientes da sua consciência.

Entrar em casa foi a mesma coisa. Abriu e fechou as portas, abriu as janelas, acendeu as luzes e tirou o cachecol. E não foi sem um pouco de surpresa que percebeu que estava em casa. Agora ela sabia que algo havia de errado, e não desistiria antes de descobrir o que era. Mas foi essa a vez na qual percebeu que estava em casa, e foi nessa vez em que finalmente estava certa.


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domingo, 3 de abril de 2011

Pulp Literature #4

112Essa noite sonhei com ela. Não posso dizer que não foi um sonho estranho, porque sem dúvida foi. Ou melhor, talvez não tenha sido de todo estranho, simplesmente não estou acostumado a sonhos desse tipo, não estou acostumado a sonhos que façam tanto sentido ou que me digam alguma coisa de forma tão clara. A maior parte do sonho foi uma simples conversa sobre trivialidades, amenidades. Não vou saber dizer o que foi dito, ou qual foram os temas abordados, foi um sonhos, as coisas não funcionam desse jeito, não lembramos de todos os detalhes horas depois de estarmos acordados. Normalmente deixo ao lado da cama um pequeno caderno de anotações, para escrever aquilo que se passou em minha cabeça durante a noite, muitas de minhas estórias surgem dessa forma, mas normalmente são estórias das quais não gosto muito, são alta-fantasia ou simplesmente apresentam lacunas ou falhas enormes, que eu obviamente não conseguia identificar enquanto estava dormindo, Quase todas então são alguns rabiscos, coisas que nunca vão ver a luz do dia. Mas essa é uma situação diferente.
Não vi necessidade de escrever os acontecimentos do meu sonho. Não eram de grande importância para uma estória. Pelo contrário, eram muito pessoais. Agora não me lembro sobre o que conversamos no sonho. Mas ainda assim tenho uma vaga ideia. Mas, como disse, não faz diferença, não é sobre isso que quero falar. Quero falar que por mais que não lembre sobre o que estávamos conversando, lembro claramente que estava feliz. E me permito à liberdade de pensar que ela também estava, afinal era um sonho meu, e as imagens que conservo em minha mente não me desmentem. É impressionante como algumas imagens de sonhos nunca saem de nossas cabeças. Mas agora que penso nisso, talvez não sejam realmente coisas tiradas de sonhos, mas sim imagens reais das quais não consigo dissociar a sensação onírica – detesto essa palavra, mas não consegui pensar em nada mais apropriado enquanto meus dedos correm pelos tipos da máquina de datilografar.
Mas o que realmente me fez pensar foi o que veio depois disso. Eu não sou o tipo de pessoa que costuma ter sonhos eróticos, veja bem. Não sei dizer exatamente o porquê disso, mas o fato é que posso contar nos dedos de minhas mãos a quantidade de vezes que já sonhei com esse tipo de coisa. Mas o fato é que que o que se seguiu provavelmente pode ser descrito como um sonho erótico. Não vou descrever os mínimos detalhes, isso não é um texto sensacionalista e se o fizesse estaria inventando tudo, pois não lembro dos detalhes, e meu objetivo não podia se mais incompatível com o desenrolar do ato sexual. E ao escrever isso me surpreendo, pois não consigo realmente imaginar esse tipo de palavras saindo da minha boca na vida real, todo esse pseudomoralismo realmente não tem muito a ver comigo. Mas a máquina não rejeita nada, e nela não corro o rico de arrancar a língua com meus próprios dentes simplesmente por ter falado algo que de forma alguma é compatível com o meu comportamento habitual. Afinal escrever não é nada além de mentir pra o papel, e é ele por sua vez que mente para os leitores, não o escritor.
