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sábado, 4 de fevereiro de 2012
Lost In The Supermarket
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domingo, 23 de outubro de 2011
Inconveniências.
Meu único consolo é que, como dizem os Kings of Convenience, There’s a little bit of you in everyone.
***
I write your name a thousand times
And erase each of them.
I wish it was this simple
to deal with my feelings
to deal with you.
But the truth is -
and you know it -
I’m just no good at
dealing with anything at all.
***
Eu não vou saber o que é isso -se é ou não amor-, a não ser que você me diga.
***
J. trabalhava no turno noturno da loja de conveniências. A loja era como aquelas que se encontram em alguns postos de gasolina, pequena mas com uma grande variedade de produtos: revistas, alimentos, pilhas, artigos de higiene pessoal, guarda-chuvas, e coisas do tipo. Durante o dia o lugar até que era bastante movimentado, com muitas pessoas entrando, saindo e comprando; mas já no começo da noite – assim que acabavam os pães que eram trazidos duas vezes ao dia por um padeiro associado – o número de clientes caia a olhos vistos. Era mais ou menos nessa hora que começava o horário de J. – quando ninguém mais tinha interesse na loja –. Provavelmente alguém que cobrasse um salário maior faria com que passar a madrugada abertos não valesse a pena, mas o anúncio dizia “24h” em letras chamativas.
A verdade é que existiam alguns clientes fixos que iam até a loja naquele horário, mas eram muito raras as vezes que alguém completamente desconhecido aparecia ali; quando esse tipo de coisa acontecia, J. já imaginava que o fazia por alguma emergência e quando não parecia ser esse o caso ficava um pouco desconfiado. Era uma pessoa de sorte, outras lojas da vizinhança já tinham tido problemas nos seus horários noturnos, mas nada demais havia acontecido desde que trabalhava naquela loja.
Todos os dias, quando J. chegava, os pães já haviam acabado, e costumava sair assim que chegava a leva matinal, deixando o árduo trabalho de vendê-los para os dispostos funcionários que tinham de acordar por volta das 4 da manhã exatamente para fazê-lo. Ou seja, parava de trabalhar ainda antes do Sol nascer. Quando parava para pensar, a verdade é que via o Sol poucas horas por dia, em geral pelas frestas das janelas de casa, principalmente ao entardecer, antes de sair de casa, mas também algumas vezes durante o dia alto, quando não conseguia dormir, seja pelo calor ou pela necessidade de fazer alguma coisa. Na maior parte do tempo acordado, ficava na loja, e na maior parte do tempo que estava lá, ficava sozinho, mas não se sentia solitário, tinha o lugar só para si, e tinha também a quietude do fim da noite e do começo do dia.
Por favor, não se precipite a julgá-lo como antissocial ou algo do gênero, que tipo de pessoa – de persona – seria ele se fosse assim tão raso? Mas ele merece ser observado um pouco antes que suposições sejam feitas. Vamos observar um pouco uma noite de trabalho dele para tentar entender melhor.
Ele esperou algum tempo depois de ser deixado completamente sozinho na loja, com a saída dos seus antecessores, para se sentir realmente à vontade. Abriu a mochila que sempre trazia para o trabalho e na qual tinha grande parte das coisas que precisaria para passar a noite de trabalho. Vestiu uma camisa xadrez sobre a camiseta que tecnicamente tinha que usar enquanto trabalhava, alguns CDs e um livro, Moby Dick. Recentemente tinha redescoberto os discos de David Bowie, mudando de opinião sobre vários deles, deixara de gostar de Ziggy Stardust – embora ainda gostasse dessa música, não gostava mais do disco, que antes fora um dos seus favoritos – e gostava ainda mais de Space Oddity e Hunky Dory, e um pouquinho mais de Diamond Dogs. Mesmo os últimos discos estavam sendo ouvidos de uma forma diferente. Mas a maior descoberta dos vários dias nos quais passara ouvindo a discografia do barítono fora sem dúvida Aladdin Sane. Foi pego de surpresa pela grande presença de piano no disco, e pelos jogos de palavra, presentes até mesmo no título, mas que só percebera ao ouvir o nome do personagem ser pronunciado na música como Aladd Insane. Pressentia que iria escutar o disco várias vezes enquanto se perdia no mar com o capitão Ahab.
