sábado, 20 de agosto de 2011

Try Again Tomorrow.

Você tenta mudar, mas não é fácil. Não dá para mudar aquilo que você é do dia para a noite, ou da noite para o dia. Você pode tomar decisões, você pode até mesmo tentar mudar algumas coisas fundamentais, pode deixar de se importar com as coisas que fingia se importar antes, pode simplesmente não olhar na cara daquelas pessoas que você não consegue mais suportar. Mas esse tipo de coisa não é suficiente, não vai te livrar de coisa alguma. Na verdade, nada vai te livrar do desconforto para o qual a vida vai sempre te empurrar. Mas as perspectivas para além da vida só são melhores se você for muito otimista. E, convenhamos, você não é, não precisa mentir para mim.

thats-life-z4zpsm3pb-85207-430-602A única chance que você pode ter de fazer isso com sucesso – e mesmo assim apenas por algum tempo – é deixando tudo para trás. Mas isso é fácil de imaginar, você já devia ter pensado nisso mesmo antes que eu falasse. Mas também é impossível olhar ao seu redor e não querer continuar se apegando a ao menos alguma coisa; pode ser um amigo, um lugar, uma mania. Ninguém realmente quer se livrar de tudo, mas algumas vezes parece ser mais vantajoso deixar de lado algumas coisas boas quando as ruins são consideravelmente mais significativas. Mas isso não é fácil, a perspectiva de deixar de lado todas as pequenas coisas que ainda te dão prazer para substituí-las por incertezas não é das melhores. Você sabe que a tentação para voltar atrás vai ser grande, e que a única forma que existe de não ter como voltar atrás é muito definitiva, e nem um pouco segura. Então por que não optar pelo caminho mais simples e ir mudando aos poucos, não é mesmo? Só que essas mudanças lentas nunca são mudanças de verdade; quando você começar a ignorar as coisas que merecem ser ignoradas, quando começar a fazer as coisas que sempre quis fazer, vai ter que se preocupar em encaixar o horário da sua vida anterior, vai tentar ser educado quando perguntarem o por que você está tão diferente, por que não anda mais com algumas pessoas, por que sempre que tem tempo livre se afunda num livro qualquer sem a menor pausa para jogar conversa fora. E você não vai dizer que é porque despreza as pessoas ao seu redor, que as conversas que tinha com elas não te dizem nada e que preferia não estar ali, mas que não largou aquilo por um pequeno detalhe que não importa o quão bem você consiga explicar, ninguém nunca vai conseguir entender.

Mas, é claro, existe a possibilidade de você ser um verdadeiro espirito livre e deixar completamente de lado essas malditas convenções sociais. Isso vai fazer com que se sinta melhor, funciona para mim. Mas não importa. A sensação de vazio vai voltar; você vai voltar a perceber que nada daquilo tem significado para você, exceto um ou outro pequeno detalhe. E você vai tentar de novo, e se enganar de novo. Mas essa é a vida, as pessoas não são peças de um quebra-cabeças, as coisas não vão melhorar em algum momento, não vão surgir significados, paixões novas não vão curar as feridas antigas, aquelas três coisinhas que são tudo para você não vão te salvar. Ignorância e inocência vão te proteger, mas não vão mudar o mundo, e, depois de perdidas nunca podem ser recuperadas.

Viver deve ser aprender lidar, sem nunca conseguir, sem nunca se resignar, pois resignação é morte, e a morte não é nada se não a continuidade eterna daquilo do que por uma vida inteira você tentou fugir. E morrendo você não pode dizer nem mesmo que foi teimoso o suficiente para continuar tentando aprender até conseguir.