Mas se deixo de lado essa oportunidade que não muitas vezes aparece de fazer comentários lascivos é porque o que vou dizer agora, neste parágrafo teve sobre mim um efeito que não consigo até agora entender completamente. Ao sonhar eu sabia que a pessoa com quem fazia amor não era ela. Era completamente diferente: a cor de seus cabelos, olhos e pele, suas formas, suas proporções, desde seus trejeitos mais suaves até mesmo as diferenças mais gritantes. Não era ela. Mas ao mesmo tempo tinha de ser. Mesmo no sonho me parecia inconcebível que não fosse, mais até do que pareceria se estivesse acordado, sem sombra de dúvida. Não era ela, mas eu não conseguia aceitar que não fosse, então, de fato, era, mesmo não sendo. Não sou um grande intérprete de sonhos, eu reconheço que eles querem me dizer alguma coisa, mas dificilmente algo diferente do que eu quero dizer a mim mesmo. A ideia de dormir com ela era tão inconcebível, tão longe da realidade, que mesmo inconscientemente meu cérebro parece indisposto a aceitar.
***
Ele estava sentado na velha cadeira de balanço vendo o por do sol. Estava em frente a uma daquelas casas de madeira que só podem ser encontradas naquela região. Sempre achara aquilo exótico, de onde viera as casas podiam ser feitas de muitas coisas, mas madeira certamente não era uma delas, exceto talvez por alguns detalhes. Mas aquilo fora muitos anos atrás. Agora estava acostumado a sentar ali, na frente daquela casa, na velha cadeira de balanço algumas horas antes do por-do-sol, o cachorro, velho e cego caído de um dos lados, se aproveitando dos raios de sol até o último, e depois indo para dentro da casa procurar um lugar para se proteger do frio que costumava chegar à noite e fazer doer os seus ossos.
De certa forma aquilo servia também para o homem. Todos os dias sentava-se ali e lia a bíblia que a muitos anos atrás fora de seu pai. Não era um homem religioso, mas já tinha lido várias vezes todos os outros livros que tinha em casa. E o velho livro aguçava a sua imaginação. Quando se via naquela situação lembrava do pai. Eram muito parecidos, agora ele conseguia ver isso. Ele nunca quisera ser parecido com o pai, por mais que tivessem um relacionamento bom. E as vezes se sentia feliz que não tinha nenhum filho para se sentir como ele agora se sentia dentro de alguns anos.
Nos cabos telefônicos algumas andorinhas observavam o por-do-sol junto do homem. Era uma visão bonita, aqueles pássaros. E era um anoitecer bonito, mais bonito que os que costumava observar depois de colocar a bíblia sobre os joelhos e começar a pensar em como era parecido  com o pai. Talvez fosse mais bonito por causa das andorinhas. Elas não cantavam como alguns outros pássaros, mas ainda assim era uma coisa bonita de se ver: aquele Sol enorme e alaranjado sumindo aos poucos, o jogo de sombras com os cabos telefônicos, com as andorinhas, com o próprio homem sentado na sua cadeira de balanço. Só o cachorro não via isso. Olhos fechados, simplesmente sentia os raios de sol no seu pelo, e o medo do frio que vem com a noite.
Morreu sem muito alarde. O Sol se pôs, as andorinhas voaram, não se sabe para onde, não existiam mais sombras, apenas a noite escura e fria. Nunca mais ia ficar a tarde ali na frente da velha casa. Dessa vez o Sol se pôs de verdade.
O homem se levantou da cadeira como se já soubesse que o cachorro tinha morrido, ergueu ele nos braços e o levou para dentro de casa, logo ele ia estar em um lugar quente, onde seus ossos não iam mais doer por causa do frio.