O primeiro a passar ali naquela noite foi o homem de terno. Ele vinha ao menos uma vez por semana, sempre em um terno, preto ou em outra cor escura genérica, sempre cansado, com algumas olheiras e traços sérios. J. algumas vezes imaginava que o homem trabalhava com uma funerária ou alguma coisa parecida, mas a verdade é que cogitava isso apenas para deixar a imaginação fluir, que aquele era um homem que tinha que lidar com pessoas no momento em que elas estão mais vulneráveis – quando estão mortas – e com as pessoas quando estão no seu momento mais racional - quando alguém que amam morre –, mas a verdade é que por mais que imaginasse, tinha certeza que não era disso que se tratava, o rosto era sério demais, não demonstrava a sensibilidade de alguém que tem que lidar com a Morte, ao menos não dessa forma. Deveria ser simplesmente alguém que se atulhava de trabalho algumas vezes por noite dentro de um escritório, um advogado talvez, e não tinha para quem voltar quando ia para casa. O homem de terno sempre comprava alguma coisa que pudesse preparar fácil para comer quando chegasse em casa, e sempre mantinha uma distância fria para com J., por mais que se encontrassem com frequência, nunca falava nada além do essencial para a compra. J. não estava certo que aquilo era realmente frieza, por mais que desconfiasse que fosse, não deixava de lado a possibilidade de ser um agente funerário, que evitava proximidade com qualquer pessoa, para que no caso de alguma morte não se visse empurrado para a dolorosa racionalidade do luto. Escolheu algum tipo aleatório de lamen e se aproximou do caixa, só então J. deixou o livro de lado por alguns instantes (por mais que tivesse espiado por sobre o livro, não deixara de lê-lo) para atender o cliente, que manteve sua distância e saiu olhando para J. apenas quando tal era inevitável. J. ficou pensando se nas outras noites o homem comprava comida em outros lugares, para não ter que criar algum tipo de relação através da rotina.
Já estava ouvindo Aladdin Sane pela terceira vez quando a suicida apareceu. Ela parecia ter acabado de sair do Breakfast Club, aquele filme dos anos 80, vestida em uma jaqueta preta e com o cabelo, também preto cobrindo os olhos. A fração do rosto que ficava à mostra não dizia nada. Se o homem de terno era distante, essa era uma esfinge, mas a verdade é que sobre ela tinha mais certezas do que suposições. Ela sempre levava ataduras, band-aids e afins. Algumas vezes também aspirinas, remédios para dores de cabeça ou estomago, alguns analgésicos suaves. Ele tinha certeza que por baixo daquela jaqueta os braços levavam alguns cortes. Nunca dizia nada, quando queria algum remédio apontava-o na vitrine ou na receita que trazia. Não era difícil para J. entender. Ela não vinha com tanta frequência quanto o homem de terno, e isso era uma coisa que de certa forma aliviava J., por mais que fosse difícil falar em algum tipo de relação com ela, seu sentimento de humanidade fazia com que se preocupasse. Seja lá o que acontecesse, desde que fosse de escolha dela, estaria certo, não seria realmente ruim, não deveria ser algo que ele quisesse que não acontecesse, era completamente a favor que as pessoas tivessem total liberdade para fazer o que quisessem com suas vidas, até mesmo por um fim a elas, mas ainda assim uma pontinha de si esperava que tudo ficasse bem. Quando ela se aproximou do balcão, parou e pareceu olhar para o alto, para o nada, reconhecendo a música. Apesar do rosto continuar em grande parte inexpressivo, J. se arriscou a pensar que viu nas feições algum tipo de emoção, talvez até mesmo comoção. E com ela olhando para cima teve um vislumbre rápido do rosto, parecia bonita, mas não que não já o fosse com o cabelo sobre os olhos, mas os olhos são uma parte importante quando se quer entender as coisas que se passam dentro de alguém, para entender a reação de alguém a uma música, por exemplo. Quando ela saiu da loja ele continuou torcendo par que ela voltasse dali a alguns dias, sã e salva.