Ler Mais...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Necessidade desnecessária (Ou I Want You)

O Corvo do Poe olhou para mim e disse: “Nevermore”.
***35771-1c62df-530-668
É difícil argumentar. É difícil tentar explicar. Mesmo uma pessoa que vê significado em tudo vem, olha e vê que não existe nada, é vazio. Não existem motivos, apenas desculpas para suprir as lacunas que, no fundo, não podem sequer ser realmente sentidas, pois não estão lá. Tento sem sucesso me convencer que é só um engano, que estou errado, que não tem como ou porque. O buraco no chão continua apenas meio preenchido, não importando quanta terra se jogue em cima do cadáver, chegando ao ponto de nem sequer se ter certeza se ainda existe alguma coisa sob aquelas pás de terra, se existe alguma coisa no fundo, alguma coisa ainda que morta, ou se tudo não passa de desculpas criadas por uma mente que não consegue encontrar nada que realmente sirva como seu lugar de descanso, como um remédio para as inquietações que sempre teve, mas não quer ter por outra eternidade. Por isso se utiliza de um placebo para os espíritos inquietos, e quando percebe o que está fazendo, deixa com que o buraco que tenta tapar simplesmente cresça e fique mais fundo. Falta a coragem para pular na tumba e se sujar de lama, procurando algo que pode muito bem não estar lá. Não, a coragem não falta, ela simplesmente não existe, como tudo o mais, não existe nem mesmo a fraqueza. E quando percebo isso me desespero. Não existe nada que possa fazer, não existe nada, não existe a mínima chance de criar alguma forma de sair dessa situação, pois não existem lugares para onde ir, e mesmo as ideias não podem ser moldadas para fornecer algum conforto. O desespero faz perceber que também não existe ideia nenhuma, que tudo aquilo no que acredito – aquela pá, aquela terra, e a possibilidade de existir algo abaixo dela – tudo não passa de uma ficção criada para que não me sinta assim o tempo todo. Se as lágrimas ainda existissem dentro de mim, elas viriam, mas nem isso. Tento me convencer que não preciso mais dessas ficções, que não tenho mais utilidade para essas máscaras, que não tenho motivos para não me conformar com a minha existência inútil, sem sentido, praticamente uma não existência.
Tento me convencer que não preciso de desculpas, de como ou porquê, mas não consigo, me perco e me deixo, mas não consigo fingir que sou alguma coisa, fingir que não preciso dessas mentiras para me sentir como humano.
Tento me convencer – mas não consigo – de que não preciso de você.
***
“I couldn't make a sentence,
I couldn't even say what I meant to say.
That I want you;
it doesn't hurt to say I want you.
I need you;
I never thought I'd say I need you.
I'll keep you,
Oh yes I'll keep you and I'll throw myself away.
And I'll break you;
because I lose myself inside you.
I'll make you fit in the space that I provide you.
I'll take you,
Oh yes I'll take you just to push you far away, away, away.”
- Pulp, I Want You.
***

Ler Mais...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Escrito em papéis perdidos.

anti-retro-98902-530-352Não gosto das páginas em branco, prefiro pautadas. Pode ser culpa da minha falta de coordenação motora, mas escrever em páginas brancas me parece pretencioso. É como criar algo do nada, as pautas são meu chão, meu começo e meu limite.

O que são palavras se não a tentativa de preencher a lacuna entre dois horizontes? E o que são as pautas se não horizontes? As palavras não estão aqui apenas para preencher o espaço entre o eu-escritor e o você-leitor – se é que isso pode ser considerado um espaço –, mas sim para ocupar muitas outras lacunas, entre meus pensamentos e minhas ações, entre seus sentimentos e suas reflexões. Pelo menos é isso que elas tentam.

Quantas vidas já foram modificadas por aquilo que se colocou entre duas pautas ou pela grandiosidade daquilo que cabe em uma única linha? O Papel branco me assusta, as folhas vazias são como a morte, é o silêncio, é o nada. Tudo que surge na folha em branco é antes forma que conteúdo, símbolos profundos flutuando na superfície do nada. É demais para mim. É muito grande, muito forte, eu sou mais fraco, sou pequeno, sou poeta.