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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Pulp Literature #3

“Build me up buttercup, don’t break my heart”

- The Foundations

 

A realidade existe simplesmente para servir de inspiração à arte.

***

Anos atrás eu costumava olhar para as duas e não conseguia deixar de pensar que as coisas estavam finalmente certas. Nunca fora fácil, definitivamente não acredito que qualquer pessoa diria que para chegar até aquele ponto minha vida não havia passado por suas eventualidades. Duvido muito também que alguém que me visse então discordasse que tudo que me tinha ocorrido de mal tinha valido a pena. É o sonho de muitos, não duvido. Mas também não duvido da infinita capacidade humana de se sentir insatisfeito, de não conseguir ser feliz. Ou será que a felicidade é apenas o momento? Não, não é, o momento é alegria, é apenas a esperança de felicidade, e esperança é uma sensação quase tão gratificante quanto felicidade. Pelo menos assim imagino, já que hoje sei que nunca fui feliz, apenas tive esperança de sê-lo. Isso é basicamente o que acontece com todas as pessoas quando elas pensam que são felizes.

Mas o fato é que quando via as duas juntas, a mãe brincando com a filha, acreditava que aquilo era felicidade, que queria que aquilo durasse para sempre. Mas o momento acabou. E isso foi a anos atrás. Não sou mais jovem. Não como era quando minha filha nasceu. Não como era quando conheci a mãe dela. Não como achei que continuaria sendo para sempre. As pequenas coisas com o tempo vão destruindo tudo aquilo que achava que tinha. Um belo dia olhei no espelho e vi que parecia mais com meu pai do que algum dia gostaria de parecer, fui para o trabalho e percebi que as conversas mais divertidas, nas quais os mais jovens se divertiam aconteciam sempre quando eu não estava lá, percebi que minha filha já não tinha mais um sorriso inocente como quando era um bebê, muito pelo contrário, tinha quase a mesma idade que a mãe dela tinha quando a conheci, e isso me deixou com medo de que ela conhecesse um homem imprestável como eu era na época. Ela era exatamente igual à mãe quando jovem, mas certamente não acreditaria nisso, não importa quem falasse ou quantas fotos antigas olhasse, era inconcebível para ela que em alguns anos fosse ficar no mesmo estado de sua mãe. Isso porque a mãe certamente não tinha mais muitas coisas pelas quais o jovem que fui se apaixonou, mas isso é compreensível, eu definitivamente mudara ainda mais. Já a algum tempo estávamos tentando ter mais um filho, ou melhor, ela queria mais um filho, para mim era simplesmente indiferente, ela queria se sentir como se sentira quando nossa filha nascera, eu naquele dia perdi todas as esperanças que ainda poderia ter de que isso algum dia pudesse acontecer. Naquela noite não tentamos.

Na manhã seguinte a idéia de olhar para ela ao acordar era repulsiva. Não porque à achasse feia. Por mais que isso pudesse ser verdade, eu a amara – e realmente a amara – por tanto tempo que não conseguia concebê-la como sendo feia, mas não podia suportar a manifestação de todo o tempo que passamos juntos no rosto dela.

Muitas pessoas durante os anos me disseram que queriam uma vida como a minha, uma família bonita como a minha. Essas pessoas acham que ter esse tipo de coisa faria com que elas fossem mais feliz do que são com aquelas que tem. Essas pessoas acham que o mundo é injusto porque algumas pessoas tem a possibilidade de serem felizes – e elas me incluem nesse grupo – e outras não tem – e elas sempre incluem a si mesmas nesse – mas elas estão erradas. O mundo é injusto, disso não tenho dúvidas, mas não pelos motivos que elas querem ver. O mundo é injusto porque todas as pessoas, não importa quem elas sejam, o que elas tenham ou o que elas façam, todas as pessoas são essencialmente insatisfeitas. Mas o mundo é tão justo quanto é injusto, pois todos, sem exceção, tem o direito àqueles momentos – que por vezes duram mais do que simples momentos – nos quais acham que são felizes. Até que finalmente esse momento passa e não existe nenhum motivo para pensar que algum dia ele poderá voltar.

Mas então, em uma noite qualquer, o mundo te faz voltar para casa depois de um dia de trabalho extenuante, e você vê sua filha saindo de casa, no meio da noite, sem avisar aos pais com um cara com uma guitarra nas costas, um cara que de certa forma te faz lembrar de como você era muito antes dele nascer. Então eu entro em casa, jogo o paletó no chão, afrouxo a gravata e abro alguns botões da camisa, pego a velha máquina de escrever e começo a bater nos tipos até a mulher acordar e me abraçar por trás. Naquele momento você imagina ela não como é hoje, mas como era anos atrás, e sem nem mesmo perceber aquilo que os são chamariam da realidade, leva ela para a cama e percebe que os olhos são os mesmos. E percebe que aqueles momentos podem voltar, percebe que ainda consegue ter esperança, mesmo sabendo que ela é vã, e mesmo sabendo que aquilo é só um momento.
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pulp Literature #2

Acordei no chão, completamente nu. Já havia me acostumado a dores nas costas, meus hábitos não eram dos mais sadios, causavam torcicolo com freqüência. Uma grande mancha roxa estava no meu braço direito, perto do ombro. Um copo caíra no chão e se quebrara, diversos cacos de vidro se espalharam, alguns me cortaram, mas nada muito profundo, apenas algumas gotas de sangue no piso branco da cozinha. A cabeça também dói, mas não foi uma pancada. A toalha, também branca e também com algumas gotas de sangue em si está estendida. Ninguém deve ter me ouvido cair, e se ouviram sem dúvida pensaram que era outra coisa qualquer. Agora já começava a escurecer. Por sorte não estava com os óculos. Se bem que quase nunca estava com eles. Mas fui até o meu quanto e os coloquei, para poder pegar todos os cacos de vidro.