Passou o resto da madrugada lendo sobre o amargurado homem-do-mar e a baleia branca. Quando o dia começou a se aproximar, desligou o rádio, tirou a camisa, colocou tudo de volta na mochila e esperou os pães chegarem.
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domingo, 21 de agosto de 2011
Vain Attempts
Ela me olhou nos olhos e perguntou:
- Você já amou alguém?
E eu não consegui resistir, sorri. Não um sorriso amarelo, mas também não uma risada. Aquele tipo de sorriso quando um dos lados da boca está aberto e o outro não, um sorriso que, junto ao movimento da minha cabeça, a expressão no olhos, e o franzir das sobrancelhas, daria às pessoas que nos olhassem naquele momento que estávamos flertando. Não era uma completa mentira, mas também não era uma verdade. Ela tentava me provocar e eu certamente não deixaria de tentar provocá-la de volta, não é o tipo de chance que se tem todos os dias. Ou melhor, sim, se tem esse tipo de chance todos os dias, mas raramente elas são chances tão interessantes.
- Eu? Hahaha. Tudo que eu conheço é amor, já a muitos anos. Amor é a única coisa boa que sobrou dentro de mim depois de tanto tempo.
Ela sorriu de volta, de um jeito não menos provocante, embora de uma forma diferente. Os olhos dela tinham aquele brilho que destrói tudo que cruza pela frente. Era como se tivesse um segredo, como soubesse alguma coisa que eu não sabia, como se estivéssemos jogando uma partida de xadrez e eu tivesse feito exatamente o movimento que ela esperava que eu fizesse para me encurralar em um xeque-mate sem que eu percebesse.
- E você fala como se isso quisesse dizer alguma coisa. Como se tivesse respondido a minha pergunta.
Eu obviamente não tive reação alguma, estava muito perdido naqueles olhos – e não só nos olhos para ser completamente sincero – para me importar com uma argumentação. E na verdade eu mesmo sabia que o que havia dito não queria dizer nada, sabia muito antes de falar, mas nunca, numa situação como aquela conseguiria deixar de falar uma frase de efeito. Mas a verdade é que se tivesse pensado antes de falar, como não costumo fazer, teria falado algo bem parecido. Acreditava piamente nos meus amores, e acreditava na minha capacidade de mantê-los, não ia deixar isso de lado por um flerte, alguns sorrisos sugestivos e alguns olhares, por mais que fossem o tipo de sorriso e olhares que mais me interessavam.
Com o meu silêncio, continuamos trocando olhares, e ela continuou:
- Na verdade, se isso me responde alguma coisa, é exatamente que você nunca amou. – Foi isso que me espantou. Instantaneamente mudei de posição na cadeira, sabia que a minha expressão tinha me traído, desviei o olhar, apenas por alguns segundos perdi o contato com os olhos dela e vi o vapor que subia das xícaras. Devo ter ficado vermelho, no momento em que olhei de novo para ela a expressão não tinha mudado muito, continuava segura e orgulhosa, havia encurralado meu rei com uma afirmação que não era verdadeira, não para mim. E continuou. – Levando mais a fundo… Me atrevo a dizer que você nunca conseguiu amar ninguém, e duvido que conseguiria fazer isso hoje.
- E por que você acha uma coisa dessas? Meu coração pode se apaixonar por qualquer coisa, a qualquer momento, sem o menor controle da minha parte. Mas por que tão preocupada com isso? Quer ter certeza que eu vou me apaixonar por você? – Consegui voltar à expressão inicial, não era difícil se perder nela.
Ela riu, uma risada clara, limpa, que não poderia significar nada de ruim.
- Não, seu coração não conseguiria. E sorte a sua que não estou interessa em uma paixão, apenas sexo.
- Ah, mas a pergunta mais importante você não respondeu…
- Você gosta demais do amor, é poeta demais para já ter amado. Você já sabe muito bem das coisas que gosta, só encaixa o mundo nessas coisas e chama de amor.