***

As palavras tem que ser fáceis. Complicar não é recomendável. Porque dificultar o entendimento? Arte é sentimento, e nenhum sentimento vem de palavras misteriosas. Não é necessário saber o que se quer falar, os dedos se movem sozinhos, a caneta dança no papel, entre as pautas.

Quando escrevo, faço isso para que você leia, e, principalmente, para que você sinta. Não precisa se sentir da mesma forma que eu, isso é impossível, mesmo que minha habilidade fosse perfeita – e sei que está longe disso – ainda não seria possível. Cada pessoa é muito íntima, cada sensação é muito própria. Mas que sinta alguma coisa, qualquer coisa; que signifique algo para você, que te ajude a entender ou a esquecer. Que faça por você uma pequena parte do que faz por mim.

***

Ela estava no ônibus quando percebeu que havia algo de errado com a sua vida. Naquele momento ainda não conseguiu saber do que se tratava, não foi uma epifania, ela não compreenderia aquilo antes que muitos dias tivessem se passado. Mas naquele momento ela soube que havia algo de errado.

Os cabelos cacheados caiam pouco acima dos ombros, o nariz pequeno se dilatava e retraía, como se estivesse nervosa. A pele, levemente morena, estava mais pálida que o normal. Ela não sabia o que havia de errado, mas sabia que não era estar de pé num ônibus que nem sequer estava insuportavelmente lotado, era algo muito mais profundo, muito mais difícil de ver, ao menos para alguém que olhasse de perto para a própria vida, como ela então fazia.

Ainda um tanto pálida e com os olhos agora brilhando, perdeu o ponto no qual deveria descer, mas não lhe fez mal, o próximo não era assim tão longe, e ela agradeceria – se conseguisse pensar nisso naquele momento – pela chance de caminhar um pouco sob a lua e as estrelas que tinham surgido no céu a pouco, no clima agradável de uma noite em maio.

Muitas coisas poderiam estar acontecendo naquelas ruas enquanto ela andava, mas em nenhuma delas ela prestou atenção. Até mesmo atravessar a rua não foi muito mais que um reflexo, não precisou pensar para fazer, e não é assim grande parte das coisas que fazemos no nosso dia-a-dia? Acabamos perdendo muitos momentos simplesmente porque não prestamos atenção, estamos pensando em outra coisa, e funcionando no piloto-automático. Isso não é uma coisa ruim, não, de forma alguma, muitas vezes é isso e apenas isso que faz alguns dias de nossas vidas suportáveis de tão tediosos, muitas vezes são nesses momentos em que pensamos nas coisas que realmente nos são importantes, muitas vezes são esses os momentos nos quais descobrimos o que realmente nos é importante, e como algumas coisas pequenas ganharam espaço em nossas mentes sem nem ao menos termos percebido até então. Mas não ela não estava pensando em nada disso.

Na verdade é difícil dizer que ela estava realmente pensando em alguma coisa. Talvez fosse mais fácil comparar aquele estado com alguma droga. Uma droga muito potente, e aparentemente sem muitos efeitos colaterais. Quem olhasse para ela enquanto atravessava a rua nunca imaginaria o que se passava naquela cabeça, e teria que conhecê-la muito bem para perceber que  estava pálida. Ela conseguia sentir o vento em seu rosto, em seu cachos, e não porque era um vento violento, mas por que ele estava lá, como sempre está e nunca percebemos. Por dentro também, era como se uma brisa suave balançasse as folhas da árvore da consciência, deixando-as temporariamente inconscientes da sua consciência.

Entrar em casa foi a mesma coisa. Abriu e fechou as portas, abriu as janelas, acendeu as luzes e tirou o cachecol. E não foi sem um pouco de surpresa que percebeu que estava em casa. Agora ela sabia que algo havia de errado, e não desistiria antes de descobrir o que era. Mas foi essa a vez na qual percebeu que estava em casa, e foi nessa vez em que finalmente estava certa.