Depois de catados os cacos me sentei numa das pequenas cadeiras metálicas. Os últimos dias haviam sido tão estranhos. Não completamente desagradáveis, mas ainda assim estranhos. Aquela queda provavelmente queria dizer que eu não tinha vocação para Buda. Fui para a cama devagar, ainda um pouco tonto. Nem percebi quando adormeci. Quando acordei já era noite, e estava tudo um tanto silencioso, mas por ali as coisas sempre eram silenciosas, ou será que as pessoas ficam tão habituadas com os sons da cidade que depois de um tempo simplesmente não conseguem mais reconhecer o que é silêncio de verdade? Havia escolhido aquela casa exatamente por que era mais silenciosa que a minha anterior, e menor, alguém como eu não tem necessidade de casas muito grandes, isso quando precisamos de uma casa fixa. Não me importei em ver a hora. simplesmente vesti uma roupa qualquer e saí. Poderiam ser nove da noite ou três da manhã, mas não fazia tanta diferença. Ali perto havia uma pequena loja 24hrs. A loja estava vazia, apenas a atendente lia uma revista televisiva atrás do balcão. Parecia cansada, mas todas as pessoas que trabalham me parecem cansadas, ou melhor, todas as pessoas me parecem cansadas quando olho para elas, até eu mesmo. Por isso não tenho espelhos em casa. Uma coisa a menos para ser quebrada acidentalmente. Comprei vário tipos de comida de fácil preparo, por mais que não goste delas. Também alguns copos descartáveis.

A moça no balcão sorriu para mim. Tempos atrás teria visto aquilo com outros olhos, agora sabia que aquilo não queria dizer nada, só um ato um tanto mecânico. Era uma boa atendente. Mesmo sem espelhos em casa sabia que minha aparência devia estar extremamente maltratada, especialmente se alguns cacos de vidros tivessem atingido meu rosto.

Ao chegar em casa preparei alguma coisa, não sei realmente o que, não estava pensando nisso, e comi. Provavelmente isso ia me impedir de cair pelos cantos, ao menos nos próximos tempos. É estranho como esse senso de sobrevivência funciona. É como se fome, sede e atração funcionassem como um piloto automático, só não dão resultados quando são impedidos de funcionar, ou desligados, permanentemente. Voltei para a cama. e peguei a carta que estava ali no chão ao lado dela. Algumas pessoas realmente desligam o programa.


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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Mientras comprabas cigarrillos

Tentou se lembrar de quando havia começado a comprar livros para sua estante e não para si. Tentou se lembrar da cor da estante-seis-prestações-sem-juros. Seria Matias o nome do porteiro do seu prédio? Ou talvez Matias fosse o homem ocupando dois terços da sua cama e fração nenhuma da sua vida...
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Desligou o despertador, deu-lhe o pagamento a Matias ou Mateus ou José, vestiu a cara que melhor combinava com os sapatos e saiu sem cumprimentar Lúcia, a porteira.

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pulp Literature #1

toilers_of_the_sea_02 Palavras são tudo. Tudo aquilo que existe e que não existe, tudo aquilo que cria e é criado, destrói ou é destruído. As palavras são tudo,  e quando digo palavras não estou querendo dizer o som delas sendo faladas ou a tinta delas escritas, mas elas em si. Existe um teoria de que se fossemos dividindo todas as coisas em suas partículas fundamentais, reduzindo os átomos a elétrons, prótons e nêutrons, e esses em partículas sub-atômicas, como quarks, chegaríamos num ponto em que descobriríamos que toda a matéria – e também a energia – é constituída simplesmente de informação. E é isso que as palavras são, elas são a informação em sua forma mais misteriosa e perfeita. Existem também aqueles que tendem a relegar aos números uma importância maior, os pitagóricos já diziam que todo o universo pode ser entendido por números. Talvez eles estejam certos quando dizem que os números explicam, mas são as palavras que criam. E é exatamente isso que elas fazem, as palavras são invencíveis e indestrutíveis, elas são a força criadora, mesmo quando agem através da destruição. Não se pode matar uma palavra, elas podem ser esquecidas, podem ceder lugar a palavras novas, podem até mesmo não significar nada – coisa que facilmente deixaria qualquer número, mesmo o mais tímido zero, indignado – mas são as palavras que carregam em si o poder de alimentar esperanças e quebrar corações. 