- Oras, quem sou eu para saber do que preciso, e quem somos nós para saber o que é realmente o amor, ele pode muito bem ser isso que você acabou de falar que não é.
- Não tente escapar com jogos de palavras. Você pode não saber o que precisa, mas eu sei muito bem.
Foi uma noite divertida.
***
“Call in love, call in whatever you please
It's not what you wanted
It might be just what you need
[…]I don't know what it is I'm feelin'
A four letter word really gets my meaning
Nothing ever lasts
Forever” – Beady Eye.
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sábado, 20 de agosto de 2011
Try Again Tomorrow.
Você tenta mudar, mas não é fácil. Não dá para mudar aquilo que você é do dia para a noite, ou da noite para o dia. Você pode tomar decisões, você pode até mesmo tentar mudar algumas coisas fundamentais, pode deixar de se importar com as coisas que fingia se importar antes, pode simplesmente não olhar na cara daquelas pessoas que você não consegue mais suportar. Mas esse tipo de coisa não é suficiente, não vai te livrar de coisa alguma. Na verdade, nada vai te livrar do desconforto para o qual a vida vai sempre te empurrar. Mas as perspectivas para além da vida só são melhores se você for muito otimista. E, convenhamos, você não é, não precisa mentir para mim.
A única chance que você pode ter de fazer isso com sucesso – e mesmo assim apenas por algum tempo – é deixando tudo para trás. Mas isso é fácil de imaginar, você já devia ter pensado nisso mesmo antes que eu falasse. Mas também é impossível olhar ao seu redor e não querer continuar se apegando a ao menos alguma coisa; pode ser um amigo, um lugar, uma mania. Ninguém realmente quer se livrar de tudo, mas algumas vezes parece ser mais vantajoso deixar de lado algumas coisas boas quando as ruins são consideravelmente mais significativas. Mas isso não é fácil, a perspectiva de deixar de lado todas as pequenas coisas que ainda te dão prazer para substituí-las por incertezas não é das melhores. Você sabe que a tentação para voltar atrás vai ser grande, e que a única forma que existe de não ter como voltar atrás é muito definitiva, e nem um pouco segura. Então por que não optar pelo caminho mais simples e ir mudando aos poucos, não é mesmo? Só que essas mudanças lentas nunca são mudanças de verdade; quando você começar a ignorar as coisas que merecem ser ignoradas, quando começar a fazer as coisas que sempre quis fazer, vai ter que se preocupar em encaixar o horário da sua vida anterior, vai tentar ser educado quando perguntarem o por que você está tão diferente, por que não anda mais com algumas pessoas, por que sempre que tem tempo livre se afunda num livro qualquer sem a menor pausa para jogar conversa fora. E você não vai dizer que é porque despreza as pessoas ao seu redor, que as conversas que tinha com elas não te dizem nada e que preferia não estar ali, mas que não largou aquilo por um pequeno detalhe que não importa o quão bem você consiga explicar, ninguém nunca vai conseguir entender.
Mas, é claro, existe a possibilidade de você ser um verdadeiro espirito livre e deixar completamente de lado essas malditas convenções sociais. Isso vai fazer com que se sinta melhor, funciona para mim. Mas não importa. A sensação de vazio vai voltar; você vai voltar a perceber que nada daquilo tem significado para você, exceto um ou outro pequeno detalhe. E você vai tentar de novo, e se enganar de novo. Mas essa é a vida, as pessoas não são peças de um quebra-cabeças, as coisas não vão melhorar em algum momento, não vão surgir significados, paixões novas não vão curar as feridas antigas, aquelas três coisinhas que são tudo para você não vão te salvar. Ignorância e inocência vão te proteger, mas não vão mudar o mundo, e, depois de perdidas nunca podem ser recuperadas.