Ler Mais...

domingo, 3 de abril de 2011

Pulp Literature #4

112Essa noite sonhei com ela. Não posso dizer que não foi um sonho estranho, porque sem dúvida foi. Ou melhor, talvez não tenha sido de todo estranho, simplesmente não estou acostumado a sonhos desse tipo, não estou acostumado a sonhos que façam tanto sentido ou que me digam alguma coisa de forma tão clara. A maior parte do sonho foi uma simples conversa sobre trivialidades, amenidades. Não vou saber dizer o que foi dito, ou qual foram os temas abordados, foi um sonhos, as coisas não funcionam desse jeito, não lembramos de todos os detalhes horas depois de estarmos acordados. Normalmente deixo ao lado da cama um pequeno caderno de anotações, para escrever aquilo que se passou em minha cabeça durante a noite, muitas de minhas estórias surgem dessa forma, mas normalmente são estórias das quais não gosto muito, são alta-fantasia ou simplesmente apresentam lacunas ou falhas enormes, que eu obviamente não conseguia identificar enquanto estava dormindo, Quase todas então são alguns rabiscos, coisas que nunca vão ver a luz do dia. Mas essa é uma situação diferente.
Não vi necessidade de escrever os acontecimentos do meu sonho. Não eram de grande importância para uma estória. Pelo contrário, eram muito pessoais. Agora não me lembro sobre o que conversamos no sonho. Mas ainda assim tenho uma vaga ideia. Mas, como disse, não faz diferença, não é sobre isso que quero falar. Quero falar que por mais que não lembre sobre o que estávamos conversando, lembro claramente que estava feliz. E me permito à liberdade de pensar que ela também estava, afinal era um sonho meu, e as imagens que conservo em minha mente não me desmentem. É impressionante como algumas imagens de sonhos nunca saem de nossas cabeças. Mas agora que penso nisso, talvez não sejam realmente coisas tiradas de sonhos, mas sim imagens reais das quais não consigo dissociar a sensação onírica – detesto essa palavra, mas não consegui pensar em nada mais apropriado enquanto meus dedos correm pelos tipos da máquina de datilografar.
Mas o que realmente me fez pensar foi o que veio depois disso. Eu não sou o tipo de pessoa que costuma ter sonhos eróticos, veja bem. Não sei dizer exatamente o porquê disso, mas o fato é que posso contar nos dedos de minhas mãos a quantidade de vezes que já sonhei com esse tipo de coisa. Mas o fato é que que o que se seguiu provavelmente pode ser descrito como um sonho erótico. Não vou descrever os mínimos detalhes, isso não é um texto sensacionalista e se o fizesse estaria inventando tudo, pois não lembro dos detalhes, e meu objetivo não podia se mais incompatível com o desenrolar do ato sexual. E ao escrever isso me surpreendo, pois não consigo realmente imaginar esse tipo de palavras saindo da minha boca na vida real, todo esse pseudomoralismo realmente não tem muito a ver comigo. Mas a máquina não rejeita nada, e nela não corro o rico de arrancar a língua com meus próprios dentes simplesmente por ter falado algo que de forma alguma é compatível com o meu comportamento habitual. Afinal escrever não é nada além de mentir pra o papel, e é ele por sua vez que mente para os leitores, não o escritor.