***

Ele ainda não tinha contado para a mulher, mas ia morrer. O médico não lhe dera falsas esperanças: “Se formos muito otimistas, seis meses, mas o mais provável é que não passa da metade disso”. Na verdade isso não o surpreendera, as últimas semanas haviam sido de dor excruciante, com dezenas de exames que não descobriram o que o afligia, quando descobriram já era tarde demais, mas pelo menos agora a dor havia sumido, provavelmente graças à morfina. A esposa achava que ele já estava se recuperando. Se fosse mais jovem provavelmente ia usar essa situação como desculpa para fazer centenas de coisas que nunca fizera, mas agora, já perto dos seus noventa anos, não conseguia mais pensar assim, talvez porque não quisesse realmente fazer nada mais além daquilo que já tinha feito, ou talvez simplesmente porque os impulsos da juventude haviam passado a muitos anos e não conseguia mais ver como divertida uma coisa apenas porque nunca a tinha feito. A mulher o olhou interrogativamente enquanto enchia a xícara, estavam no café da manhã. Ele não podia dizer que a vida fora fácil, isso seria uma grade hipocrisia, nunca tivera um emprego fixo, fora pedreiro, caminhoneiro, até mesmo chegara a trabalhar como carregador em um porto, na época em que eles funcionavam de uma forma muito diferente, se aposentara quando não tinha mais condições de continuar com trabalhos como esse, vivia da ajuda dos filhos, tivera com sua mulher dois filhos e duas filhas, o filho mais novo morrera, assassinado, fora um grande choque para toda a família, desde que descobrira que estava à beira da morte pensara muito no filho morto. Tivera também um filho fora do casamento, não fazia idéia da vida que ele poderia estar levando, se é que ainda estava vivo, podia muito bem já ter morrido de velhice, já que nascera quando ele ainda era muita jovem, antes mesmo de conhecer a esposa. A vida conjugal em si também não fora nenhum mar de rosas, mas na verdade nunca é, não é mesmo? Desde que se aposentara a mulher decidira que era hora dele retornar todo o trabalho que ela tinha tido com a casa ao longo dos anos, por isso a aproximadamente três décadas ela não fazia nada, toda a tarefa doméstica era função dele, ele na verdade não se importava muito com isso, se não tivesse essas atividades provavelmente se entediaria, mas agora se preocupava em como a esposa iria sobreviver depois que ele morresse, os filhos não tinham realmente muita paciência, eles tinham as próprias vidas para levar, não é certo que os pais queiram ser um fardo assim tão pesado para os filhos apenas por que estão envelhecendo. A mulher não o amava a anos, e talvez ele também não pudesse mais dizer que a amava, eles apenas suportavam aquela pessoa com a qual tinham aprendido a viver por mais de cinqüenta anos. Mas apesar disso ele não imaginava sua vida longe dela, em algum ponto de suas vidas os dois haviam se amado, se é verdade que hoje brigavam a ponto dele não duvidar que ela de certa forma desejava que ele morresse, também é verdade que se entendiam, e que a companhia que faziam um para o outro era – ao menos para ele – uma das poucas coisas que ainda podiam fazer com que a vida valesse a pena mesmo depois dos noventa anos, mesmo depois de ver os seus netos crescidos. Foi naquele café da manhã que percebeu como queria viver os dias que lhe restavam. Ao contrário do que esperava, não iria fazer nada demais, iria continuar a levar a vida como já vinha levando a alguns anos, só que agora com a ajuda de um pouco de morfina de vez em quando. Depois de decidir isso ainda pensou em voltar atrás, “existem tantas coisas para serem feitas, por que desperdiçar o pouco tempo que me resta?” mas na verdade nem sabia como fazer isso, nunca iria se decidir sobre o que gostaria de fazer além daquilo que normalmente fazia. Pensou em escrever um livro, mas não, não lia nada a mais de uma década, nunca fora muito próximo das palavras, ou de qualquer arte. Pensou em rever os amigos de longa data, até mesmo tentou contatar os que acreditava ainda estarem vivos, não estavam, exceto um, mas esse sequer lembrou dele pelo telefone, ele suspeitou que aquele não deveria lembrar mais de nada, não conseguia realmente formar frases que fizessem muito sentido. Talvez isso seja uma daquelas coisas que vêm com a idade, ele mesmo se desacostumara a falar, quando pronunciava alguma palavra se assustava com o ruído cavernoso que saía de sua boca, de sua garganta velha e seca. Se pudesse, naquele momento, teria escolhido morrer antes, quando ainda amava a mulher e quando os amigos eram em sua cabeça pessoas sorridentes, e não com aquele ar solene que todos inevitavelmente tem ao serem colocados em seus caixões. Continuou com sua vida normal, por escolha própria mais do que por falta de opção, por coragem mais do que por medo. Viveu ainda quatro meses, deixou para trás uma mulher em lágrimas – que morreria não mais que um ano depois – e partiu desse mundo num belo e brilhante caixão preto.