Viver deve ser aprender lidar, sem nunca conseguir, sem nunca se resignar, pois resignação é morte, e a morte não é nada se não a continuidade eterna daquilo do que por uma vida inteira você tentou fugir. E morrendo você não pode dizer nem mesmo que foi teimoso o suficiente para continuar tentando aprender até conseguir.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Necessidade desnecessária (Ou I Want You)
***
É difícil argumentar. É difícil tentar explicar. Mesmo uma pessoa que vê significado em tudo vem, olha e vê que não existe nada, é vazio. Não existem motivos, apenas desculpas para suprir as lacunas que, no fundo, não podem sequer ser realmente sentidas, pois não estão lá. Tento sem sucesso me convencer que é só um engano, que estou errado, que não tem como ou porque. O buraco no chão continua apenas meio preenchido, não importando quanta terra se jogue em cima do cadáver, chegando ao ponto de nem sequer se ter certeza se ainda existe alguma coisa sob aquelas pás de terra, se existe alguma coisa no fundo, alguma coisa ainda que morta, ou se tudo não passa de desculpas criadas por uma mente que não consegue encontrar nada que realmente sirva como seu lugar de descanso, como um remédio para as inquietações que sempre teve, mas não quer ter por outra eternidade. Por isso se utiliza de um placebo para os espíritos inquietos, e quando percebe o que está fazendo, deixa com que o buraco que tenta tapar simplesmente cresça e fique mais fundo. Falta a coragem para pular na tumba e se sujar de lama, procurando algo que pode muito bem não estar lá. Não, a coragem não falta, ela simplesmente não existe, como tudo o mais, não existe nem mesmo a fraqueza. E quando percebo isso me desespero. Não existe nada que possa fazer, não existe nada, não existe a mínima chance de criar alguma forma de sair dessa situação, pois não existem lugares para onde ir, e mesmo as ideias não podem ser moldadas para fornecer algum conforto. O desespero faz perceber que também não existe ideia nenhuma, que tudo aquilo no que acredito – aquela pá, aquela terra, e a possibilidade de existir algo abaixo dela – tudo não passa de uma ficção criada para que não me sinta assim o tempo todo. Se as lágrimas ainda existissem dentro de mim, elas viriam, mas nem isso. Tento me convencer que não preciso mais dessas ficções, que não tenho mais utilidade para essas máscaras, que não tenho motivos para não me conformar com a minha existência inútil, sem sentido, praticamente uma não existência.
Tento me convencer que não preciso de desculpas, de como ou porquê, mas não consigo, me perco e me deixo, mas não consigo fingir que sou alguma coisa, fingir que não preciso dessas mentiras para me sentir como humano.
Tento me convencer – mas não consigo – de que não preciso de você.
***
“I couldn't make a sentence,
I couldn't even say what I meant to say.
That I want you;
it doesn't hurt to say I want you.
I need you;
I never thought I'd say I need you.
I'll keep you,
Oh yes I'll keep you and I'll throw myself away.
And I'll break you;
because I lose myself inside you.
I'll make you fit in the space that I provide you.
I'll take you,
Oh yes I'll take you just to push you far away, away, away.”
- Pulp, I Want You.
***
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quinta-feira, 23 de junho de 2011
Escrito em papéis perdidos.
Não gosto das páginas em branco, prefiro pautadas. Pode ser culpa da minha falta de coordenação motora, mas escrever em páginas brancas me parece pretencioso. É como criar algo do nada, as pautas são meu chão, meu começo e meu limite.
O que são palavras se não a tentativa de preencher a lacuna entre dois horizontes? E o que são as pautas se não horizontes? As palavras não estão aqui apenas para preencher o espaço entre o eu-escritor e o você-leitor – se é que isso pode ser considerado um espaço –, mas sim para ocupar muitas outras lacunas, entre meus pensamentos e minhas ações, entre seus sentimentos e suas reflexões. Pelo menos é isso que elas tentam.
Quantas vidas já foram modificadas por aquilo que se colocou entre duas pautas ou pela grandiosidade daquilo que cabe em uma única linha? O Papel branco me assusta, as folhas vazias são como a morte, é o silêncio, é o nada. Tudo que surge na folha em branco é antes forma que conteúdo, símbolos profundos flutuando na superfície do nada. É demais para mim. É muito grande, muito forte, eu sou mais fraco, sou pequeno, sou poeta.