Mas se deixo de lado essa oportunidade que não muitas vezes aparece de fazer comentários lascivos é porque o que vou dizer agora, neste parágrafo teve sobre mim um efeito que não consigo até agora entender completamente. Ao sonhar eu sabia que a pessoa com quem fazia amor não era ela. Era completamente diferente: a cor de seus cabelos, olhos e pele, suas formas, suas proporções, desde seus trejeitos mais suaves até mesmo as diferenças mais gritantes. Não era ela. Mas ao mesmo tempo tinha de ser. Mesmo no sonho me parecia inconcebível que não fosse, mais até do que pareceria se estivesse acordado, sem sombra de dúvida. Não era ela, mas eu não conseguia aceitar que não fosse, então, de fato, era, mesmo não sendo. Não sou um grande intérprete de sonhos, eu reconheço que eles querem me dizer alguma coisa, mas dificilmente algo diferente do que eu quero dizer a mim mesmo. A ideia de dormir com ela era tão inconcebível, tão longe da realidade, que mesmo inconscientemente meu cérebro parece indisposto a aceitar.
***
Ele estava sentado na velha cadeira de balanço vendo o por do sol. Estava em frente a uma daquelas casas de madeira que só podem ser encontradas naquela região. Sempre achara aquilo exótico, de onde viera as casas podiam ser feitas de muitas coisas, mas madeira certamente não era uma delas, exceto talvez por alguns detalhes. Mas aquilo fora muitos anos atrás. Agora estava acostumado a sentar ali, na frente daquela casa, na velha cadeira de balanço algumas horas antes do por-do-sol, o cachorro, velho e cego caído de um dos lados, se aproveitando dos raios de sol até o último, e depois indo para dentro da casa procurar um lugar para se proteger do frio que costumava chegar à noite e fazer doer os seus ossos.
De certa forma aquilo servia também para o homem. Todos os dias sentava-se ali e lia a bíblia que a muitos anos atrás fora de seu pai. Não era um homem religioso, mas já tinha lido várias vezes todos os outros livros que tinha em casa. E o velho livro aguçava a sua imaginação. Quando se via naquela situação lembrava do pai. Eram muito parecidos, agora ele conseguia ver isso. Ele nunca quisera ser parecido com o pai, por mais que tivessem um relacionamento bom. E as vezes se sentia feliz que não tinha nenhum filho para se sentir como ele agora se sentia dentro de alguns anos.
Nos cabos telefônicos algumas andorinhas observavam o por-do-sol junto do homem. Era uma visão bonita, aqueles pássaros. E era um anoitecer bonito, mais bonito que os que costumava observar depois de colocar a bíblia sobre os joelhos e começar a pensar em como era parecido  com o pai. Talvez fosse mais bonito por causa das andorinhas. Elas não cantavam como alguns outros pássaros, mas ainda assim era uma coisa bonita de se ver: aquele Sol enorme e alaranjado sumindo aos poucos, o jogo de sombras com os cabos telefônicos, com as andorinhas, com o próprio homem sentado na sua cadeira de balanço. Só o cachorro não via isso. Olhos fechados, simplesmente sentia os raios de sol no seu pelo, e o medo do frio que vem com a noite.
Morreu sem muito alarde. O Sol se pôs, as andorinhas voaram, não se sabe para onde, não existiam mais sombras, apenas a noite escura e fria. Nunca mais ia ficar a tarde ali na frente da velha casa. Dessa vez o Sol se pôs de verdade.
O homem se levantou da cadeira como se já soubesse que o cachorro tinha morrido, ergueu ele nos braços e o levou para dentro de casa, logo ele ia estar em um lugar quente, onde seus ossos não iam mais doer por causa do frio.