***

Lá estava ela sentada frente-a-frente com ele. Ele podia dizer pelo olhar dela como a expressão no rosto dele deveria ser de total embasbacamento. Os olhos caíram no grande estojo que ela colocara ao lado dela. Ele não tinha mais nada que pudesse perguntar:

- Isso é um violoncelo?

Ela riu. Era uma risada bonita, alegre, mas combinada com os olhos dela não podia deixar de ser um pouco suja. Ele duvidava que a irmã risse daquele jeito. Ela vestia uma camisa xadrez, parecia muito jovem, bem mais jovem do que a irmã dissera que era. Mas ele tinha certeza que essa era a pessoa certa, era a pessoa que estava procurando. Não tinha muito porque se preocupar então, não é? Afinal, isso só estava acelerando seu trabalho, de alguma forma. Mas então ela começou a falar e ele começou a se envolver. Falaram de música, do violoncelo e depois de generos musicais que não costumam usar esse instrumento, depois dança, depois teatro, depois cinema e então literatura, na progressão que se espera para esse tipo de conversa. Pularam as artes plásticas, a filosofia e a política, não são realmente os melhores assuntos para se discutir naquela situação, no lugar disso falaram de cozinha, acabaram comendo comida japonesa juntos. Ela realmente não parecia estar com a menor pressa, e ele se sentiu surpreendentemente confortável com isso. Depois de jantarem ela deu para ele o número de telefone, sem que ele sequer precisasse pedí-lo. No fim da noite ele sabia quais os filmes que ela mais gostava, seus escritores e bandas preferidos, sabia onde ela iria tocar no próximo fim de semana e até mesmo aprendera um ou dois truques para o violoncelo, mas não fizera nenhuma das perguntas que supostamente havia sido contratado para fazer.

***

Só uma notinha rápida, desculpem os possíveis erros gramaticais nessa postagem, assim como na minha anterior, estou tendo alguns problemas para me adaptar com o Windows Live Writer, apesar disso ele é um programa muito bom para fazer postagens em blogs, fica a dica. Ah, e Feliz Ano Novo para todos, sejam Iridescentes sejam leitores! Até a próxima!


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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Detetive particular