***
As palavras tem que ser fáceis. Complicar não é recomendável. Porque dificultar o entendimento? Arte é sentimento, e nenhum sentimento vem de palavras misteriosas. Não é necessário saber o que se quer falar, os dedos se movem sozinhos, a caneta dança no papel, entre as pautas.
Quando escrevo, faço isso para que você leia, e, principalmente, para que você sinta. Não precisa se sentir da mesma forma que eu, isso é impossível, mesmo que minha habilidade fosse perfeita – e sei que está longe disso – ainda não seria possível. Cada pessoa é muito íntima, cada sensação é muito própria. Mas que sinta alguma coisa, qualquer coisa; que signifique algo para você, que te ajude a entender ou a esquecer. Que faça por você uma pequena parte do que faz por mim.
***
Ela estava no ônibus quando percebeu que havia algo de errado com a sua vida. Naquele momento ainda não conseguiu saber do que se tratava, não foi uma epifania, ela não compreenderia aquilo antes que muitos dias tivessem se passado. Mas naquele momento ela soube que havia algo de errado.
Os cabelos cacheados caiam pouco acima dos ombros, o nariz pequeno se dilatava e retraía, como se estivesse nervosa. A pele, levemente morena, estava mais pálida que o normal. Ela não sabia o que havia de errado, mas sabia que não era estar de pé num ônibus que nem sequer estava insuportavelmente lotado, era algo muito mais profundo, muito mais difícil de ver, ao menos para alguém que olhasse de perto para a própria vida, como ela então fazia.
Ainda um tanto pálida e com os olhos agora brilhando, perdeu o ponto no qual deveria descer, mas não lhe fez mal, o próximo não era assim tão longe, e ela agradeceria – se conseguisse pensar nisso naquele momento – pela chance de caminhar um pouco sob a lua e as estrelas que tinham surgido no céu a pouco, no clima agradável de uma noite em maio.
Muitas coisas poderiam estar acontecendo naquelas ruas enquanto ela andava, mas em nenhuma delas ela prestou atenção. Até mesmo atravessar a rua não foi muito mais que um reflexo, não precisou pensar para fazer, e não é assim grande parte das coisas que fazemos no nosso dia-a-dia? Acabamos perdendo muitos momentos simplesmente porque não prestamos atenção, estamos pensando em outra coisa, e funcionando no piloto-automático. Isso não é uma coisa ruim, não, de forma alguma, muitas vezes é isso e apenas isso que faz alguns dias de nossas vidas suportáveis de tão tediosos, muitas vezes são nesses momentos em que pensamos nas coisas que realmente nos são importantes, muitas vezes são esses os momentos nos quais descobrimos o que realmente nos é importante, e como algumas coisas pequenas ganharam espaço em nossas mentes sem nem ao menos termos percebido até então. Mas não ela não estava pensando em nada disso.
Na verdade é difícil dizer que ela estava realmente pensando em alguma coisa. Talvez fosse mais fácil comparar aquele estado com alguma droga. Uma droga muito potente, e aparentemente sem muitos efeitos colaterais. Quem olhasse para ela enquanto atravessava a rua nunca imaginaria o que se passava naquela cabeça, e teria que conhecê-la muito bem para perceber que estava pálida. Ela conseguia sentir o vento em seu rosto, em seu cachos, e não porque era um vento violento, mas por que ele estava lá, como sempre está e nunca percebemos. Por dentro também, era como se uma brisa suave balançasse as folhas da árvore da consciência, deixando-as temporariamente inconscientes da sua consciência.
Entrar em casa foi a mesma coisa. Abriu e fechou as portas, abriu as janelas, acendeu as luzes e tirou o cachecol. E não foi sem um pouco de surpresa que percebeu que estava em casa. Agora ela sabia que algo havia de errado, e não desistiria antes de descobrir o que era. Mas foi essa a vez na qual percebeu que estava em casa, e foi nessa vez em que finalmente estava certa.
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domingo, 3 de abril de 2011
Pulp Literature #4
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