Ler Mais...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Pulp Literature #3

“Build me up buttercup, don’t break my heart”

- The Foundations

 

A realidade existe simplesmente para servir de inspiração à arte.

***

Anos atrás eu costumava olhar para as duas e não conseguia deixar de pensar que as coisas estavam finalmente certas. Nunca fora fácil, definitivamente não acredito que qualquer pessoa diria que para chegar até aquele ponto minha vida não havia passado por suas eventualidades. Duvido muito também que alguém que me visse então discordasse que tudo que me tinha ocorrido de mal tinha valido a pena. É o sonho de muitos, não duvido. Mas também não duvido da infinita capacidade humana de se sentir insatisfeito, de não conseguir ser feliz. Ou será que a felicidade é apenas o momento? Não, não é, o momento é alegria, é apenas a esperança de felicidade, e esperança é uma sensação quase tão gratificante quanto felicidade. Pelo menos assim imagino, já que hoje sei que nunca fui feliz, apenas tive esperança de sê-lo. Isso é basicamente o que acontece com todas as pessoas quando elas pensam que são felizes.

Mas o fato é que quando via as duas juntas, a mãe brincando com a filha, acreditava que aquilo era felicidade, que queria que aquilo durasse para sempre. Mas o momento acabou. E isso foi a anos atrás. Não sou mais jovem. Não como era quando minha filha nasceu. Não como era quando conheci a mãe dela. Não como achei que continuaria sendo para sempre. As pequenas coisas com o tempo vão destruindo tudo aquilo que achava que tinha. Um belo dia olhei no espelho e vi que parecia mais com meu pai do que algum dia gostaria de parecer, fui para o trabalho e percebi que as conversas mais divertidas, nas quais os mais jovens se divertiam aconteciam sempre quando eu não estava lá, percebi que minha filha já não tinha mais um sorriso inocente como quando era um bebê, muito pelo contrário, tinha quase a mesma idade que a mãe dela tinha quando a conheci, e isso me deixou com medo de que ela conhecesse um homem imprestável como eu era na época. Ela era exatamente igual à mãe quando jovem, mas certamente não acreditaria nisso, não importa quem falasse ou quantas fotos antigas olhasse, era inconcebível para ela que em alguns anos fosse ficar no mesmo estado de sua mãe. Isso porque a mãe certamente não tinha mais muitas coisas pelas quais o jovem que fui se apaixonou, mas isso é compreensível, eu definitivamente mudara ainda mais. Já a algum tempo estávamos tentando ter mais um filho, ou melhor, ela queria mais um filho, para mim era simplesmente indiferente, ela queria se sentir como se sentira quando nossa filha nascera, eu naquele dia perdi todas as esperanças que ainda poderia ter de que isso algum dia pudesse acontecer. Naquela noite não tentamos.

Na manhã seguinte a idéia de olhar para ela ao acordar era repulsiva. Não porque à achasse feia. Por mais que isso pudesse ser verdade, eu a amara – e realmente a amara – por tanto tempo que não conseguia concebê-la como sendo feia, mas não podia suportar a manifestação de todo o tempo que passamos juntos no rosto dela.

Muitas pessoas durante os anos me disseram que queriam uma vida como a minha, uma família bonita como a minha. Essas pessoas acham que ter esse tipo de coisa faria com que elas fossem mais feliz do que são com aquelas que tem. Essas pessoas acham que o mundo é injusto porque algumas pessoas tem a possibilidade de serem felizes – e elas me incluem nesse grupo – e outras não tem – e elas sempre incluem a si mesmas nesse – mas elas estão erradas. O mundo é injusto, disso não tenho dúvidas, mas não pelos motivos que elas querem ver. O mundo é injusto porque todas as pessoas, não importa quem elas sejam, o que elas tenham ou o que elas façam, todas as pessoas são essencialmente insatisfeitas. Mas o mundo é tão justo quanto é injusto, pois todos, sem exceção, tem o direito àqueles momentos – que por vezes duram mais do que simples momentos – nos quais acham que são felizes. Até que finalmente esse momento passa e não existe nenhum motivo para pensar que algum dia ele poderá voltar.

Mas então, em uma noite qualquer, o mundo te faz voltar para casa depois de um dia de trabalho extenuante, e você vê sua filha saindo de casa, no meio da noite, sem avisar aos pais com um cara com uma guitarra nas costas, um cara que de certa forma te faz lembrar de como você era muito antes dele nascer. Então eu entro em casa, jogo o paletó no chão, afrouxo a gravata e abro alguns botões da camisa, pego a velha máquina de escrever e começo a bater nos tipos até a mulher acordar e me abraçar por trás. Naquele momento você imagina ela não como é hoje, mas como era anos atrás, e sem nem mesmo perceber aquilo que os são chamariam da realidade, leva ela para a cama e percebe que os olhos são os mesmos. E percebe que aqueles momentos podem voltar, percebe que ainda consegue ter esperança, mesmo sabendo que ela é vã, e mesmo sabendo que aquilo é só um momento.
Ler Mais...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pulp Literature #2