Detective__s_Office_by_etwoo Naquela época do ano o pequeno cubículo ficava muito abafado, apesar de lá fora o tempo não estar tão ruim, afinal, era outono. O ventilador de teto não ajudava de forma alguma, tinha pifado alguns meses atrás, e agora fazia pouco mais do que posar como uma peça de cenário de um filme noir. Ele mesmo era uma figura que não faria feio em um desses filmes. O topete parecido com o que Elvis usara na juventude e a roupa social um pouco surrada, um pouco desleixada, provavelmente de propósito. Não era o tipo de coisa que se descartava completamente quando se conhecia melhor a sua personalidade. Pela janela entrava a luz alaranjada de um daqueles pores-de-sol que só se pode encontrar no outono, e naqueles raros dias em que o céu não está nublado. Dos livros que deixava ali no escritório quase todos eram policiais, achava que eles o ajudavam a entrar no clima. Mas nos últimos tempos havia pouco clima no qual entrar fora dos livros. Se metera naquela profissão por influência do velho, seu avô, que fora um dos grandes detetives particulares no tempo em que isso ainda significava glamour e uma boa dose de casos sérios. Herdara tudo que tinha do velho, até mesmo aquele escritório era o mesmo,  nem sequer se dera ao trabalho de mudar o sobrenome na vidraça depois que ele morrera. Pensou em ligar o rádio, mas era dos antigos, apenas pegava as estações, e nada que tocasse nas estações realmente o agradava nos últimos tempos, seu avô dissera que aconteceu o mesmo com ele quando, nos anos 60, sempre que ligava o aparelho ouvia um britânico gritando alguma coisa que deveria ser música do outro lado do atlântico. Quando ele veio morar com o velho, nos anos noventa, a situação ainda parecia ser a mesma.
Sendo assim é possível imaginar a surpresa dele quando a porta se abriu. Não tinha uma secretária desde que a que era empregada pelo avô se aposentara, alguns anos antes. De fato, ele não sabia exatamente o que fazer quando a jovem de cabelos loiros entrou no escritório, só pode imaginar que se tratava de um engano, ela deveria ter aberto a porta errada, apesar do anúncio na vidraça, no mesmo prédio existiam várias outras salas que serviam de escritórios para advogados, profissionais duvidosos e até mesmo um consultório de dentista. Ela parecia ter um sorriso perfeito, não deveria ser para o dentista. Se olharam nos olhos por alguns segundos, o reflexo do sol impedia que ele discernisse com exatidão a cor dos olhos dela, simplesmente sabia que eram claros. Era bonita, como as mulheres que vinham procurar seu avô nos tempos áureos da profissão. Ele nunca realmente acreditara nas histórias que o velho contava sobre as mulheres estonteantes que lhe traziam casos fascinantes, mas agora começava a achar que não era assim tão impossível.
No dia seguinte lá estava ele no pequeno restaurante de comida japonesa, numa praça bem agradável, comendo um donburi. No seu intimo sabia que os restaurantes haviam escolhido esse nome para não batizar o prato de Gyudon deliberadamente. Embora fossem a mesma coisa, com esse nome podiam enganar mais pessoas. O gosto não era dos melhores, era basicamente comida japonesa para quem não tinha dinheiro para comprar nada melhor. Mas ele não podia reclamar, era bem barato, e se tudo desse certo, comeria bem melhor depois de resolver esse caso.
No momento em que pôs os olhos nela soube que era a pessoa que estava procurando. Tinha semelhanças visíveis com a irmã. Os cabelos eram tanto mais longos e era um pouco mais magra. Era fácil perceber que era a mais nova. Os olhos eram azuis – será que os da mais velha também o eram? – límpidos como um lago do norte, um lago raso. Nisso viu uma diferença, os da outra eram profundos, fáceis de se afogar. Mas aqueles olhos rasos não a tornavam menos interessante, era como se a sua alma estivesse despida, sem medo. Outra coisa lhe chamou a atenção. Nas costas a moça carregava um instrumento musical. O estojo era pequeno demais para ser um contrabaixo acústico – ele tinha até mesmo dúvidas se aquela pequena criatura conseguiria carregar um – então provavelmente era um violoncelo. Ele estava tão absorto em analisa-la que deixou de lado uma das coisas essenciais quando um detetive está fazendo uma observação – uma campana – ele deixo que ela percebesse o que ele estava fazendo. Quando ela sorriu para ele não teve outra reação se não retribuir. Mas a expressão dela mudou, como se uma interrogação passasse por sua face. Ela se dirigiu até ele, e ele tentou pensar no que dizer quando ela chegasse. Ela puxou uma cadeira e se sentou. Ele não havia conseguido pensar em nada.