Acordei no chão, completamente nu. Já havia me acostumado a dores nas costas, meus hábitos não eram dos mais sadios, causavam torcicolo com freqüência. Uma grande mancha roxa estava no meu braço direito, perto do ombro. Um copo caíra no chão e se quebrara, diversos cacos de vidro se espalharam, alguns me cortaram, mas nada muito profundo, apenas algumas gotas de sangue no piso branco da cozinha. A cabeça também dói, mas não foi uma pancada. A toalha, também branca e também com algumas gotas de sangue em si está estendida. Ninguém deve ter me ouvido cair, e se ouviram sem dúvida pensaram que era outra coisa qualquer. Agora já começava a escurecer. Por sorte não estava com os óculos. Se bem que quase nunca estava com eles. Mas fui até o meu quanto e os coloquei, para poder pegar todos os cacos de vidro.

Depois de catados os cacos me sentei numa das pequenas cadeiras metálicas. Os últimos dias haviam sido tão estranhos. Não completamente desagradáveis, mas ainda assim estranhos. Aquela queda provavelmente queria dizer que eu não tinha vocação para Buda. Fui para a cama devagar, ainda um pouco tonto. Nem percebi quando adormeci. Quando acordei já era noite, e estava tudo um tanto silencioso, mas por ali as coisas sempre eram silenciosas, ou será que as pessoas ficam tão habituadas com os sons da cidade que depois de um tempo simplesmente não conseguem mais reconhecer o que é silêncio de verdade? Havia escolhido aquela casa exatamente por que era mais silenciosa que a minha anterior, e menor, alguém como eu não tem necessidade de casas muito grandes, isso quando precisamos de uma casa fixa. Não me importei em ver a hora. simplesmente vesti uma roupa qualquer e saí. Poderiam ser nove da noite ou três da manhã, mas não fazia tanta diferença. Ali perto havia uma pequena loja 24hrs. A loja estava vazia, apenas a atendente lia uma revista televisiva atrás do balcão. Parecia cansada, mas todas as pessoas que trabalham me parecem cansadas, ou melhor, todas as pessoas me parecem cansadas quando olho para elas, até eu mesmo. Por isso não tenho espelhos em casa. Uma coisa a menos para ser quebrada acidentalmente. Comprei vário tipos de comida de fácil preparo, por mais que não goste delas. Também alguns copos descartáveis.

A moça no balcão sorriu para mim. Tempos atrás teria visto aquilo com outros olhos, agora sabia que aquilo não queria dizer nada, só um ato um tanto mecânico. Era uma boa atendente. Mesmo sem espelhos em casa sabia que minha aparência devia estar extremamente maltratada, especialmente se alguns cacos de vidros tivessem atingido meu rosto.

Ao chegar em casa preparei alguma coisa, não sei realmente o que, não estava pensando nisso, e comi. Provavelmente isso ia me impedir de cair pelos cantos, ao menos nos próximos tempos. É estranho como esse senso de sobrevivência funciona. É como se fome, sede e atração funcionassem como um piloto automático, só não dão resultados quando são impedidos de funcionar, ou desligados, permanentemente. Voltei para a cama. e peguei a carta que estava ali no chão ao lado dela. Algumas pessoas realmente desligam o programa.


Ler Mais...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Mientras comprabas cigarrillos

Tentou se lembrar de quando havia começado a comprar livros para sua estante e não para si. Tentou se lembrar da cor da estante-seis-prestações-sem-juros. Seria Matias o nome do porteiro do seu prédio? Ou talvez Matias fosse o homem ocupando dois terços da sua cama e fração nenhuma da sua vida...
---
Desligou o despertador, deu-lhe o pagamento a Matias ou Mateus ou José, vestiu a cara que melhor combinava com os sapatos e saiu sem cumprimentar Lúcia, a porteira.

Ler Mais...