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Eu não costumo dar muito valor a datas comemorativas, mas tenho que admitir que essa época do ano é importante para mim. Pode parecer meio que um clichê, mas é um tempo bom para refletir sobre o que esse ano significou para mim, o que eu aprendi e coisas do tipo. Isso fica bem claro se você considerar que sempre nos fins de ano gravo Cds para as pessoas que considerei mais importantes para mim naquele ano. O valor que relaciono a essa época não esta relacionado ao natal ou mesmo ao ano novo, mas sim ao fim do ano em si, por isso costuma começar lá pela metade de novembro e acabar em algum momento das férias no qual esteja distraído demais com leituras divertidas e coisas do gênero para me preocupar com repensar as lições que aprendi. Acho que a lição mais importante que levo desse ano se relaciona a pessoas, mas não posso dizer com certeza que foi um aprendizado completamente positivo, em parte foi, sem dúvida, mas acho que acabei exagerando um pouco demais, como é do meu feitio, vocês bem devem saber. Até o começo desse ano eu era muito dependente de pessoas, na forma mais geral possível do termo. Era com elas que eu aprendia tudo, e com elas eu me divertia. Posso dizer sem muito risco que grande parte do meu dia-a-dia dependia de outras pessoas, até mesmo da aceitação delas, especialmente daquelas com as quais eu simpatizava. Eu valorizava aquilo que os outros iriam pensar muito mais do que aquilo que eu pensava. Isso me causava problemas, e desconforto, insatisfação. Alguns anos antes haviam me dito que eu não ligava para o sentimento das pessoas, o que até podia ser verdade, mas eu gostava das pessoas, como entidade abstrata que representa a humanidade pelo menos, então passei de um extremo para o outro.
Mas aí a situação fica curiosa. Apesar de tudo eu em momento nenhum deixara de ter pensamentos próprios, uma visão de mundo pessoal, já que, como muitos de vocês devem saber, eu acho que todos temos a capacidade de pensar por si mesmo, criar coisas pessoais. Pode parecer um pouco contraditório, mas não é tanto assim, muitas pessoas fazem isso. Mas acho que conforme fui, nesse ano, sendo obrigado a explicar muitas coisas nas quais acredito, desenvolveu-se em paralelo um processo no qual o carinho que tinha pelas pessoas foi diminuindo. Mesmo hoje não penso que eu sou o dono da verdade e que todas as outras pessoas estão erradas, até porque a minha filosofia de vida se baseia na crença de que eu estou fundamentalmente errado, buscando coisas impossíveis, mas que valem a pena ser buscadas, mas isso fica para outra oportunidade. Mas, ainda assim foi aumentando em mim a sensação de que todas as pessoas tem um potencial incrível para a idiotice, e para me deixar desconfortável. Recentemente, ao conversar com amigos muito queridos senti esse desconforto, e isso me alarmou bastante. Não sinto remorso algum ao constatar que uma boa quantidade de pessoas simplesmente não me faz bem, não vale o meu tempo nem o meu esforço para construir uma amizade, mas é um tanto doloroso que aquelas com as quais a amizade já está fortemente consolidada sofram com respingos de antipatia direcionados a outras pessoas. É nesse ponto que entra o tal “contrato social” que um amigo(?) gosta tanto de citar. Eu não nego a existência desse “pacto” mas para mim a natureza dele é completamente diferente da que parece ser para ele. Esse “contrato”, na minha concepção, divide as pessoas em dois grupos: aqueles que “valem a pena”, com os quais é possível se formar uma amizade verdadeira e, por isso, deve tornar as pessoas mais próximas, afinal, se sou amigo de alguém posso falar com essa pessoa sobre o que bem entender, de forma franca e leve; e as pessoas que “não valem a pena”, e essas são aquelas quais, pelo menos atualmente, eu pouco me importo com o que pensam de mim, e sem dúvida é a grande maioria das pessoas com as quais eu convivo, para com essas pessoas pouca diferença fazem os excessos de cuidado. Eu não estou dizendo que seja impossível que uma pessoa “fora do contrato” entre nele ou que aconteça o contrário, e muito menos que algumas pessoas devem ser tratadas mal, mas simplesmente que nos preocupar demais com o que as pessoas acham de nós costuma não ser algo muito bom, o que nos leva de volta às reflexões de fim de ano. Se durante um ano se vai de um extremo a outro é sinal de que alguma coisa está errada, é exatamente o tempo para repensar as nossa atitudes durante o ano –e tentar encontrar um ponto de equilíbrio - que essa época nos oferece.
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Você é minha droga. Fico inquieto quando estou em abstinência. Espero por algum sinal – qualquer sinal – enquanto leio páginas e mais páginas de livros, sem realmente prestar atenção nas palavras. Você me transformou, me viciou. Não, não, estou mentindo, já era viciado muito antes, viciado em outras pessoas, outros prazeres. Agora minha santidade me surpreende, minha pureza se conserva em meus olhos vermelhos, enquanto espero através das madrugadas uma visita, algumas poucas palavras. Meu caso, no entanto, nunca antes foi tão grave. Agora me vejo vítima de horas e horas de tédio todos os dias. Minha consideração pela humanidade se resume à minha consideração por você. Preciso de você. Mas meus apelos não fazem diferença, não importa o quanto eu peça, sei que seu espírito não me pertence, sei que não sou eu quem vai definir quando você vai me responder e como será essa resposta. Já esperei por muito tempo, nada me impede de esperar mais, de encontrar outras pessoas, pessoas que jamais vão me saciar, a não ser que ajam exatamente como você. Seria necessário muito tempo para explicar, e sem dúvida você sabe como consigo fazer com que minhas palavras percam o sentido quanto mais eu falo. Você me lê, isso me faz depender de você.
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Que bom que outras pessoas finalmente estão postando no blog! Espero que nessas férias o movimento aqui pelo Irid’s aumente. E aproveito para desejar a todos um Feliz Natal!

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